


Eoin Colfer

A LISTA DOS DESEJOS
Traduo de MARCELO MENDES














A Donal "O senhor do amor"


CAPTULO 1

A DUPLA

MEG E BELCH estavam no meio de um servio. Meg e Belch. At poderiam ser uma dupla de comediantes. Mas no eram. No havia nada de cmico em invadir o apartamento
de um aposentado.
      Raptor babava nas botas de Meg.
      - A gente precisa mesmo desse vira-lata? - sussurrou ela, limpando as botas num canteiro de flores.
      Belch virou-se para trs, dando as costas para a janela. Seus olhos, parecidos com os de um porquinho, faiscavam sob a cabeleira espetada, lambuzada de gel.
      - Raptor no  um vira-lata. Ele tem pedigree.  de uma longa linhagem.
      Meg revirou os olhos.
      Belch voltou ao arrombamento da janela, enfiando a ponta da chave de fenda entre a esquadria e o parapeito.
      Pela milsima vez, Meg Finn perguntou-se o que estava fazendo ali. Como havia chegado to baixo, espreitando aqueles apartamentinhos na companhia de um verme 
como Belch Brennan? Vendo sua prpria expresso de desgosto refletida nas vidraas, enxergou nela o rosto da me. Os mesmos olhos grandes e azuis, as mesmas tranas 
louras, os mesmos vincos entre as sobrancelhas. O que ela teria a dizer sobre aquela mais recente estripulia? Meg ficou vermelha e, assim, percebi qual era a resposta. 
Algo se partiu na esquadria da janela.
      - Agora d pra entrar - disse Belch. - Anda, vem. Raptor escalou a mureta e pulou para o interior escuro. Ele funcionava como uma espcie de batedor, cuja 
misso era identificar os perigos. Suas ordens eram claras. Morda tudo o que encontrar pela frente. O que gritar  perigo.
      O pitbull no era l muito jeitoso e trombava em cada um dos mveis do primeiro andar.
      - Por que a gente no toca a campainha logo de uma vez? - resmungou Meg.
      - Ah, pra de reclamar, garota - devolveu Belch. - O velho Lowrie  surdo como uma porta. A gente poderia soltar foguetes aqui dentro, e ele continuaria roncando.
      Belch passou o corpanzil pela janela, revelando o barrigo mole e deixando Meg enojada com aquela cena ridcula. Dali a pouco, voltou ao parapeito e perguntou:
      - Ento, voc vem ou no vem?
      Meg hesitou um instante. Ali estava ela, na fronteira entre a simples audcia e a pura maldade. A deciso era inteiramente sua.
      - No vai amarelar agora, vai? - emendou Belch.
      - No tenho medo de nada, ouviu bem, Belch Brennan? Belch deu um sorrisinho de sarcasmo e disse:
      - Ento prove.
      Meg sabia que estava sendo manipulada. Mas no podia resistir a um desafio. Firmando as mos no parapeito, saltou facilmente para dentro.
      -  assim que se faz, pateta - arriscou-se a dizer.
      O comentrio talvez lhe custasse caro mais tarde. No entanto, nem mesmo Belch perderia tempo com discusses no meio de um roubo. Felizmente ele tinha a memria 
de um peixe de aqurio, um daqueles bem gordos, e decerto no se lembraria de nada depois.
      O cmodo cheirava a mofo e remdios. Um cheiro que Meg j havia sentido antes, quando passara a noite num sof, no corredor do hospital onde sua me estava 
internada. Um cheiro que a fazia se sentir ainda mais culpada. Como da podia fazer aquilo? Roubar um aposentado indefeso?
      Ela podia, sim, porque precisava do dinheiro para fugir. Fugir de Franco de uma vez por todas. Pegar a barca para Fishguard e nunca mais voltar.
      Pense na barca, disse ela a si mesma. Pense na fuga. Consiga esse dinheiro do jeito que for.
      O quarto estava entulhado de coisas de velho. Vidros de comprimidos, latinhas de Vick. Nada de valor. Mas Belch surrupiava tudo o que via pela frente.
      - Podem ser para o corao - sussurrou Meg, referindo-se aos comprimidos. - Talvez o homem tenha um ataque quando descobrir que foi roubado. Se ele morrer, 
voc vai ser um assassino.
      Belch deu de ombros.
      - E da? Menos um rabugento na face da Terra. Puxa, quanta aporrinhao. No sei por que voc fica a, reclamando de tudo. Afinal,  s uma assistente.
      Meg abriu a boca para dizer alguma coisa, mas acabou desistindo. Belch tinha razo. Ela no passava de uma ajudante, cmplice de tudo o que pudesse acontecer 
dali em diante.
      - Ento pra de resmungar e vai ver o que tem dentro daquele armrio ali. Esse p-na-cova deve ter dinheiro escondido em algum lugar. Todos eles tm. Pra deixar 
de herana pra algum.
      Mais uma gota de sabedoria por parte de Belch Brennan. Hesitante, Meg levou a mo ao puxador do armrio antigo. Vai, abre, disse a si mesma. E depois encare 
as conseqncias. Seus dedos tremiam de medo e vergonha. Fotografias velhas decoravam as prateleiras. Olhos amarelados acusavam-na do outro lado das vidraas turvas. 
Meg Finn talvez fosse uma pessoa audaciosa, mas no era m.
      Belch empurrou-a para o lado com uma cotovelada.
      - Covarde - bufou ele.
      Foi ento que a luz se acendeu. O velho Lowrie McCall estava parado nas escadas, empunhando uma espingarda velha. Por certo no era to surdo quanto Belch 
havia suposto.
      - O que vocs dois esto fazendo aqui? - indagou com a voz rouca, ainda meio sonolento. A resposta era um tanto bvia. Dois invasores. No meio da noite. Remexendo 
nas coisas dele. O que mais poderiam estar fazendo? Lowrie engatilhou a espingarda. - E ento? Fiz uma pergunta!
      Belch arrotou discretamente antes de responder:
      - Estamos roubando voc, seu velho rabugento! Achou que fosse o qu?
      Lowrie desceu as escadas.
      - Achei isso mesmo, panudo - respondeu ele, franzindo a testa. - Agora tire as patas do meu armrio antes que eu abra meia dzia de buracos nessa sua cabea 
oca.
      Meg ficou surpresa. Aquilo mais parecia um programa de televiso. Um daqueles policiais americanos em que todas as meninas usam rabo-de-cavalo. Se o roteiro 
fosse esse, Belch faria alguma tolice, e o velho seria obrigado a apagar os dois ali mesmo.
      Mas no foi o que aconteceu. Reconhecendo o inimigo, Raptor mirou na direo das canelas peladas que via sob a bainha de uma camisola de dormir. Abriu a bocarra 
at estalar os tendes e cravou os dentes na panturrilha do velho. Urrando de dor, Lowrie comeou a dar coronhadas na cabea do pitbull. Mas era como se estivesse 
dando coronhadas num bloco de cimento. Quando abocanhava uma coisa, Raptor s largava sob o comando de Belch - ou quando a vtima estivesse morta.
      Meg ficou apavorada.
      - Diz pra ele soltar, Belch! Anda, diz!
      - No estamos com pressa. Esse velho precisa de uma lio, por ter apontado uma arma pra mim.
      - Manda ele soltar! Manda ele soltar!
      Gritando de pnico, Meg aproveitou a oportunidade para tirar a espingarda de Lowrie McCall.
      Belch ficou pasmo. Aquela garota imbecil estava chorando! Soluando como um bebezinho! E agora apontava a espingarda para Raptor.
      - Ficou maluca, Meg?
      Na verdade, era at engraado. Seria possvel que ela no soubesse nada a respeito de armas?
      - Tira esse cachorro daqui! Eu estou avisando!
      - Isso a  uma espingarda, idiota. - Belch falou como se estivesse diante de uma criancinha. - Se atirar dessa distncia, vai acertar o velhote tambm.
      Meg pensou um instante.
      - No tem importncia. Pelo menos ele vai morrer depressa. Vou contar at trs, Brennan. J que voc no sabe o que  quatro nem cinco!
      Belch ficou na dvida. No estava acostumado a pensar assim, to rpido.
      - Um...
      Meg faria mesmo aquilo? Provavelmente no. Era fraca demais.
      - Dois...
      Pensando bem, depois do que ela fizera ao padrasto, o tal de Franco... Alm disso, era uma menina. Quem entendia as mulheres?
      - Tr...
      - Est bem, est bem! - Melhor no arriscar. Haveria tempo suficiente para uma boa vingana mais tarde. - Raptor! Junto!
      O cachorro rosnou, relutante em abrir mo daquele prmio que no parava de se contorcer.
      - EU DISSE JUNTO!
      Por fim o pitbull cedeu e, cuspindo os restolhos da panturrilha do velho, voltou para o lado do dono.
      Meg ajoelhou-se ao lado de Lowrie McCall, que tremia sobre o carpete, com sangue jorrando da ferida aberta. Um brilho mais claro misturava-se ao vermelho das 
carnes. Para seu horror, Meg percebeu que era um pedao de osso.
      - O que foi que a gente fez? - disse ela, ainda chorando. - O que foi que a gente fez?
      Belch permanecia impassvel.
      - Qual  o problema? Um p-na-cova bate as botas alguns dias mais cedo. E da?
      Meg enxugou as lgrimas dos olhos.
      - Precisamos chamar uma ambulncia. Depressa!
      - No vai dar - disse Belch, balanando a cabea. - Agora no tem mais volta.
      A vista de McCall j comeava a se embaralhar.
      - Por favor... - sussurrou ele.
      Meg apontou a espingarda na direo de Belch.
      - Anda! Vai chamar uma ambulncia!
      - No adianta, Meg.
      - Eu assumo a culpa de tudo. Agora vai!
      - Isso - disse Belch com ironia. - Diga aos tiras que voc mordeu a perna do velho.  claro que eles vo acreditar.
      Ele tinha razo. Todos os policiais da cidade conheciam Belch Brennan e seu vira-lata. No havia sada. Pela primeira vez na vida Meg Finn no conseguiria 
usar a lbia para se ver livre de uma enrascada.
      E ento as coisas pioraram. Aproveitando o estado de Meg, Belch tomou a espingarda das mos dela. Depois abriu um sorriso de dentes amarelos e disse:
      - Voc apontou uma arma pra mim, foi isso?
      Meg sentiu as lgrimas borbulharem novamente sob as plpebras.
      - Ele est sangrando muito, Belch. Talvez esteja morrendo! Belch deu de ombros.
      - E da? - Ele levantou os olhos na direo de Meg. - Agora  com voc que eu tenho de lidar.
      - Belch! Chame uma...
      - Minha reputao est em jogo. Se um dos rapazes ficar sabendo que uma garota apontou uma arma pra mim e sobreviveu...
      Meg conhecia Belch. Ele agora faria um longo discurso, como deveriam fazer os homens dures. E no final estaria to empolgado que ningum poderia prever seu 
passo seguinte.
      Meg resolveu no esperar para descobrir. Sem dizer uma palavra, partiu em disparada e se jogou pela janela ainda aberta. Belch acenou para o afoito pitbull.
      - Pega, Raptor! Traz a garota de volta.
      Raptor lambeu os beios e l se foi. Agora era uma questo de tempo. Ningum escapava dele. Belch ajoelhou-se ao lado do velhinho plido.
      - No sai da, Lowrie. Volto j. O aposentado no disse nada.
      Meg havia concebido um plano quando decidira fugir. Correria at a primeira casa com luzes acesas e esmurraria a porta. A essa altura tinha conscincia de 
que seria prefervel enfrentar a polcia a deixar Lowrie morrer. No entanto, cometeu um nico erro. Um erro fatal. No meio daquela confuso toda, seguiu para a direita 
ao invs da esquerda.  esquerda encontrava-se uma espcie de ptio, cercado por praticamente todos os apartamentos alugados. Aquilo teria sido a salvao. Mas  
direita ficava a rea de manuteno. Uma antena central e um tanque de gs. Um beco sem sada.
      Raptor no tardou a chegar, invisvel na escurido, a no ser pelas presas reluzentes e pelos jatos de vapor que escapavam das narinas. Parou de repente e 
fincou as patas, bloqueando a sada do beco.
      - X! - disse Meg, na esperana de que adiantasse alguma coisa. - Volta pra casa, amigo!
      Se fosse possvel, o cachorro teria sorrido com deboche. Jamais deixaria aquela garota passar.
      A sombra de Belch esparramou-se no cho estreito do beco.
      - Voc  uma ladra de meia-tigela, Meg. Que idia foi essa? Fugir para um beco sem sada?
      As bocas do cano duplo da espingarda brilhavam na penumbra como dois olhinhos negros.
      - Belch. Pelo amor de Deus. Chame uma ambulncia... Lowrie ainda pode sobreviver!
      - Lowrie, sim. Mas voc...
      Meg sentia nas costas o metal frio do tanque de gs, o friso da solda. No tinha para onde ir. Os canos da espingarda se viraram contra ela.
      - Deixa disso, Belch. No tem graa nenhuma.
      - No estou rindo, Meg Finn. Verdade. No estava mesmo.
      - Voc no vai ter coragem de atirar em mim. Ento me d umas pancadas e acabe logo com isso.
      Belch deu de ombros.
      - Na verdade, no me resta outra escolha. Voc no teria problemas.  menor de idade. Mas eu tenho dezesseis anos. Sou legalmente responsvel pelos meus atos. 
Isso significa que eu iria pra cadeia. Acho que voc abriria o bico.
      Um dia antes Meg teria dito: "Voc acha, Belch? Est brincando!" Mas agora no. Aquele Belch era outra pessoa. O Belch das trevas.
      - No vou dizer nada, pode ficar tranqilo. Sou sua cmplice!
      - Verdade. Mesmo assim...
      Belch no completou seu pensamento. Meg sabia que cabia a ela dar alguma prova de lealdade. Precisava dizer o que ele queria ouvir.
      - Quem se importa afinal... - resmungou, atropelando as palavras como se tivesse cacos de vidro na garganta. - Quem se importa se um velhote bater as botas? 
Eu  que no me importo.
      Belch avaliou o rosto da comparsa  procura de algum sinal de falsidade. E aparentemente encontrou.
      - Sinto muito - disse. - No acredito em voc.
      Ento se deu o grande erro. Um erro que fazia todos os outros daquela noite parecerem meros descuidos. O ltimo que Belch cometeria na vida.
      Meg estava certa. Belch no tinha inteno de mat-la, apenas de amedront-la um pouco. Era uma espcie de delinqente e conhecia muito bem o funcionamento 
de uma espingarda. Sabia que, se atirasse quela distncia, acertaria o tanque de gs e acabaria mandando a ambos para o inferno. No entanto, um simples disparo 
de advertncia... isso talvez funcionasse. Belch levantou a espingarda quase verticalmente e colocou o dedo no gatilho.
      Meg logo percebeu o que ele pretendia fazer. Achou que ele tinha ficado maluco.
      - No, Belch! No!
      Tarde demais. O gatilho j estava a meio caminho. No haveria tempo de faz-lo mudar de idia. At porque mudar de idia no era o forte de Belch, que sorria 
s de ver o terror estampado nos olhos dela.
      A exploso foi tremenda, preenchendo todos os cantos do beco, retumbando em torno de Meg e Belch, perfurando os tmpanos de ambos. Mas eles j no sentiam 
mais nada. Estavam mortos, os dois.
      Bastou uma nica bala. Uma bolinha minscula com um friso nas curvas. Esse friso serviu como uma espcie de nadadeira, fazendo com que o projtil desviasse 
de sua rota original e descesse chiando, superaquecendo-se numa frao de segundo. Um tanque novo teria evitado a tragdia, mas aquele ali deveria ter sido trocado 
uns dez anos antes. O metal enferrujado, sem oferecer a menor resistncia, permitiu que a pequenina esfera aquecida entrasse em contato com o gs altamente inflamvel. 
BUUUMMM!

???
      
      Um naco de metal escurecido bateu forte em Meg Finn, imediatamente separando sua alma do corpo.
      Os primeiros momentos na condio de esprito so bastante perturbadores. A mente ainda funciona como antes e tenta explicar atravs da fsica os fenmenos 
do mundo espiritual. Como  possvel estar voando por um tnel enorme e ao mesmo tempo ver o corpo estirado no cho em meio aos escombros de um tanque de gs? No 
faz sentido. Concluso:  um sonho.
      Ento  isso, disse Meg Finn a si mesma, estou sonhando. Um sonho bom, para variar. Nenhum padrasto com machado na mo, nenhum guarda brutamontes jogando-a 
na carroceria de um furgo da polcia. Meg decidiu relaxar e se divertir.
      O tnel era to grande que parecia no ter fim. A iluso era ainda maior em razo dos anis de luz azul que pulsavam ao longo do caminho como os msculos do 
corao de uma criatura fantstica. Pontinhos iluminados pairavam no ar ligeiramente liqefeito. Meg deu-se conta de que esses pontinhos eram, na verdade, pessoas.
      Pessoas flutuando num tnel? Ela j no havia ouvido isso antes? Uma histria de tnel e luzes?
      Ento disse a si mesma: estou morta. Achou que ficaria terrivelmente abalada com a descoberta. Que nada. Nenhum chilique. Nenhuma lgrima. Era como se o tnel 
tivesse anestesiado sua mente. No que sua vida houvesse sido um parque de diverses. Talvez estivesse melhor morta. Talvez voltasse a encontrar a me. Mas Mam certamente 
estaria no Cu, enquanto, Meg, dificilmente iria para l.
      Talvez pudesse passar a perna em So Pedro com aquela lengalenga da sociologia: a culpa no  minha,  da sociedade, blablabl... Sempre funcionava no juizado 
de menores. Ningum resistia s lgrimas quando ela contava a histria do acidente de Mam. Mas no Cu era bem possvel que as coisas fossem mais complicadas.
      Algum chamava seu nome. Provavelmente um anjo com a misso de convenc-la a aterrissar no campo de pouso celestial. Um anjo meio canino, diga-se de passagem. 
Anjos deveriam surgir tocando harpas, com vozes... angelicais. Mas aquele ali, fosse l o que fosse, dava a impresso de estar mastigando uma pasta de piche.
      Meg virou-se lentamente. No era a nica pessoa flutuando naquela corrente especfica. Algum, ou algo, estava girando em torno dela. Ora parecia um cachorro, 
ora um menino. Feies caninas brotavam debaixo de uma camada de pele humana, algo parecido com um efeito grfico de um computador. Horrvel. Grotesco. Mas ao mesmo 
tempo familiar.
      - Belch? - disse Meg, hesitante. -  voc?
      Ela estranhou a prpria voz, que ameaava falhar a qualquer momento. A coisa que antes havia sido Belch no fazia mais que uivar como o Scooby-Doo. Mesmo assim, 
Meg tinha certeza: aquele ali era seu ex-parceiro. Ao que parecia, a exploso havia produzido um efeito e tanto no garoto e no pitbull. Belch e Raptor agora formavam 
uma coisa s, como se tivessem sido misturados num liqidificador. Na verdade, a nova mistura at que caa bem em Belch. Como se j estivesse dentro dele desde o 
incio.
      - Belch? Se liga, cara!
      O menino-cachorro olhava horrorizado para as prprias mos, que se metamorfoseavam em patas de pitbull. Lgrimas e baba rolavam pelo rosto dele, pingando em 
gotas grandes do queixo peludo.
      Essa no, pensou Meg. Alm de me meter com ele na Terra, agora vou ter de atur-lo por toda a eternidade.
      - Meg! Me ajuda!
      Belch olhava para ela com uma cara de cachorro sem dono. Pattico.
      - Corta essa, Belch! Voc tentou me matar! - Tentou, no, matou. A ela e a si prprio tambm. - Assassino!
      O antigo Belch teria revidado. Mas aquela coisa em que ele se transformara no fez nada alm de ganir de um jeito lamentvel.
      - A culpa  toda sua - continuou Meg. - Falei pra voc no atirar! Eu falei!
      De repente eles dobraram uma curva. Mais adiante, o tnel se dividia em dois. Como era de se esperar. Uma rota para cima, outra para baixo. O bem e o mal. 
O cu e o inferno. Meg engoliu a seco. A hora havia chegado. Hora de pagar por todos os males que ela havia infligido ao povo de Newford.
      A corrente carregava-os a uma velocidade impressionante. Nenhum atrito. Nenhum vento fustigando as roupas ou enfunando as bochechas deles. Apenas uma baforada 
quente que vinha da boca inferior do tnel. Chegando mais perto, Meg viu algumas figuras tisnadas, com forcados na mo, arrancando das paredes as almas que se recusavam 
a descer para o inferno.
      Aquilo no era real. No podia estar acontecendo. Garotas de quatorze anos no morriam; passavam por uma fase difcil e depois seguiam em frente.
      Meg agora podia ver mais detalhes. Os olhos vermelhos e demonacos das criaturas do tnel. O brilho prateado dos tridentes. A satisfao profissional estampada 
no sorriso delas.
      Belch gania sem parar, agitando os braos no ar pesado, como se aquilo pudesse salv-lo. Meg preparou-se para o pior.
      O porto do inferno estava cada vez mais prximo. Parecia grande como o sol, e quase to quente quanto. Meg fechou as mos em punho. No desceria sem dar trabalho.
      Mas ento sua rota mudou. S um pouquinho, para estibordo, o bastante para afast-la da passagem inferior. Ela exalou um longo suspiro de alvio. Purgatrio, 
limbo, reencarnao... tanto fazia. Qualquer coisa seria melhor que o inferno - ou o que estivesse no fim daquela passagem vermelha.
      A criatura Belch-Raptor no contou com a mesma sorte. Num timo, foi arrastada pela corrente fumegante e desapareceu nas profundezas do inferno.
      Meg no tinha tempo para se preocupar com o destino do comparsa. Notou que a fora que a impelira at ali havia desaparecido, abandonando-a ao sabor do prprio 
impulso. A parede do tnel j estava bem prxima. Era azul e dava a impresso de ser macia. Se no fosse macia...
      No era. Meg esborrachou-se numa superfcie dura, a uma velocidade terrestre de quatrocentos quilmetros por hora. No que a velocidade fizesse alguma diferena 
no plano espiritual, onde os princpios da cintica no valiam um tosto furado. Mesmo assim, a pancada foi das boas. Doeu.













CAPTULO 2

MORTINHA DA SILVA
      
O DIABO no estava nada contente.
      - Duas almas - disse ele, tamborilando as unhas lixadas sobre o tampo da mesa. - Eu estava esperando duas almas hoje.
      Belzebu ficou aflito.
      - Mas chegaram duas, Mestre. Quer dizer, mais ou menos. Eles... ele... enfim, a coisa foi colocada no poo dezenove.
      - Duas almas humanas, imbecil! - rosnou Sat. Raios minsculos espocavam entre os chifres dele. - No um garoto e seu cachorro! Por falar nisso, como foi que 
um cachorro entrou aqui?
      - Eles estavam... misturados - disse o ajudante do Diabo, consultando uma prancheta. - Um acidente dos inf... dos cus! O garoto  um verdadeiro discpulo. 
Fez uma extraordinria passagem pela Terra. Bateu em gente menor que ele, maltratou os animais, roubou, matou... Uma folha corrida to longa quanto o rabo do Mestre. 
E o cachorro tambm, um fiel escudeiro de Sat! As vendas de injees de ttano subiram cinqenta por cento no primeiro trimestre!
      O Senhor das Trevas no se mostrava nem um pouco impressionado.
      - Um molenga, isso sim!
      - Quem, o cachorro?
      - No, palerma! O garoto! Sem imaginao... um brutamontes.
      Belzebu deu de ombros,
      - O mal  o mal, Mestre.
      Com um dedo esqueltico, Sat fez que no.
      -  a que voc se engana, meu amigo. Por isso voc no passa de um lacaio, enquanto eu sou o incontestvel Senhor do Submundo. Voc no tem viso, Zeba, no 
tem traquejo.
      Belzebu cerrou as presas dentro da boca. Detestava ser chamado de Zeba. Ningum, alm de Sat, ousava cham-lo daquela forma to condescendente... bem, talvez 
uma nica pessoa: um santo chamado Pedro.
      - Esses pecadores no tm longevidade - continuou Sat. - Morrem cedo demais pra fazer o estrago necessrio. Cometem um nico pecado mais cabeludo e logo vo 
embora. No se do ao trabalho de planejar, entende? No pensam num jeito de se safar.
      Belzebu balanava a cabea em sinal de respeito, como se no ouvisse aquela ladainha pelo menos umas vinte vezes a cada milnio.
      - Um pecador criativo, por sua vez,  capaz de espalhar a palavra das Trevas durante dcadas, antes que algum bote as mos nele. Isso quando algum consegue 
botar as mos nele.
      - Verdade, Mestre. Verdade. Sat estreitou os olhos, desconfiado.
      - Voc no est tentando me agradar, est?
      - Claro que no, Mestre - respondeu o ajudante-mor, tremendo nas bases. - Claro que no.
      - Ainda bem. Porque se eu desconfiar, por um segundo que seja, que voc no est prestando total ateno no que eu digo, tiro voc daquele apartamento com 
vista pra Plancie do Fogo e o jogo direto no Poo do Esterco!
      Belzebu roou os dentes do forcado nos lbios subitamente secos. No chegava a se incomodar com o esterco nas horas de trabalho, mas precisava de um descanso 
de vez em quando.
      - Falando sinceramente, Mestre. O recm-chegado  excepcional. Especialmente... nesse novo estado em que se encontra. Um tanto grosseiro,  verdade, mas com 
certeza vai dar um excelente churrasqueira.
      - Churrasqueira? E o que a gente vai fazer com mais um churrasqueira? O que eu preciso  de um bom endemoniado, de algum com senso de humor. - O Diabo alisou 
o cavanhaque negro como piche. - A tal garota... Aquela que eu tinha planejado receber pessoalmente. Onde est?
      Belzebu virou uma pgina na prancheta.
      - Na verdade...
      - No v dizer que...
      - Ela atravessou o tnel e...
      - Voc deixou que ela se extraviasse! Acabrunhado, Belzebu fez que sim com a cabea.
      - A nica alma que peo pra voc acompanhar, e voc me apronta essa! Acho que est ficando velho pro trabalho, Zeba.
      - De maneira alguma - retrucou o Nmero Dois, consciente do que acontecia aos demnios fora de forma. - As cmeras de vigilncia no esto funcionando. Por 
isso, tivemos de contar com a ajuda dos caros do tnel. O Mestre sabe que no se pode confiar nas informaes daqueles trastes, especialmente dos que tm se alimentado 
com o resduo das almas.
      Sat suspirou.
      -  s isso que voc tem pra me dar, Zeba? Justificativas? Pra que serve toda essa tecnologia, o nosso sistema de vigilncia do limbo, a ecto-rede, se a gente 
tem de confiar nas informaes daquele bando de traas desmioladas?
      - Myishi garantiu que logo, logo o sistema estar no ar novamente.
      Sat franziu as sobrancelhas e disparou:
      - Sabe quanto me custou a alma daquele nerd? Uma fortuna! E ele sequer  capaz de consertar uma meia dzia de monitores!
      - Mestre, daqui a p...
      - Agora! Quero que voc encontre aquela alma extraviada j! Talvez esteja agarrada numa das estalactites do tnel! Se for uma alma sem dono, que o dono seja 
eu, ora bolas!
      - Mas, Mestre... - protestou Belzebu. - Um nibus cheio de advogados vai cair no Grand Canyon logo mais  tarde. O movimento vai ser grande!
      Sat cravou os cascos no cho e ficou de p. Seu palet de risca de giz, feito sob medida, desmanchou-se numa chama azulada, revelando um emaranhado de tendes 
vermelhos.
      Nada como um gesto teatral, pensou Belzebu com seus botes.
      - No preciso de advogados coisa nenhuma! Quem vai me processar afinal? Ningum! Preciso da garota, isso sim! Voc no leu o arquivo dela? No sabe o que ela 
fez com o prprio padrasto? Brilhante. Totalmente original. - O Diabo mudou de tom de repente, adocicando a voz. Quando falava assim, era extremamente persuasivo. 
E perigoso. - Encontre essa menina pra mim, Zeba. Traga-a at aqui. Se precisar, convoque uma tropa de resgate, no me importo. Encontre essa garota, seno... - 
Belzebu j esperava pela ameaa. - Seno vou ter de entrevistar candidatos a um posto recentemente desocupado. O seu!
      Sat trotou at um canto e comeou a desfiar a carcaa suspensa de uma vaca morta. A reunio estava encerrada.

???
      
      Belzebu embarafustou-se corredor afora, usando o tridente para vaporizar almas perdidas aqui e acol. J no se alegrava tanto com o vagido que elas produziam 
antes de sumirem no ar. Detestava quando o Mestre tinha uma daquelas suas crises de obsesso. Precisava encontrar aquela alma em particular; nenhuma outra serviria. 
Deus ajude..., pensou ele, corrigindo-se logo em seguida: Lcifer ajude o demnio que no cumprir as ordens do Mestre! Belzebu apressou o passo. Naquelas bandas, 
sequer deveria pensar na tal palavra que comeava com D. De alguma forma o Mestre sempre acabava descobrindo.
      Mas, afinal, o que havia de to especial com aquela alma? Uma garota irlandesa. A bem da verdade, houvera um tempo em que a captura de um nativo da "Terra 
dos Santos e dos Eruditos" era considerada um acontecimento importante, mas era coisa de um passado remoto. Agora havia tantos irlandeses no inferno quanto nos Estados 
Unidos.
      Belzebu entrou numa alcova escura e das dobras da tnica de seda tirou um celular preto. Uma belezura de aparelho. Lustroso, imponente. Myishi havia descolado 
dois deles na surdina. Segredo de Estado. Nem mesmo o chefe sabia da existncia dos tais telefones. Uma safadeza, claro. Mas Belzebu, afinal, era um demnio.
      O teclado do celular no tinha nmeros, apenas botes com funes variadas. Tratava-se de uma linha privada, que dava acesso a uma nica pessoa. Belzebu hesitou 
um instante, mas depois apertou um dos botes com o dedo verruguento. No tinha escolha. Corria o risco de perder o apartamento. E achar um bom apartamento naquelas 
redondezas era um verdadeiro inferno.
      So Pedro no estava nem um pouco satisfeito. Ora, se era mesmo um santo importante, um manda-chuva, por que tinha de ficar plantado naquele porto o tempo 
todo, enquanto os outros se fartavam com os frutos celestiais? Por que Mateus no revezava com ele de vez em quando? Ou Joo? Ou Judas? Se algum lhe devia um favor, 
esse algum era Judas. Alis, muita gente achava por l que o coletor de impostos sequer devia estar no Cu. E se no fosse pelo Pedroca aqui, que  poca dera uma 
forcinha, ele ainda estaria vagando pelo purgatrio com o resto da ral.
      Pedro abriu o pesadssimo livro de dbitos e crditos. O que ele no daria por um bom computador! Um servidor poderoso com diversas estaes de trabalho. Mas 
raramente chegavam nerds nos portes perolados do paraso. A maioria saa pela outra boca do tnel, especialmente depois que Lcifer comeou com aquela promoo 
de "seja dono da sua prpria alma depois de um sculo". Assim, ele era obrigado a fazer a contabilidade manualmente.
      O sistema de pontuao era muito complicado, concebido milhares de anos antes. Alm disso, claro, novas transgresses eram acrescentadas todos os anos. Boy 
bands e mmicos de rua eram duas categorias recentes com altssima incidncia.
      Apesar de complicado, o sistema no dava margem a dvidas. Mesmo que uma pessoa contasse com pontos suficientes para escapar do inferno, no significava que 
ela j tivesse lugar garantido no cu. Ainda lhe restava a possibilidade do purgatrio, do limbo ou da reencarnao. Na hiptese de um resultado muito apertado, 
ela contaria com o benefcio de uma entrevista particular com o apstolo-chefe. Dizia-se  boca mida que Pedro era rpido demais no gatilho da detonao. Milhares 
de almas nos planos inferiores rezavam para que ele pendurasse logo as chuteiras.
      A boca do tnel pulsava acima da cabea do santo, num cu azul-celeste. Uma paisagem lindssima, mas Pedro nem se dava mais ao trabalho de olhar.
      Uma alma emergiu do tnel e aproximou-se lentamente do nvel onde ficava o escritrio de Pedro. O santo passou o dedo pela lista de nomes. Luigi Fabrizzi. 
Oitenta e dois anos. Morte natural.
      - Scusi - disse o italiano.
      - Atrs da linha, por favor - resmungou Pedro, automaticamente, batucando a caneta no tampo da mesa.
      O Sr. Fabrizzi olhou para baixo e viu um alapo de bronze no meio do piso de mrmore.
      - Sua situao no  das piores - comentou Pedro, num italiano perfeito. A facilidade com as lnguas estrangeiras era mais um dos presentinhos do Chefe. - 
Uma vida correta no incio, mas, nos ltimos dez anos, voc se mostrou um tanto rabugento.
      O italiano deu de ombros.
      - Sou velho. Tenho direito de ser rabugento. Pedro recostou-se na cadeira. Adorava os italianos.
      -  mesmo? E em que parte da Bblia voc leu isso?
      - Em parte nenhuma.  s o que eu acho.
      Pedro rilhou os dentes. Quem, a no ser um italiano, provocaria uma discusso nos portes do paraso?
      O santo fez seus clculos rapidamente. Impressionante como os pecadilhos mais banais acabavam rendendo uma bela pontuao.
      - Sei no, Luigi. Essa histria toda de Mfia nos anos cinqenta. Acho que voc passou dos limites.
      Fabrizzi ficou plido.
      - Quer dizer ento que eu...
      - . Infelizmente. - Com o mximo de discrio, Pedro levou a mo ao compartimento sob o tampo da mesa, onde ficava o boto do limbo.
      O italiano juntou as mos e ps-se a rezar quando... o telefone tocou.
      Pedro revirou os olhos. Belzebu outra vez! Seria possvel que aquele demnio no conseguisse fazer nada sozinho? - Al - respondeu o santo.
      - Sou eu, Belzebu - disse o outro, sussurrando.
      - No diga.
      - Pois , compadre...  que surgiu um probleminha por aqui.
      - Achei que voc gostasse dos probleminhas.
      - No desse tipo. Corro o risco de perder o emprego.
      - Ah - disse Pedro. - Isso  um problema.
      Embora pertencessem a diferentes extremidades do espectro, teologicamente falando, o arcanjo e o demnio haviam desenvolvido certa proximidade ao longo dos 
sculos. Nada de muito significativo. No trocavam segredos profissionais ou coisa parecida, mas ambos tinham conscincia das semelhanas entre suas atividades. 
Alm disso, davam-se conta das vantagens, tanto para um quanto para outro, de evitar que os espritos terrenos destrussem o planeta. Afinal, de que serviria um 
esprito, se no houvesse corpos? Assim sendo, Pedro e Belzebu estavam sempre se falando. At ento, essas conversinhas espordicas haviam conseguido evitar diversos 
assassinatos presidenciais e uma guerra mundial. Caso Belzebu viesse a ser substitudo, o novo Nmero Dois talvez no demonstrasse a mesma flexibilidade.
      - Ah... Scusi, Santa Pietro... - disse Luigi, repentinamente solcito.
      Irritado, Pedro acenou com a mo para que ele entrasse.
      - Anda, vai. E basta dessa histria de gngster, ouviu bem?
      - Si. Si. Basta dessa histria de gngster.
      Luigi saltitou paraso adentro, com miraculosa tepidez.
      - Ento, Zeba, o que foi que houve? - disse Pedro ao telefone, com um sorriso no canto dos lbios. Sabia que a meno do apelido deixaria seu interlocutor 
furioso. Mas, como ele precisava de um favor, teria de engolir o sapo.
      - O Mestre est procurando por uma alma.
      - E o tal nibus cheio de advogados?
      - No serve.  uma alma especfica. Caso ela tenha aparecido por a, talvez a gente possa fazer uma troquinha.
      - Nem pensar. Uma alma inocente no Hades. Impossvel.
      - No se trata de uma alma inocente. Ela deveria ter chegado aqui hoje. No sei como conseguiu escapar.
      - Hmm... - Pedro passou os dedos pelas barbas brancas. - Preciso de mais dados.
      - Meg Finn. Quatorze anos. Irlandesa. Exploso de gs. Pedro virou as pginas do livro at a letra E
      - Finn... Finn... Aqui est. Meg Finn. Uma lista considervel de pequenos delitos. Nada de muito significativo na coluna do bem. Exceto essa grande entrada 
no final. Espere um pouco. Vou fazer uma continha.
      Pedro passava o dedo pelas duas colunas, a do bem e a do mal, enquanto computava mentalmente o resultado. Parecia preocupado.
      - Hmm... Isso no pode estar certo.
      - O que foi?
      - S um segundo, Zeba. Vou mandar isto por e-mail para o seu celular.
      Myishi havia equipado os aparelhos com scanner, fax e correio eletrnico. Pedro passou o telefone sobre a pgina em questo e apertou o boto de enviar. Segundos 
depois, ouviu seu interlocutor bufar.
      - No pode ser! - exclamou Belzebu.
      - Voc chegou ao mesmo resultado que eu? - perguntou Pedro.
      - Acho que sim. Um empate perfeito. Ela se safou no ltimo minuto. Que eu me lembre, o nico caso como esse foi o daquele...
      - Daquele roqueiro cabeludo, no foi?
      - Exatamente. E veja a trabalheira que ele deu quando voltou!
      Pedro ficou calado um instante.
      - Esse  um caso delicado, Zeba. Muitas guerras j comearam por motivo semelhante.
      - Eu sei. De repente, uma alma qualquer adquire uma importncia descomunal.
      - , Belzebu... Dessa vez vamos ter de ficar de fora. Um maluco sanguinrio no plano mortal j  o bastante.
      - Claro, claro... - concordou Belzebu placidamente. - No h nada que possamos fazer agora. Vamos deixar que a garota sele seu prprio destino. No vale a 
pena mandar um Caador de Almas nessas circunstncias.
      - Hmm... - murmurou Pedro, com a pulga atrs da orelha. Belzebu nunca era to dcil assim. - Ento, estamos entendidos?
      - Perfeitamente - respondeu o demnio, antes de desligar. Pedro guardou o celular no bolso. Sabia que muita gua ainda estava por rolar sob aquela ponte. No 
se deixara enganar pela conversa mole de Belzebu, que seguramente pretendia mandar algum  Terra com a misso de encontrar a tal alma perdida. Um Caador de Almas. 
Seria possvel que aquele demnio sem juzo colocaria o plano mortal em risco s por causa da irlandesa? Quem era essa Meg Finn afinal? E por que motivo, de uma 
hora para outra, ela se transformara na alma mais importante do cosmo?
      Belzebu espiou para fora. O caminho estava livre. Ento Meg Finn teria de voltar. Mas no seria por muito tempo - apenas o bastante para que ela acrescentasse 
mais uns pontinhos na coluna do mal. Ele cuidaria pessoalmente disso. Devolveria a Lcifer sua almazinha querida e continuaria no emprego, pelo menos at a crise 
seguinte.
      Belzebu havia mentido para Pedro. Pacincia. Era um demnio, no era? O que aquele barbudo metido a bonzinho podia esperar?

CAPTULO 3

FINAIS INFELIZES
      
MEG NO QUERIA abrir os olhos. Desde que permanecesse ali, escondida do outro lado das prprias plpebras, poderia inventar uma histria qualquer para explicar os 
acontecimentos recentes. Resolvido: ela ficaria ali para sempre e sequer daria uma espiadela no lado de fora.
      As dores que ela sentia no corpo inteiro no eram resultado da trombada contra as paredes do tnel azul-celeste, mas da exploso do tanque de gs. Isso tambm 
explicava o fato de ela estar deitada. Com certeza estava num hospital, gravemente ferida. Porm, viva. Quanto s alucinaes, seguramente eram efeito dos analgsicos, 
Ela teria rido, no fosse pelas dores lancinantes que sentia nas costelas. Tudo era muito bvio. A nova histria fazia muito mais sentido que a outra. Meninos-cachorros? 
Tneis gigantes? Onde j se viu?
      Meg estava to propensa a acreditar em sua nova teoria que arriscou abrir os olhos um pouquinho. Tudo azul. Muito azul. Nos hospitais h muito azul. Uma cor 
relaxante.
      Foi ento que um par de olhos injetados, sem nenhum corpo, piscou na paisagem azul, mandando para o espao qualquer esperana de um final feliz.
      Uma arcada de dentes encardidos surgiu sob o par de olhos.
      - Nunca vi nada parecido - disse a boca fantasmagrica. Numa situao daquelas, ficar deitada de olhos fechados revelava-se, quando muito, uma ttica duvidosa. 
Meg ficou de p e recuou at bater as costas na parede do tnel. Isso mesmo, o tnel outra vez. Se ainda havia alguma esperana para a teoria do hospital, desapareceu 
naquele instante.
      - Rastro espectral - continuou a boca. - Azul, vermelho, roxo. Uau, uau, u!
      Rosto, braos e pernas surgiram aos poucos em torno dos dentes pretos. Uma criatura diminuta, com traos humanides, postava-se ao seu lado, na salincia da 
rocha, sobre o abismo do tnel. Tinha a pele azul, da mesmssima cor do tnel. Perfeita camuflagem.
      - O que  voc? - perguntou Meg, hesitante.
      - O que ser eu, quer saber a menina. Eu, ser residente. Voc, intrusa. Nenhum cumprimento? Nenhuma felicitao? Apenas ignorncia e maus modos?
      Meg considerou as opes. A criaturinha era mida o bastante para que ela pudesse acert-la com uma pedra e fugir pela rocha. Mas fugir para onde? Para fazer 
o qu?
      Coando o queixo pontudo, a coisa disse:
      - Deve desculpar Flit, senhorita. Visitante nunca pousa. S flutua. Zum, zum, zum!
      - Que lugar  este? - disse Meg.
      Flit abriu os braos num gesto de espanto.
      - Que lugar  este? Tnel, menina! O tnel! Vida... tnel... vida aps a morte.
      Meg suspirou. Exatamente o que ela havia temido. Ela estava mesmo morta.
      - E voc, quem ?
      - Homem, um dia - respondeu Flit, desolado. - Homem mau. Agora, caro. Desentupidor de tnel. Castigo de Flit. Menina olha. - A criatura retirou uma cesta 
de vime de um nicho na parede. - Resduo de alma. Entope tnel.
      Meg examinou o contedo da cesta. Um monte de pedrinhas reluzentes. Azuis, claro. Talvez fosse obra de sua imaginao, mas ela podia jurar que as pedras estavam 
cantando.
      Flit fez carinho nelas.
      - Duzentas cestas. Depois, paraso.
      Uma espcie de servio comunitrio celestial. Faz sentido, pensou Meg.
      - Ento  isso? - perguntou ela. - Eu tambm sou... um caro?
      Flit quase desabou de tanto rir.
      - Menina? caro? No, no, no. Negatori. Menina uma em um milho de bilhes. Rastro espectral roxo.
      - Eu no...
      Flit bateu o punho na testa de Meg como se batesse numa porta fechada.
      - Abre ouvidos, menina! Rastro azul, paraso. Vermelho, poo. Roxo, meio a meio.
      Meg olhou para a vastido do tnel. Os recm-falecidos zuniam ao largo da salincia onde ela se refugiava. Alguns passavam to perto que ela podia perceber 
a expresso de espanto nos olhos deles.
      - Que rastro espectral? No vejo nenhum...
      Flit passou a mo azul diante dos olhos de Meg, e s ento ela viu. As almas deixavam um rastro brilhante atrs de si. Para algumas, o rastro era vermelho; 
para outras, azul. As de rastro vermelho eram arrancadas do fluxo e jogadas no poo. Meg olhou para as prprias mos. Fascas cor de violeta espocavam ao redor dos 
dedos.
      - Menina v? Roxo, menina, roxo! Malvada e boa. Seis pra l, meia dzia pra c. Cinqenta-cinqenta.
      Meg comeava a se situar.
      - E agora, o que vai acontecer comigo?
      - Paraso, no. Poo, tambm no. De volta.
      - De volta?
      A coisa que um dia fora um ser humano fez que sim com a cabea.
      - De volta. Consertar o que fez de errado.
      - Errado?
      - Menina papagaio estpido - disse Flit, irritado. - Aprende falar certo! Coisas erradas que menina fez na vida corporal. Vai, vai, vai, voa de volta. Conserta. 
A, ento, rastro espectral lindo de novo, azul.
      O coraozinho espiritual de Meg bateu mais forte.
      - Eu posso voltar? Viver de novo?
      Flit caiu na gargalhada, batendo palmas de zombaria.
      - Viver? No. Fantasma. Buuuh! Ajudar coitado ferido. Usar resduo de alma.
      Era difcil para Meg compreender o que a criaturinha dizia. Flit perdera contato com a humanidade havia muito, e seu vocabulrio agora se resumia ao bsico 
necessrio. Ao que parecia, ela tinha duas opes: permanecer onde estava ou voltar para emendar as coisas com o velho Lowrie. Grandes opes. Ficar na companhia 
de uma criatura rabugenta ou... voltar para ajudar um velho rabugento. Alm do mais, o que algum poderia fazer para apagar um pecado?
      - Depressa, menina! - aconselhou Flit. - Tempo passando, tique-tique-taque. Lado bom sumindo!
      Olhando para a prpria aura, Meg percebeu que o roxo comeava a se manchar de fiozinhos vermelhos. Ficou aflita. Se perdesse a energia espiritual, decerto 
teria o mesmo destino de Belch. J sentia uma fora querendo arrast-la para baixo, uma fora parecida com a do plo Norte sobre uma lima de ferro. Pedacinhos de 
aura comeavam a despencar no abismo como flocos de poeira.
      - E como  que eu volto? A criaturinha deu de ombros.
      - Flit no sabe direito. Nunca aconteceu antes. Flit s sabe o que ouviu dizer.
      - E o que foi que ouviu dizer?
      Flit apontou para a parede marmorizada.
      - Atravessar.
      - J tentei isso - disse Meg, passando a mo no rosto. - No deu certo.
      - Parede, no. Buraco.
      - Tem certeza?
      - No - admitiu o caro. - Crank falou.
      Crank? Quem era esse tal de Crank? Com certeza mais uma criaturinha azul de vocabulrio limitado. Meg tentou colocar as idias em ordem. Buraco... buraco... 
buraco... - ela no conseguia pensar em outra coisa. Ficou espantada com aquele sbito poder de concentrao. Quando viva, era dispersa demais, deixava-se distrair 
por qualquer bobagem. Talvez fosse isto: a vida j no estava mais l para lhe roubar a ateno.
      Meg tocou a parede. Achou que ela agora parecia menos slida, mais fluida, como uma onda preguiosa. Quando roava os dedos nela, eles submergiam no azul, 
produzindo fascas prateadas.
      - Viu? - disse Flit, vangloriando-se.
      Meg recolheu a mo rapidamente e flexionou os dedos para ver se estava tudo em ordem. No percebeu nenhuma diferena. Nada mal para uma garota morta.
      - Anda, menina! - insistiu Flit. - Depressa! Poo muito forte aqui.
      Meg assentiu com a cabea. Quanto mais distante ficasse daquele poo, mais duradouro seria seu rastro espectral. E ela precisaria de todas as foras que pudesse 
acumular a fim de acertar os ponteiros com o velho Lowrie.
      - Est bem. Eu vou. Espero que voc esteja certo. Tomara que esse buraco no seja um atalho para o inferno!
      - No, no, no! No ! Flit ter certeza. Direto volta pra casa.
      Meg no via mais sentido em permanecer ali. O melhor que tinha a fazer era atravessar aquela parede e dar o assunto por encerrado. Nunca tivera medo de nada 
enquanto viva e, agora que estava morta, no tinha motivos para agir diferente. Respirou fundo e...
      - Menina, espera!
      - O que foi? - perguntou Meg, assustada.
      - Aqui. - Flit tirou duas pedrinhas da cesta e colocou na mo dela. Duas pedrinhas azuladas, com veios prateados. - Resduo de alma - explicou ele. - Baterias 
extras.
      - Valeu - disse Meg, guardando as pedrinhas no bolsinho da bota.
      Era tudo de que precisava: um par de pedras. Achou melhor no jog-las fora na frente do baixinho para no mago-lo.
      - Agora vai, menina! Chispa daqui! Como Papa-Lguas!
      - Bip-bip - disse Meg, nervosa.
      Ela tocou a parede novamente. Viu espocar as mesmas fascas de antes. Passou a mo, o cotovelo... e sumiu.
      Myishi examinava o crebro de Belch.
      - E ento? - perguntou Belzebu, impaciente.
      - Por favor, no me apresse - resmungou o diminuto oriental, sem se dar ao trabalho de levantar os olhos da gelia cinzenta  sua frente.
      - Anda logo com isso, Myishi. No tenho tempo a perder. Vale a pena salvar esse a, ou no?
      Myishi ergueu o tronco e sacudiu as mos para se livrar dos restos de gosma.
      - No estado em que se encontra, no. Perda total. A fuso com o crebro do cachorro fez um estrago e tanto.
      Belzebu ficou furioso. Soltava fascas pelas garras.
      - Diabos. Precisava de mais informaes sobre a garota. O gnio da informtica deu um sorrisinho de superioridade.
      - No esquenta, Belzebu-san. Posso fazer um uplink. Para o Amarra-Cachorro, os computadores eram um mistrio to grande quanto a transubstanciao.
      - Uplink?
      Myishi sorriu com malcia.
      - Na terra, meus mtodos eram mais ou menos limitados pela tica profissional. Mas aqui...
      Ele sequer precisou terminar a frase. No Hades, os direitos humanos no tinham a menor relevncia. Myishi tirou de sua caixinha de surpresas um objeto de aspecto 
terrvel: algo parecido com um pequeno monitor, montado numa estaca de metal. Sem titubear, o programador fincou o tal objeto nas entranhas do crebro de Belch.
      Belzebu ficou aterrorizado. Myishi era um sujeito realmente sinistro. Perto dele, o Dr. Frankenstein parecia um mero escoteiro.
      - O espigo cerebral. Adoro esta belezura. Os prprios impulsos eltricos do crebro servem como fonte de energia. Sem falsa modstia, uma obra-prima da minha 
parte.
      - De fato - disse Belzebu, a ponto de desmaiar. Myishi tirou um controle remoto do bolso de seu terno elegantssimo, emporcalhando o tecido com pedaos de 
massa cerebral.
      - Bem, agora vamos saber o que essa criatura viu.
      A telinha na ponta do espigo piscou algumas vezes e, segundos depois, os dois demnios viram a si prprios olhando de volta para si mesmos, da maneira que 
Belch os via. Uma situao confusa. O tipo de coisa que geralmente termina em dor de cabea.
      - Isso no serve pra nada, seu idiota.
      Myishi mordeu os prprios lbios para evitar uma resposta malcriada. Percebendo isso, Belzebu pensou: Fique de olho nesse baixote. Est ficando saidinho demais.
      - Vou voltar o filme.
      A imagem na tela tremeu e comeou a retroceder em alta velocidade. Belch fez o caminho de volta pelo tnel e nasceu novamente. S na cabea dele,  claro.
      - Pode parar a - disse Belzebu. - Agora aperte o play. Na tela via-se a imagem de Belch sorrindo para o agonizante aposentado.
      - Gosto desse garoto - comentou Myishi. - Leva jeito pra coisa.
      - Um preguioso, isso sim - retrucou Belzebu, com sua habitual hipocrisia. - Muito bem, pare a!
      Myishi apertou um dos botes do controle remoto, e a imagem congelou na tela. Meg debruava-se sobre o velhote ferido, tentando proteg-lo.
      - Aha! - exclamou Belzebu. - Ela tentou salvar o velho. Foi por isso que conseguiu escapar. Quais so as chances de uma coisa dessas acontecer? Uma em um milho!
      Myishi consultou uma calculadora do tamanho de um carto de crdito.
      - Uma em oitenta e sete milhes - disse ele, saboreando a oportunidade de corrigir o ajudante do Demo.
      Belzebu contou at dez. Era preciso uma pacincia de santo para aturar aquele metido. E de santo ele no tinha nada. Apontando o tridente na direo do programador, 
disse:
      - Assim esse mingau de cachorro no serve pra nada. E voc tambm no, se no encontrar um jeito de consert-lo.
      Myishi sorriu, sem se deixar intimidar.
      - Deixa comigo, Belzebu-san. Vou instalar um holograma de ajuda virtual e fazer um upgrade na condio dele: de catatnico, ele vai passar a... endiabrado. 
Com perdo do trocadilho.
      - Quero algo melhor que endiabrado. Infernal.
      - A vai ser difcil. Principalmente com esse crnio. A verdadeira maldade requer uma caixa ssea muito maior. Esse espcime em particular nunca vai passar 
de um bandidinho de meia-pataca.
      - Ento que seja endiabrado. Pacincia.
      Com suas unhas delicadamente cuidadas, Myishi apertou mais alguns botes no controle remoto.
      - Com isso, e com a gentica canina, ele deve se transformar numa perfeita mquina do mal. Assim que for reanimado, no vai parar enquanto no cumprir sua 
misso. Caso contrrio, perder sua energia vital.
      Myishi apertou o send, e o corpo de Belch comeou a tremer, recebendo os bytes transmitidos pelo espigo cerebral.
      - Mas, afinal, por que tanta pressa? O que voc planejou para o garoto?
      - Esse  o meu novo Caador de Almas - respondeu Belzebu, com os olhinhos brilhando. - Ele vai voltar pra recuperar nossa alma perdida.
      Myishi passou os dedos pelo cavanhaque, igualzinho ao do Diabo, porm numa verso miniatura.
      - Nesse caso  melhor eu dar uma turbinada nele. Alguns mililitros de resduo liqefeito direto no crtex. O menino-co vai ficar novinho em folha, como um 
recm-nascido.
      - O menino-co? - perguntou Belzebu. - Voc no vai tirar o cachorro dele?
      - Impossvel, Belzebu-san. O mainframe est danificado demais.
      - Mainframe?
      Belzebu desconfiava que Myishi usava aqueles termos tcnicos apenas para confundi-lo. E estava coberto de razo.
      - Mainframe. Crebro. Imagine que voc tivesse de separar o sal da gua com uma colher.
      Myishi mal tentava disfarar seu sentimento de superioridade.
      - E quando  que ele vai ficar pronto?
      - Daqui a um ou dois dias - respondeu o programador com displicncia.
      Belzebu j estava farto daquela petulncia toda. Evidentemente no podia vaporizar o oriental, mas castig-lo de leve, sim. Deixou uma bela carga se acumular 
no tridente e descarregou-a no traseiro dele. Myishi deu um salto to grande que, se estivesse numa Olimpada, certamente subiria ao pdio.
      - Pois voc vai entreg-lo em duas horas - arrematou Belzebu. - Caso contrrio, vai virar churrasco na ponta do meu tridente!
      Myishi assentiu com a cabea, as bochechas estufadas pelos gritos sufocados.
      Belzebu sorriu, novamente bem-humorado.
      - timo. Estamos conversados. - Ele se virou para sair, fazendo rodopiar as dobras do cafet. - Ah, Myishi...
      - Sim, Belzebu-san?
      - No se esquea de tampar o crebro do garoto, certo?













CAPTULO 4

VISITANTES INOPORTUNOS

AS DORES NA PERNA de Lowrie McCall eram sinal de que ia chover. J fazia dois anos que o maldito cachorro havia arrancado um pedao dela, e as dores ainda insistiam 
em voltar. Os mdicos haviam dito que ele mancaria para o resto da vida. Lowrie sempre ria quando se lembrava disso. Resto da vida? S podia ser uma brincadeira.
      Ele acendeu um charuto gordo e fedorento. Tinha voltado a fumar. Por que no? J no havia ningum por perto para reclamar, e quela altura a nicotina no 
poderia fazer mal algum.
      Lowrie nem sempre fora assim. Pessimista, amargo, como se uma nuvem negra estivesse estacionada sobre sua cabea. Mas agora... bem, agora as coisas eram diferentes. 
Para ele, tudo comeara naquela noite, dois anos antes, quando se vira estirado no cho, jorrando sangue no carpete. Naquele instante, teve conscincia de que a 
morte estava prxima. Talvez no exatamente ali, mas por perto. A vida j no lhe interessava mais. Que sentido havia naquilo tudo? Cu? Histria para boi dormir. 
No havia justia nenhuma na Terra, e muito menos debaixo dela. Ento para que se dar ao trabalho? De que adiantava seguir a trilha do bem? Lowrie ainda no tinha 
uma resposta clara para essa pergunta. E, enquanto procurava por ela, no via muito sentido nas coisas.
      J no agentava mais ficar ali, olhando pela janela. Decidiu ver um pouco de televiso. Programao vespertina, o passatempo predileto daqueles cujo tempo 
j havia passado. Depois de cinco minutos de uma enfadonha aula de pintura para iniciantes, deu-se conta de que ainda no estava to desesperado e desligou o aparelho. 
O jardim. Isso, ele iria para o jardim, arrancar um pouco de mato.
      Porm, sua perna no havia se enganado, e a chuva logo comeou a fustigar o minsculo pedacinho de terra que o pessoal do condomnio chamava de "rea verde". 
Lowrie suspirou. Seria possvel que as coisas nunca mais voltariam a melhorar? Para onde tinha ido aquele homem alegre e jovial que havia sido no passado? Para onde 
tinha fugido a prpria vida?
      Lowrie havia passado tanto tempo matutando sobre essas questes que acabara por fixar na cabea alguns momentos especficos de seu passado. Momentos em que 
tivera de fazer uma escolha e optara pelo caminho errado. Uma infindvel sucesso de erros. Coisas que ele devia ou podia ter feito e no fez. No que pensar nelas 
adiantasse de alguma coisa. Agora j no havia tempo para corrigi-las. Levando a mo ao lado esquerdo do peito, sentiu as batidas do corao. ... o tempo estava 
mesmo chegando ao fim.
      Pois bem. O que fazer para ressuscitar aquele dia praticamente morto? Tomar alguns remdios. Arrastar as pernas at o jornaleiro. Ou... ah, que maravilha... 
jogar bingo com a velharada no centro comunitrio.

???
      
      Ejetada da vida eterna, Meg Finn esborrachou-se na poltrona de Lowrie McCall. Como no pensava mais nos termos do BURACO, sentiu como qualquer mortal a dureza 
do impacto. Com o choque, a poltrona de rodinhas saiu rodopiando sala afora.
      Lowrie no cara por causa do susto, mas sim porque a poltrona desgovernada lhe arrancara a bengala da mo. Um desastre. Antes de se esborrachar no carpete, 
ele tentara se apoiar na estante de livros, fazendo com que o mvel pesado balanasse alm do ngulo de equilbrio e casse em cima dele.
      Seguiram-se alguns instantes de total confuso. Meg olhava como um zumbi para as partculas de poeira que levantavam em espiral da almofada velha. Poeira de 
verdade. Do mundo real. Ela estava de volta. Talvez no tivesse ido a lugar algum. A poltrona era bem real; ela tinha certeza. Uma possvel explicao: Belch havia 
disparado a espingarda, fazendo com que ela voasse pelos ares e casse na poltrona. Humm. Difcil de acreditar. No entanto, no mais difcil de acreditar do que 
toda aquela histria de tnel azul, rastro espectral, caro falante...
      Por fim, Lowrie recobrou os sentidos.
      - Voc? - exclamou ele, soterrado por uma pilha de revistas. - Meg Finn?
      - Hein? - disse Meg, distrada.
      - Mas voc est morta! Eu vi o corpo! Mais uma teoria descartada.
      - Meu corpo?
      - Isso mesmo. Ou o que sobrou dele.
      Meg sentiu um calafrio na espinha. Devia estar num estado lastimvel quando foram busc-la naquele tanque de gs.
      - Meu rosto, como estava?
      - Sem a maior parte dos dentes, posso garantir.
      S ento Lowrie percebeu duas coisas: primeiro, que estava conversando com uma menina morta; e segundo que ele no conseguia respirar!
      - E como est meu rosto agora? - perguntou Meg, apreensiva.
      - Ugh! - exclamou o velho, que estava ficando azul.
      - To mal assim, ?
      Completamente sem ar, Lowrie apontou nervosamente para a pesada estante em cima dele.
      Finalmente, a ficha caiu. Deixando o conforto da poltrona real, Meg correu na direo do armrio e jogou o peso do corpo contra as pesadas prateleiras de pinho. 
Mal acreditou quando viu o mvel subir pelos ares e rodopiar at se espatifar contra o gesso da parede. Teve a impresso de que tinha arremessado uma simples moeda. 
Os livros agora se esparramavam pelo cho como traas de mltiplas asas.
      - Uau! - exclamou ela, olhando para as prprias mos. Elas estavam exatamente como antes, e no inchadas como as do Popeye. Contudo, de algum modo, ela havia 
ficado dez vezes mais forte que o marinheiro.
      Lowrie respirou fundo para se recuperar.
      - Ufa! - disse ele, tossindo.
      - De nada - retrucou Meg, flexionando os dedos.
      - No estou... aham... agradecendo a ningum. Sua delinqente!
      - Mas eu s estava...
      Ainda no cho, Lowrie balanou o punho no ar.
      - Voc estava o qu? Tentando invadir meu apartamento de novo e arrancar mais um pedao da minha perna?
      - Mas no foi culpa mi...
      - E me deixar invlido pelo resto dessa minha vida miservel?
      - Tambm no precisa exagerar.
      - Exagerar?
      - Pelo menos voc no morreu! - retrucou Meg, sem titubear. - Fui eu quem explodiu em mil pedacinhos com aquele seu tanque de gs!
      Lowrie refletiu um instante. A garota tinha razo. Isso se no estivesse sonhando com tudo aquilo. Uma alucinao produzida pela falta de ar. Muito comum quando 
uma estante de livros cai em cima de uma pessoa.
      - E voc, o que , afinal? Um anjo?
      - No exatamente - respondeu Meg. - Sou um nada. Presa entre o cu e o inferno. Uma intermediria. Foi por isso que precisei voltar. Pra ajudar minha vtima, 
segundo disse aquele carinha azul.
      quela altura Lowrie j no entendia mais nada. De que diabos aquela garota estava falando? Presa entre o cu e o inferno? Carinha azul? Fazia muito tempo 
que ele no entendia mais a juventude. Brincos no umbigo, hip-hop, uma confuso. E agora uma menina-fantasma! Mas algo do que ela havia dito lhe chamara a ateno.
      - Quer dizer ento que o cu existe mesmo? Meg deu de ombros e respondeu:
      - Parece que sim. Depende do seu rastro espectral. Vermelho ou azul. Ou, no meu caso, roxo.
      Mais uma charada. Ou os desvarios de uma maluca, quem podia saber? Era bem possvel que tudo aquilo no passasse de um truque de sua prpria imaginao. Para 
que ele visse com mais otimismo... bem, as coisas de um modo geral.
      - Ento voc tem de me ajudar?
      -  - disse Meg, meio desconfiada. Lowrie apoiou-se num dos cotovelos.
      - Ento chegou tarde! No pode mais me ajudar. Ningum pode.
      - Voc levou uma mordida na perna, s isso. No  nenhuma tragdia.
      O velho tateou o cho  procura da bengala.
      - No  disso que estou falando, pateta! A mordida aconteceu dois anos atrs!
      Se ainda corresse algum sangue no corpo de Meg, a surpresa teria feito com que ele sumisse de seu rosto. Dois anos! Ela tinha se ausentado por dois anos? A 
essa altura, j teria sido esquecida por todos, sem nenhuma marca de sua passagem pela Terra. Nem mesmo lembranas agradveis na memria daqueles que a tinham conhecido.
      - Um fantasma delinqente! - disse Lowrie, interrompendo os pensamentos sombrios de Meg. - Era s o que me faltava... Pelo menos uma vez na vida, ou melhor, 
na vida aps a morte, faa alguma coisa de til e me ajude a levantar!
      Lowrie estendeu a mo manchada e torta, com ns enormes, feito castanhas-da-ndia. Meg olhou para aqueles dedos feios. Precisava ajudar o velho. Era sua misso.
      - Anda logo, menina! Afinal a culpa  sua, se eu no consigo me levantar sozinho!
      Meg aproximou-se para ajudar Lowrie a ficar de p. Seus dedos tocaram os dele. Ou melhor, no tocaram. As duas mos se mesclaram uma na outra, produzindo uma 
sucesso de fascas translcidas. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, Meg foi sugada pela energia vital de Lowrie. At o cotovelo, at a cintura...
      - Me solta! - gritou ela.
      Lowrie arregalava os olhos sem entender nada.
      - No sei o que... No sou eu que...
      Por fim, os dois seres se transformaram num s e agora ocupavam o mesmo espao fsico. Meg estava dentro de Lowrie McCall, e ele a envolvia como uma carcaa.
      Tudo muito estranho, assustador, e meio nojento tambm. Meg expandiu-se at ocupar todo o espao disponvel. Suas mos agora eram manchadas e secas, o pescoo 
tremia sob a cabea, os olhos eram amarelados e vidrados.
      - Me deixa sair! - gritou ela com a voz do velho, levantando-se num salto e sentindo os ps chatos de Lowrie plantados no cho. No entanto, no havia nada 
que ela pudesse fazer. O novo corpo a encerrava como uma priso. Meg agora podia ver as manchas senis das mos, as mangas largas do suter desbotado, os fiapos de 
sobrancelha que invadiam seu campo de viso. - Socorro! - berrou, a ponto de sufocar Lowrie com sua aflio. - Algum me ajuda!
      Ento, feito uma louca, Meg comeou a correr pelo apartamento, trombando nas paredes, na esperana de se livrar daquele corpo decrpito. Em vo. Meg Finn e 
Lowrie McCall estavam to entrelaados quanto os fios de uma corda.
      'Lowrie, por sua vez, acompanhava-a, sem nenhum controle sobre o prprio corpo, mas consciente de tudo o que se passava. Via as paredes passarem ao seu redor 
como se jamais tivesse sofrido uma leso na perna. Sentia o corao bater forte no peito - bater forte, mas no disparar! Havia rejuvenescido algumas dcadas e agora 
dispunha da energia e do entusiasmo de um adolescente. Tinha vontade de rir, mas no conseguia; j no era mais o dono de sua boca. Sentia-se como o nico espectador 
de uma sala de cinema, vendo a prpria vida passar na tela.
      Ao contrrio de Lowrie, que pulava de alegria com o rejuvenescimento, Meg no estava nem um pouco contente com sua nova situao, presa ali, sob a pele murcha 
de um velho. Disparou porta afora e seguiu por um caminho de muros rachados e grafitados. A chuva fria fustigava sua cabea, que j no tinha l muitos cabelos. 
O suter, de to encharcado, descia  altura dos joelhos. O misto de Lowrie e Meg corria ensandecidamente, derrapando nas esquinas, ouvindo os chinelos baterem contra 
a sola do p. Ento, de repente, os dois resolveram parar. Diante deles no havia nada de extraordinrio, a no ser um tanque de gs. Novinho em folha. Reluzente. 
Nenhuma bolha de tinta ou mancha de ferrugem.
      Meg desabou no cho molhado, levando Lowrie consigo. Vida e morte repetiam-se numa espcie de piada csmica.
      - No quero ficar velha - choramingou ela, lgrimas pingando da ponta do narigo. - No quero morrer.
      Lowrie no disse nada. No tinha muito a acrescentar. Sentia-se mais ou menos da mesma forma.
      Nem eu, pensou.
      De algum modo, Meg pde ouvi-lo, como se ouvisse uma voz nas profundezas da mente. Um duendezinho em sua cabea. E no era s isso. Agora, uma vida inteira 
de sentimentos vagos mesclavam-se aos seus prprios sentimentos: casamentos e enterros, a dor na perna, uma terrvel solido. Meg no queria nada daquilo. Nada. 
Tinha apenas quatorze anos, ora bolas. Queria ter quatorze anos para o resto da vida.
      Preciso sair deste corpo, pensou ela. Flutuar para fora do mesmo jeito que entrei. E foi isso que ela fez. Desprendeu-se como um curativo molhado e pousou 
no asfalto, ao lado de um repentinamente exausto Lowrie McCall. Os pulmes do velho estavam a ponto de explodir; as pernas tremiam feito vara verde.
      - Por um instante... - disse ele, arquejando. - Por um instante, eu...
      - Voc o qu? - perguntou Meg, apenas por perguntar. No estava nem um pouco interessada nos problemas do velho. Seus prprios problemas j eram suficientes.
      Lowrie passou a palma da mo sobre a testa molhada de chuva.
      - Por um instante eu estava vivo outra vez.
      E por algum motivo isso fez com que o velho abrisse um berreiro como um beb choro. Meg achava que sabia por qu. Havia algo de errado com Lowrie McCall. 
Algo alm da artrite e das pernas tortas. Um sentimento estranho havia permeado a pele de Meg - ou o que quer ela tivesse agora no lugar da pele - enquanto ela estivera 
dentro do velho. Um sentimento que de alguma forma a lembrava do tnel.
      Provavelmente um mau sinal.
      - Anda - disse ela. - Vamos voltar. Vai acabar batendo as botas se continuar aqui.
      A gua da chuva misturava-se s lgrimas que pingavam do queixo de Lowrie.
      - Essa  boa - disse ele, com um sorriso irnico no canto dos lbios. - Bater as botas. Muito engraado. Vem, me ajuda a levantar.
      Meg chegou a lhe oferecer a mo, mas conteve-se a tempo.
      - Ah, no, espertinho - disse ela. - No vou cair nessa armadilha outra vez.

???
      
      Lowrie resolveu deitar-se, convencido de que era vtima de uma alucinao prolongada. Meg, por sua vez, tentava familiarizar-se com sua nova condio.
      Bem, agora havia aquela histria de consubstanciao, isto , a mistura de dois corpos num s. E tambm a capacidade de arremessar objetos pesados. Aparentemente, 
dependia apenas dela fazer contato com alguma coisa ou no. Uma espcie de poder da mente. Coisa de kung fu: basta querer, e assim ser.
      Depois de alguma experimentao, ela descobriu que tudo carregava um pouquinho de vida. At a tal poltrona surrada tinha algumas lembranas flutuando em seu 
corpo de madeira e espuma. Vrias delas tinham a ver com traseiros e com as funes corporais desses mesmos traseiros. Meg decidiu imediatamente jamais se misturar 
com nenhuma pea de moblia.
      A peripcia no corpo de Lowrie havia deixado seqelas em Meg. Alm de perceber que sua aura estava mais desbotada, ela agora sentia no corpo um mpeto indeterminado, 
como se precisasse ir em frente, fazer alguma coisa. O tempo era curto.
      Meg descobriu tambm que os espritos no dormiam. Quanta perda de tempo! L estava ela, correndo contra seu relgio espiritual, enquanto o velho roncava como 
um porco no andar de cima. Tpico dos adultos, que no se importavam com o tempo de ningum, a no ser o seu prprio.
      Ela tentou ver um pouco de TV. No deu certo. Seus olhinhos sobrenaturais captavam todos os eltrons da tela. Era quase impossvel se concentrar nas imagens.
      S lhe restava ento uma coisa a fazer: comer. No que estivesse com fome. Era apenas um pretexto para matar o tempo. Meg surrupiou uma musse de chocolate 
da geladeira de Lowrie e comeou a com-la com os dedos. Horrvel, claro, mas ao mesmo tempo deliciosa.
      Enquanto se concentrava na musse, Meg no teve nenhum problema. No entanto, to logo parou de pensar nela, viu o doce pastoso flutuar atravs das paredes de 
seu estmago, atravessar a aura e, uma vez submerso no campo da gravidade, esborrachar-se no piso xadrez da cozinha.
      Meg ficou atnita. Ao que parecia, jamais sentiria fome outra vez. Tampouco teria a oportunidade de se sentir completamente saciada. Suspirando e bufando, 
voltou  sala e jogou-se num sof pudo, fazendo um esforo consciente para no pensar em BURACO. No entanto, involuntariamente captou lembranas do sof, coisinhas 
perdidas debaixo das almofadas. Entre elas, um anel de brilhante. Um anel que pertencera a Nora. Uma mulher chamada Nora.

???
      
      Lowrie descia as escadas lentamente, apertando as plpebras para enxergar melhor.
      - Quem est a? - perguntou ele, hesitante. Tinha ouvido um barulho no andar de baixo.
      Meg empertigou-se no sof.
      - Quem  Nora?
      Lowrie parou no mesmo instante, um p entre um degrau e outro.
      - Nora? Quem foi que lhe contou sobre Nora?
      - O sof - respondeu Meg, sem rodeios.
      Lowrie achou que pudesse ser gozao, mas, examinando o rosto de Meg, viu que ela falava a srio. Afinal, por que seria de outra forma? Ao que parecia, tudo 
era possvel. Mancando pesadamente, ele se arrastou escada abaixo, caminhou at a poltrona e, com uma careta de dor, sentou-se na poltrona. Por pouco Meg pde ouvir 
os ossos dele rangendo.
      - Nora era minha mulher. Vivemos juntos por vinte e sete anos.
      Meg suspirou. Sempre ficava sentimental quando ouvia histrias de famlia com final feliz.
      - Sorte sua. Ficar casado tanto tempo assim.
      - Sorte? - retrucou o velho. - Porque voc no era casada com ela. A mulher bebia feito uma esponja e fumava trs maos de cigarro por dia. Por que acha que 
moro nesta espelunca aqui? A bruaca gastou todo o nosso dinheiro. At os mveis ns tivemos de vender.
      - Suponho que tenha sido a bebida que acabou com ela - disse Meg, tentando ser madura e compassiva.
      Lowrie fez que sim com a cabea.
      - De certa forma. Uma noite ela chegou em casa, completamente bbada, e por engano bebeu uma garrafa de detergente. - Era a vez de Meg achar que se tratava 
de gozao. No era. - E eu j estava quase colocando minha vida em ordem quando vocs apareceram, voc e aquele brutamontes.
      Lembrando-se do tnel, Meg disse:
      - Ah, ns estamos pagando pelo nosso crime, pode acreditar.
      - Aquele seu colega. Ele est... como eu vou dizer... l embaixo?
      - Est.
      - E o seu castigo, qual ? - perguntou Lowrie.
      - Estou aqui ouvindo voc, no estou?
      - Ha, ha, ha... Voc  mesmo uma piada! Ainda bem que est lidando com a morte assim, com bom humor.
      Meg suspirou.
      - Ainda estou viva. Mas de outro jeito. De qualquer forma, minha vida no era l um mar de rosas.
      Lowrie balanou a cabea em sinal de concordncia. A vida dele tambm no era nenhuma maravilha.
      - Posso lhe perguntar uma coisa? - continuou Meg.
      - Acho que sim - respondeu Lowrie, sem muita convico.
      - Qual  o problema com voc? O velho levou um susto.
      - Que espcie de pergunta  essa?
      - Bem,  que... Ontem  noite, quando a gente estava... misturado... eu senti uma coisa esquisita..
      - Uma coisa esquisita? - repetiu Lowrie, com ironia. - No d pra ser um pouquinho mais especfica?
      - Sei l, uma coisa ruim, uma tristeza. No sou mdica pra dar um diagnstico.
      - Ah, voc no  mdica? - disse Lowrie, com a mesma ironia de antes. - Que pena, achei que fosse...
      - Deixa pra l - disse Meg. - Eu devia ter ficado de bico fechado.
      Lowrie alisou a cicatriz na perna.
      -  o meu corao - disse ele por fim. - Essa porcaria est quase parando.
      - Voc est...
      - Estou - antecipou-se o velho, pesaroso. - S me restam alguns meses. Seis, no mximo. Meg olhou para ele com pena.
      - No se preocupe. Aura azul. Direto pro cu.
      - No  a vida aps a morte que me preocupa.  esta vida aqui mesmo.
      - No  um pouco tarde demais pra se preocupar com isso?
      - Voc no entende. Ah, os jovens... Por que voc no fecha a matraca e ouve pelo menos uma vez na vida? Ou na morte? Ou... seja l o que for.
      Meg engoliu a seco e conteve uma resposta malcriada. At meros pensamentos maldosos faziam com que uns fiozinhos vermelhos brotassem na aura dela.
      - Est bem, ento. Sou toda ouvidos.
      Lowrie tirou um bloquinho do bolso da camisola de dormir.
      - Minha vida tem sido um desastre. Desde o incio. Nenhuma lembrana boa. Desde o meu casamento com aquela bruxa, a Nora, at o dia em que aquela fera me arrancou 
um pedao da perna.
      - Alguma coisa boa deve ter acontecido. Lowrie fez que no com a cabea.
      - Joguei estes meus sessenta e oito anos de vida no lixo. Sempre que precisei tomar uma deciso, acabei seguindo pelo caminho errado.
      Meg fez uma careta como se quisesse dizer: "Quanto exagero!"
      - Pra com isso, menina! - disse o velho, irritado. - Estou fazendo das tripas corao pra contar o quanto a minha vida tem sido difcil, e voc fica a, fazendo 
caras e bocas!
      - E o que quer que eu faa? No posso fazer o tempo voltar, se  isso que voc quer.
      - Ah... - disse Lowrie, desapontado.
      - S vou ficar aqui durante uns dias, ajudando voc com as coisas da casa. Quando minha aura ficar azul de novo... puf! Dou no p.
      - Fecha o bico e abre os ouvidos, menina! Tenho certeza de que o Todo-Poderoso no mandou voc de volta s pra lavar a loua!
      Meg no gostou nem um pouquinho de ouvir aquilo. Ah, os velhos... Sempre acham que sabem de tudo. Lowrie, por exemplo, nem tinha morrido ainda e ficava falando 
de Deus como se fosse amigo ntimo dele!
      - Se voc voltou,  porque precisa fazer alguma coisa especial.
      Meg sentiu um friozinho no estmago espiritual.
      - O que, por exemplo?
      - Me ajudar a organizar a vida. Era difcil no rir. E Meg riu.
      - Que vida? Voc s tem mais seis meses! - No era a primeira vez que ela fazia isso: dizer uma estupidez qualquer e ficar se remoendo de arrependimento durante 
meses. - Desculpe, no tive a inteno de...
      - , voc tem razo. Que vida?  isso mesmo que estou tentando explicar. - Lowrie olhava para o nada, como se estivesse perdido em suas lembranas. - Ah, se 
eu no tivesse... - Ele balanou a cabea com vigor, fazendo um esforo para voltar ao presente. - Bobagem. J no tenho tempo pra lamentaes. O que preciso agora 
 agir. - Ele abriu o bloquinho. - At fiz uma lista.
      Ah! Uma luz no fim do tnel!
      - Que espcie de lista?
      - Dividi minha vida numa srie de burradas. Coisas que deixei de fazer quanto tive a oportunidade de faz-las. No foi fcil, pode acreditar. Muitas burradas 
pra escolher. Mas acabei escolhendo quatro.
      Lowrie arrancou uma pgina do bloquinho e entregou-a ao esprito relutante. "PGINA", pensou Meg, recebendo o papelzinho. Vendo o garrancho do velho, achou 
que no conseguiria ler nada. Mas nem precisou. As palavras comearam a soar por si mesmas na mente dela. At os rabiscos mais confusos explodiam de emoo. A dor 
que custara ao velho para compilar aquela lista emanava do papel numa espiral de lembranas tristes.
      Havia pelo menos uns vinte itens na lista, a maioria riscada com um trao. Para Meg isso no fazia diferena. As imagens evocadas por cada item brotavam espontaneamente 
atravs da tinta. Lowrie no havia exagerado. Sua vida tinha sido mesmo um desastre. Casar com uma alcolatra, morar com a sogra, deixar de fazer o seguro de incndio 
da primeira casa. Chegar de frias  Iugoslvia exatamente no dia em que a guerra comeou. Uma tragdia atrs da outra. Mas nada disso tinha conserto; eram guas 
passadas que j no moviam moinho. Quatro dos itens, porm, estavam circulados e numerados. Meg leu-os com ateno, mal acreditando no que revelavam as imagens espectrais.
      Por fim, com uma interrogao no olhar, ela levantou os olhos do papel e disse:
      - No estou entendendo.
      - Ainda h tempo pra essas a - disse Lowrie, animado. - Ainda posso fazer essas coisas a.
      - Est brincando... - retrucou Meg.
      - No, senhorita, no estou brincando. Saiba voc que o arrependimento  um excelente motivador.
      - No sei de nada. Tenho s quatorze anos. Lowrie coou o calcanhar marcado por cicatrizes.
      - Com sua ajuda, posso fazer tudo isso. Antes seria impossvel. Mas ontem, quando voc me... bem, quando voc entrou no meu corpo, me senti jovem outra vez. 
Pronto pro que der e vier!
      - Mas essas coisas aqui? Quer dizer... pra qu? Uma maluquice, isso sim!
      - Pra voc, talvez. Pra todo mundo. Mas essas foram as minhas grandes burradas. E agora tenho a oportunidade de corrigi-las, mesmo que ningum se importe com 
isso, a no ser eu.
      Meg j no sabia mais o que dizer.
      - Mas o que isso vai mudar, sair pelo pas assim, como um maluco?
      - Nada - reconheceu Lowrie. - A no ser a minha auto-estima. E isso, minha cara,  cada vez mais importante  medida que a gente vai ficando velho.
      Meg franziu a testa, contrariada. Detestava aquela balela de "quando tiver a minha idade, voc vai entender". Especialmente agora que o tempo havia parado 
para ela. Balanando o papelzinho no ar, disse:
      - Ento  isso? Vamos percorrer a Irlanda de ponta a ponta s pra realizar essas suas tarefas idiotas? No h uma alternativa?
      - No, no h - respondeu Lowrie. -  isso a que est escrito. Essa lista  o nico caminho para o cu. - Ele fez uma pausa, depois emendou: - Pra voc e 
pra mim.

???
      
      Belch estava de volta. Quer dizer, mais ou menos. Mais ou menos Belch e mais ou menos de volta. Se ele estava confuso? No. Myishi havia feito o download de 
um extenso "mdulo de ajuda" na memria dele. Agora, bastava que Belch pensasse numa pergunta para que um ciberdemnio consultasse o programa  procura de respostas. 
Era o mesmo que ter um gnio instalado dentro da cabea. Como devia ser: os homens de verdade fazendo o trabalho de verdade, e os nerds brincando com os seus brinquedinhos.
      O Capeta em pessoa havia descido ao saguo de embarque para ver a partida de Belch. Pela primeira vez desde o concerto do Mettallica, Belch ficou impressionado.
      Apresentando-se sob forma de Besta do Mal, Sat no gastou seu latim convencendo o recm-chegado sobre a importncia da misso. Simplesmente levantou Belch 
pela garganta, apertou-o contra a parede e disse:
      - Volte. Encontre a garota. Faa ela pecar. Depressa.
      Os olhos do Capeta estavam arregalados e vermelhos. Almas rodopiavam e gritavam nos feixes de um arco-ris. Um efeito de inegvel beleza.
      Exibido, pensou Belzebu com seus botes.
      - Fazer ela pecar? - repetiu Belch, respeitoso. Belzebu ficou de cabelos em p. O Mestre no respondia perguntas.
      Sat apertou ainda mais o pescoo do garoto, fazendo com que o cachorro dentro dele gemesse involuntariamente. Fascas espocavam em torno do corpo fibroso 
da Besta, chamuscando os plos de Belch.
      - , pecar! - rugiu Sat. - Faa a garota pecar!
      - Entendi, entendi! - disse Belch, quase sufocando. - Fazer Meg pecar.
      - Urrggh... - bufou o Diabo, duvidando da competncia do seu agente. Em seguida, deixou Belch despencar no cho de mrmore. - Caso contrrio... - Em vez de 
terminar a frase, Sat vaporizou um churrasqueiro que passava por perto, demonstrando com indiscutvel clareza o que tinha em mente.
      Belch engoliu a seco. O recado estava dado.
      - Sim, Mestre - disse ele. - Deixa comigo.
      - Urrggh... - bufou o Senhor das Trevas novamente.
      Era impressionante como ele ficava assustador quando proferia aquela nica slaba. Em seguida, sumiu numa nuvem de fumaa, deixando para trs uma catinga de 
enxofre. Belzebu aproximou-se do elevador e apertou o P de Poro. Belch juntou-se a ele, caminhando daquele seu jeito estranho de menino-cachorro.
      - Tecnicamente falando - explicou Belzebu -, voc no precisa fazer a menina pecar, como to bem exps o nosso Mestre. Basta impedir que ela faa o bem. A 
essa altura nossa presa j foi despachada para a Terra com orientaes para ajudar o velho. Sua misso  impedir que ela obtenha sucesso. Se conseguir, a aura dela 
vai ficar vermelha e... bem, o resto voc j sabe. O Mestre recupera sua almazinha querida, eu mantenho meu emprego e voc fica livre da churrasqueira. Pode acreditar, 
meu rapaz, a vida no espeto no  mole no.
      Belzebu era dado a piadinhas. De humor negro, claro. Afinal era um demnio. Ele riu baixinho do prprio comentrio, supostamente engraado. Belch sentiu-se 
obrigado a rir tambm quando viu os raios faiscarem no tridente do Nmero Dois.
      - S tem uma coisa que no estou entendendo direito - arriscou ele.
      - S uma? - devolveu Belzebu, continuando com as ironias.
      - Seu chefe...
      - O Mestre?
      - , ele. Bem... Ele j me pegou. Por que est atrs da Meg tambm?
      Belzebu tinha uma resposta na ponta da lngua. Mas sequer podia pensar em diz-la por ali, to perto da cmara central. Basta saber que continha as palavras 
"teimoso" e "mula".
      - O Mestre acredita que Meg Finn  diferente, que tem um potencial maior que o das outras almas. Pelo que sei, ela fez alguma coisa ao padrasto.
      Belch engoliu a seco.
      - Ah, aquilo. Muito sinistro.
      O elevador chegou, e as portas se abriram. Achando estar diante de uma armadilha, imaginando que no cho houvesse um alapo ou coisa parecida, Belch entrou 
pisando em ovos. No, voc no vai voltar  terra, ha ha ha. Mas no havia armadilha alguma, apenas um carpete peludo, cor-de-rosa.
      - De quanto tempo eu disponho? - perguntou Belch. - Pra cumprir minha misso?
      Belzebu deu de ombros.
      - Depende. Se no exagerar nas possesses, se no chamar o inferno a toda hora, ter combustvel pra mais ou menos uma semana.
      Belch resmungou, achando o tempo curto demais.
      - No caso de problemas - continuou Belzebu -, consulte o mdulo de ajuda virtual. Myishi me garantiu que todas as possibilidades esto previstas.
      - Est bem, chefe - disse Belch, educado, imaginando que voaria como um foguete to logo aquele elevador o cuspisse rumo ao planeta Terra. Sayonara, inferno! 
Adeus, demnio vestido de mulherzinha!
      - Isso  um cafet - retrucou Belzebu, sem se alterar.
      - Au!- latiu Belch.
      Aparentemente, sua parte quadrpede falava mais alto nos momentos de estresse.
      - Isso mesmo - continuou o Nmero Dois. - Posso ler pensamentos. Apenas das almas mais fracas,  verdade; mas voc, meu caro, pertence a essa categoria mais 
do que ningum.
      Nem pense em fugir, ouviu bem? Assim que sua energia vital acabar, voc ser puxado de volta ao inferno como um ioi!
      - Certo.
      Belzebu ajustou o tridente para uma carga de nvel quatro. Bem potente.
      - E voc sabe que no vou deixar essa histria de mulherzinha passar em branco, no sabe?
      Belch fez que sim com sua cabea peluda.
      - Au, au!
      - Foi o que eu pensei - retrucou o demnio, segundos antes de espetar o tridente eletrizado no couro aflito de Belch.

???
      
      Ento Belch estava de volta. Cuspido da boca de um elevador que mais parecia um forno. De volta onde tudo comeara, ou melhor, onde tudo terminara: o tanque 
de gs prximo ao apartamento de Lowrie.
      O tanque estava novinho em folha. Reluzente, todo pintado de laranja, sem nenhum resqucio da tragdia que ocorrera ali, a no ser pelos buracos nos muros 
vizinhos, causados pelos estilhaos da exploso.
      Belch contava com uma grande vantagem sobre sua adversria: sabia exatamente o que estava acontecendo. O implante instalado por Myishi dava-lhe uma infinidade 
de informaes de natureza espiritual, com todos os detalhes possveis. Por exemplo, ele sabia que pudera voltar  Terra simplesmente porque havia morrido muito 
cedo, vtima de uma saraivada de pedacinhos de metal. Isso deixara-o com dcadas de essncia vital, ou resduo de alma, inutilizada. Infelizmente, essncia vital 
sem vida era o mesmo que um crebro fora do crnio: frgil e altamente perecvel. Duraria, quando muito, um dia para cada dcada no vivida. Mesmo com a injeo 
revigorante que haviam lhe dado, Belch tinha, no mximo, uma semana para executar sua misso.
      Ele tambm sabia o que Meg precisava fazer para colocar um pouquinho de azul na aura dela. E teria o maior prazer em impedir que obtivesse sucesso. Jamais 
perdoaria aquela traidora miservel, a nica culpada pela morte dele. Portanto, faria tudo que estivesse a seu alcance para impedir que Meg Finn passasse a eternidade 
sentadinha numa nuvem, tranqilona, bebericando um copo de milkshake de chocolate. Nada disso. No que dependesse dele, ela acabaria seus dias na churrasqueira, 
girando espetos gordurosos e sentindo no lombo as ocasionais chicotadas que ele prprio se encarregaria de dar. Ao imaginar a cena, Belch deu uma risadinha de prazer, 
salivando pelos cantos da boca.
      Seu plano era simples: ele apareceria de surpresa no apartamento do velho, daria um bom susto nele, e o rabugento bateria as botas. Depois disso Meg no teria 
mais a quem ajudar. Perfeito.
      - No vai funcionar - disse uma voz eletrnica.
      Belch levantou os olhos. O mdulo de ajuda virtual pairava na altura dos ombros dele, com um sorrisinho complacente - perfeitamente natural - em seus lbios 
de quinhentos pixels por centmetro.
      - Voc deve ser o Myishi. J ouvir falar de voc. O cone piscou os olhinhos virtuais e disse:
      - Sim... e no.
      timo, pensou Belch. Um programa esquizofrnico. (Evidentemente, a criatura em que se tornara Belch Brennan no conhecia a palavra "esquizofrnico", mas a 
idia era essa.)
      - Em termos de poder cerebral, eu sou Myishi. A inteligncia dele foi programada na minha memria. Espiritualmente, o Excelso Saber ainda reside no Hades.
      Belch coou o pedacinho de couro cabeludo onde o implante havia sido instalado.
      - Pois  l que aquele maluco devia morar mesmo. O iconezinho animado reagiu imediatamente:
      - No desrespeite o meu inventor. Caso contrrio, serei forado a ativar a ecto-rede e fazer uma transmisso em tempo real. Isso, por sua vez, certamente provocar 
um espasmo de dor no seu mainframe.
      - Ecto-rede? Mainframe? Que diabos  voc?
      A criaturinha, impecavelmente vestida, fez uma mesura e disse:
      - Sou o seu programa de Ecto-Link e Personal Help. Mas pode me chamar pelo apelido: Elph.
      - Voc no est gastando minha bateria, est? - perguntou Belch, desconfiado.
      - No. J estou includo no pacote.
      - timo. Ento me diz, o que h de errado com o meu plano?
      Sorrisinho complacente de novo.
      -  o plano de um perfeito idiota. Matar o velho de susto no vai prejudicar Meg em nada. Se ela no tentar, sequer vai ter a oportunidade de falhar. Somente 
quando a aura dela estiver vermelha  que voc poder dar sua misso por cumprida.
      - Humm... - resmungou Belch, displicentemente coando a orelha.
      - O que voc tem a fazer  atrapalhar os planos deles, de Meg e de Lowrie. Tudo que o velho pedir  garota, cuide para que no d certo.
      . Fazia sentido. Como diria o Dr. Spock.
      - Est bem, ento. Que tal a gente dar uma passada no apartamento do velho e jogar uma mosca nessa sopa?
      - Infelizmente no estou equipado com insetos - retrucou Elph.
      - No quis dizer uma mosca de verdade, debilide! Estou falando de uma mosca de mentirinha! Como quando a gente diz "ele  forte como um cavalo", mas o cara 
no  um cavalo de verdade.
      - Ah, sim - disse o fantasminha virtual, flutuando ao longo do caminho. - Agora entendi. Belch-san estava falando metaforicamente. Esse arquivo no foi includo 
na minha memria. O venervel Myishi achou que no seria relevante para nossa misso.
      - O venervel Myishi pode pegar esse arquivo e...
      Antes que pudesse terminar sua frase malcriada e altamente escatolgica, Belch sentiu uma pontada violenta no crebro. No se tratava,  claro, de um crebro 
real - este agora estava debaixo da terra, servindo de comida s minhocas. Acontece que a dor espiritual pode ser to lancinante quanto a fsica.
      Depois de alguns instantes, j recuperado do choque, Belch deparou-se com Elph flutuando  sua frente, olhando-o com frieza.
      - Desrespeitar o Excelso Saber - disse a criaturinha - ativa imediatamente o link punitivo. No recomendo.
      - Au!- rosnou Belch. - Entendido.
      - No precisa traduzir. Sou fluente em quatorze idiomas caninos, inclusive no pauprrimo dialeto dos pitbull.
      - Ento vamos acabar logo com isso - resmungou Belch. - O apartamento do velho fica logo ali, do outro lado da esquina.
      - Hai, Belch-san.
      Eles entraram no ptio externo. Empolgado com seus novos poderes de poltergeist, Belch revirava tudo que via pela frente: latas de lixo, bancos e at pequenos 
carros. Elph, por sua vez, balanava a cabecinha piscante em sinal de reprovao. Sisudo demais para um holograma.



CAPTULO 5

A TRANSFORMAO

ELES FORAM de trem para Dublin. Ao que parecia, Nora havia bebido o carro tambm. Na condio de aposentado, Lowrie tinha passe apenas para os vages de segunda 
classe e, portanto, via-se obrigado a conversar com um esprito invisvel na frente de um monte de estranhos.
      - O que estamos indo fazer em Dublin? - perguntou Meg.
      - Hein? - disse Lowrie, despertando de um sonho qualquer.
      - Esse primeiro item na sua lista de desejos... "Bicota na Sissy". O que isso quer dizer?
      Lowrie virou-se para Meg e, com sua tpica rabugice, respondeu:
      - Isso mesmo que est escrito a. H uma mulher chamada Sissy. Preciso dar um beijo nela.
      - Sim, mas por qu?
      - No  da sua conta. Faa apenas o que veio fazer aqui. Meg no gostou nem um pouco da resposta. Levitando a uns dez centmetros do assento, retrucou:
      - S estou tentando ajudar, ora bolas. Um pouquinho de educao no faz mal a ningum.
      - Educao? Quem  voc pra falar de educao? Uma delinqente que invade a casa de um velho e arranca um pedao da perna dele. Ou, pior, faz o que fez com 
o prprio padrasto.
      S de pensar em Franco, Meg soltava fogo pelas ventas.
      - Quem foi que contou sobre isso a voc? - perguntou ela.
      - Ele mesmo.
      - Voc conhece o Franco? Lowrie ajeitou-se no assento.
      - Ele apareceu l em casa pra pedir desculpas depois do... acidente.
      Meg sentiu suas molculas vibrarem. Mesmo depois de morta, ainda perdia a cabea quando ouvia falar daquele homem.
      - Coitado... - prosseguiu Lowrie. - Depois de tudo que ouvi, at fiquei com vergonha de reclamar da vida...
      Meg mal acreditava no que escutava.
      - Voc ficou com pena daquele maldito?
      - Depois do que voc fez?
      - Mas ele fez por merecer! - disparou Meg. - Alis, ele merecia muito mais!
      - Sei l... Acho que ningum merecia aquilo. O que voc fez foi...
      - Justia! - interrompeu Meg. - O que eu fiz foi justia! Aquele canalha vendeu as jias da minha me. Inclusive uma pulseira que ela adorava, com pingentes 
da sorte. Todo ano a gente acrescentava um pingente novo. Alm disso, ele assistia a nossa televiso, esborrachado no nosso sof. Ele era to espaoso que, depois 
de um tempo, o sof ficou sendo dele. Tinha at a marca do traseiro nojento dele numa das almofadas.
      Avaliando a expresso de Meg, Lowrie perguntou:
      - E ele batia em voc?
      Seguiu-se um momento de silncio. Meg pousou novamente no assento de plstico rasgado.
      - No adianta mudar de assunto - disse ela, de repente. - Quem  essa tal de Sissy afinal? E como voc sabe que ela no vai dar um tapa na sua cara quando 
tentar dar um beijo nela?
      Lowrie recostou-se na janela e tirou um charuto do tamanho de uma salsicha do bolso interno do palet.
      - Sissy Bronan - disse ele, suspirando. Em seguida acendeu um isqueiro muito antigo, a leo. A chama enorme exalava um cheiro forte, assim como o prprio charuto. 
Meg viu, maravilhada, a fumaa atravessar seu abdome. - Sissy Bronan  a mulher com quem eu devia ter me casado, em vez daquela bruxa da Nora. Sissy era uma mulher 
de verdade. Quebraram a frma depois que fizeram ela...
      - Frma? Como uma frma de bolo?
      - No.
      - De gesso?
      - Ah, fecha a matraca, menina! - resmungou Lowrie, irritado por ter sido interrompido. -  s uma expresso. O que estou dizendo  que ela era nica. No havia 
outra igual.
      - Ah...
      - A gente saiu uma vez...
      - Saiu de onde?
      Lowrie j podia prever a dor de cabea que estava por vir.
      -  s uma expresso! Ns tivemos um encontro! Samos pra passear!
      - Ah...
      - Primeiro, fomos ao cinema.
      - E que filme vocs foram ver?
      - Sei l - bufou Lowrie. - Eu no me... - Ele parou e, com uma expresso de doura no olhar, corrigiu-se: - Eu me lembro, sim. Era A mscara do Zorro.
      - Bela porcaria. Aposto que esse filme passa at hoje.
      - Eu me lembro muito bem. Quando sa pra comprar batatas fritas, fiquei imitando o Zorro, brandindo uma espada imaginria no saguo do cinema...
      Meg riu.
      - Voc? Pagando esse mico s porque estava feliz? No acredito.
      - Eu tambm mal posso acreditar. Talvez seja esse crebro cansado de guerra que esteja inventando coisas. De qualquer forma, foi uma noite e tanto. Perfeita. 
Noites assim no acontecem toda hora. No mximo umas seis vezes na vida de uma pessoa. Ah, Sissy... Com aqueles cachinhos ruivos presos atrs das orelhas. A ltima 
moda naqueles tempos.
      - Sei - disse Meg, morrendo de tdio. - Cachinhos atrs das orelhas e banheiros do lado de fora de casa.
      Mas Lowrie estava de tal modo perdido em seus pensamentos que nem se deu ao trabalho de retrucar. As lembranas brotavam dele como espirais de fumaa, desenhando 
formas exuberantes pelo ar.
      - Uma noite perfeita...
      - Mas?
      - Mas eu pus tudo a perder. Como sempre.
      - O que foi que voc aprontou? Afinal, tudo o que tinha a fazer era levar a moa em casa e dar um beijinho de boa-noite nela.
      - No teve beijinho nenhum.
      - Vacilo.
      Lowrie balanou a cabea grisalha em sinal de profundo arrependimento.
      - , eu sei. Penso nisso todos os dias. Mas a culpa foi das minhas mos.
      - Como assim?
      - Elas suavam muito. Estavam ensopadas. Como duas plantinhas de aqurio. Fiquei com vergonha de coloc-las na cintura dela. Uma bobagem, eu sei. Uma grande 
bobagem. - Lowrie no ouviu nenhum comentrio por parte de sua acompanhante fantasma. - Achei que, se Sissy percebesse que minhas mos estavam suadas daquele jeito, 
eu nunca mais teria chance com ela. Pensei: "Amanh, quando estiver mais fresco e minhas mos estiverem secas..." Ento dei as costas e fui embora.
      - E voc nunca mais viu a tal de Sissy? O velho deu uma sonora gargalhada.
      - Ah, vi sim! Todos os dias durante os quatro anos seguintes. No incio, via a mgoa nos olhos dela; depois, a frieza. Eu estava l quando ela se casou com 
o meu melhor amigo. E ainda tive de sorrir, parado naquele altar, entregando as alianas como se fosse o padrinho mais feliz do mundo.
      - Se tudo isso aconteceu na sua juventude, essa Sissy deve ser uma velhinha hoje em dia. Quando foi a ltima vez que voc a viu?
      Lowrie coou o queixo mal barbeado.
      - Pessoalmente? Agora voc me pegou. Tem uns bons quarenta anos.
      Meg levitou novamente, de to pasma.
      - Quarenta anos? Pode ser at que ela j tenha morrido, ou que esteja vivendo num asilo, sei l!
      - Nada disso. Sissy est viva. Disso eu tenho certeza.
      - Tem certeza como? J estive dentro do seu crebro, esqueceu? Sei que ele no anda l muito bem.
      Lowrie foi direto ao ponto.
      - Porque o nome de casada da Sissy  Cicely Ward. Imagino que at uma delinqente como voc deve saber quem  Cicely Ward!
      Meg desabou, boquiaberta, no assento de espuma do trem.
      - Aquela Cicely Ward?
      - . Aquela Cicely Ward. Ela no foi famosa a vida inteira, fique voc sabendo. Antes, era s a minha Sissy.
      Por mais estranho que parecesse, Meg achou tudo aquilo perfeitamente plausvel.
      - Voc est me dizendo que teve a chance de se casar com a vov mais querida da TV e que pisou na bola?
      Lowrie socou a prpria cabea - uma cabea dura, diga-se de passagem - e admitiu:
      - Isso mesmo.
      - Vacilo, isso  o que voc ! E eu, que achava que minha vida era uma desgraa...
      - Pelo menos eu tenho uma vida.
      - No por muito tempo.
      Lowrie voltou subitamente ao presente, e suas lembranas retornaram para o mesmo lugar de onde tinham sado: o fundo do ba.
      - Tem razo. No por muito tempo. Portanto, se voc fizer o que tem de fazer, acho que a gente nem precisa conversar.
      - Mas...
      - Mas, nada. Voc s est aqui porque precisa estar. Caso contrrio, estaria no cu, invadindo o castelo de algum.
      Lowrie baixou a boina sobre os olhos e tentou tirar um cochilo. Dormir de novo? Meg mal pde acreditar. Depois daquela roncaria toda na noite anterior... Como 
algum com apenas seis meses de vida podia desperdiar o tempo daquela maneira, dormindo? Olhando para o cu, com ar de poucos amigos, ela pensou: "Poxa, valeu. 
Valeu mesmo. Minha ltima chance de salvao, e vocs me mandam a nica pessoa que me odeia mais que o meu padrasto!"

???
      
      Quando o trem entrou na estao de Heuston, Lowrie ainda estava mergulhado no sono, respirando sonoramente pela bocarra aberta. Meg j no agentava mais olhar 
para aquelas obturaes. Era como se um dentista medieval tivesse preenchido as cries com tocos de carvo. Alm disso, como ele se vestia mal! Entre tantas outras 
coisas, era bem possvel que Nora tambm tivesse bebido o bom gosto do velho. Se Lowrie andasse pelas ruas de Dublin vestido daquele jeito, as pessoas comeariam 
a jogar esmolas para ele.
      Entrar nos estdios da RTE na companhia daquele Mendigo Adormecido seria uma misso impossvel. Alguma providncia teria de ser tomada. A equipe de Cicely 
Ward jamais deixaria aquele ET maltrapilho chegar perto dela s porque ele havia desperdiado uma chance de beij-la ainda no tempo do cinema preto-e-branco. E com 
certeza Cicely Ward teria uma equipe; gente famosa sempre anda cercada de armrios parrudos e mal-encarados para evitar os fs.
      Meg podia at imaginar a cena, Lowrie aproximando-se de um dos armrios e gaguejando: "... desculpa... Ser que eu posso entrar?  que eu fiz uma lista de 
desejos, e esse esprito aqui, flutuando em cima da minha cabea..." Socos, pontaps, sarjeta.
      No. Sem a interveno dela, nenhum dos itens daquela lista jamais seria riscado.
      Hora de entrar em ao. Meg preparou-se mentalmente e, sem pressa, invadiu o corpo adormecido de Lowrie. No  to mal assim, depois que a gente pega a manha 
da coisa, disse a si mesma.
      O crebro do velho estava calmo. Imagens de cores vividas flutuavam de um lado a outro como nuvens fantsticas. "Continue sonhando, meu amigo. No precisa 
acordar. Alm do mais, voc no ia gostar nem um pouquinho do que vai acontecer". Meg esticou as pernas enferrujadas e desceu  plataforma.
      Atrs dela, duas freiras se benziam enquanto pediam ardorosamente ao Senhor que no terminassem seus dias como aquele pobre mendigo atrapalhado das idias.

???
      
      Belch sorria como um lobo, feliz da vida por saber que podia invadir a privacidade de algum sempre que lhe desse na telha. Bastara pensar na palavra "BURACO" 
para que ele atravessasse sem problemas a porta da frente do apartamento de Lowrie McCall. Perfeito,
      - Eles no esto aqui - informou Elph.
      Belch lambeu os lbios com sua lngua comprida e fina de cachorro.
      - Imagino que no d pra desligar voc. Elph piscou para acessar um arquivo.
      - No posso ser desligado pelo hospedeiro. Qualquer tentativa nesse sentido resultar numa descarga craniana de grandes propores e recolhimento imediato 
 base.
      - Ou seja, vou direto pro inferno, no ?
      - Correto.
      - Pacincia. Ento v se fecha o bico enquanto dou uma olhada nesse lugar.
      Elph sorriu como sorriria uma criana segundos antes de esmagar um inseto com os ps.
      - Vou fechar o bico, como voc disse, mas apenas porque isto  de fato o melhor a fazer.
      Depois de alguns minutos vasculhando as velharias de Lowrie, Belch resolveu que estava cansado demais. Jogou-se no sof pudo e plantou os sapatos espectrais 
no vidro da mesinha de centro.
      - Esse lugar  uma espelunca - observou. - Nem sei direito por que vim aqui.
      Elph piscou novamente, examinando o arquivo pessoal de Belch Brennan.
      - Sem dvida nenhuma porque voc  um protozorio. Segundo meu arquivo, voc sempre foi propenso a atos de consumada estupidez.
      Belch pulou do sof, fazendo com que ele se espatifasse contra a parede.
      - Tive um professor que nem voc. Sempre fazendo gracinha e me chamando de burro. Sabe o que eu fiz? Dei uma lio nele. Cortei os quatro pneus do carro dele 
e arranhei o cap.
      - Eu sei - disse Elph. - Tenho o vdeo. Sei tambm que voc escreveu o prprio nome na lataria do carro do senhor Kehoe. Uma idia brilhante.
      - Posso dar um jeito em voc tambm, paspalho! - rosnou Belch, avanando contra o conselheiro virtual.
      - Duvido muito - devolveu Elph, vendo o menino-cachorro atravessar os impulsos eltricos que compunham o holograma. - Sou uma projeo intangvel. Para "dar 
um jeito" em mim, voc teria de arrancar a prpria cabea e enterr-la num cemitrio. Improvvel, no mnimo.
      Belch desprendeu-se da parede e lanou um olhar de fria para seu suposto conselheiro.
      - Muito bem, senhor Elph - disse ele. - Bandeira branca. Por enquanto.
      - Sugiro que procuremos por pistas que nos levem ao paradeiro do nosso alvo.
      - Pistas?
      - Basta perguntar aos mveis.
      - Est zoando comigo, no est? Elph suspirou e disse:
      - No, imbecil, no estou "zoando" com ningum. Estou falando de memrias residuais. Os espritos so muito receptivos a esse tipo de substncia.
      - Ento pergunta voc. No vou pagar esse mico de ficar conversando com um apartamento velho.
      - No sou um esprito. Sou uma...
      - Eu sei, eu sei... Uma projeo intangvel, seja l o que isso for. Est bem, ento. Mas, se voc ficar rindo da minha cara, vou tirar esse implante com as 
minhas prprias mos. J estou morto, no estou? No vou ficar mais morto do que isso.
      Belch virou-se para o sof pudo.
      - E a, sof... - Ele mal acreditava no que estava dizendo. - Por acaso voc sabe pra onde foram a garota e aquele velho rabugento?
      Ele aguardou um pouco, meio que esperando que as almofadas velhas se transformassem numa boca para respond-lo. Em vez disso, Meg surgiu diante dele. No exatamente 
Meg, mas algo que lembrava uma pintura de formas em mutao.
      - timo - disse Elph. - Uma memria residual de nvel quatro. Bem recente.
      - Cala a boca, Spock. Estou tentando entender o que ela est fazendo.
      - Algum retorno audvel?
      - O qu?
      - Pode ouvir o que ela est dizendo?
      Belch ouvia, com as orelhas tremendo de tanta concentrao. As palavras fluam da boca de Meg como pssaros multicoloridos. As cores eram escuras. Ela no 
parecia feliz.
      - "Ento  isso? Vamos percorrer a Irlanda de ponta a ponta s pra realizar essas suas tarefas idiotas? No h uma alternativa?"
      - Como?
      - Foi isso que ela disse.
      Suspenso no ar, Elph refletiu por um instante.
      - Quer dizer ento que o velho estabeleceu tarefas - disse em seguida. - Certamente eles j partiram para cumpri-las.
      - Ser que j se foram h muito tempo?
      - Difcil dizer. O tempo funciona de outra forma no plano espiritual. A julgar pela dissipao de memria, faz umas seis horas que eles partiram.
      Belch tentou dar um sorrisinho de sarcasmo, mas s o que conseguiu produzir foi algo semelhante ao ganido de um poodle.
      - Seis horas? A essa altura eles podem at estar fora do pas! Pronto, acabou. No tem mais como a gente encontrar aqueles dois. Melhor ficar aqui, assistindo 
 televiso, esperando que eles voltem. Se  que eles vo voltar.
      Elph mordeu seus lbios hologrficos. Ao que tudo indicava, o protozorio tinha razo. O velho os havia ludibriado ao sair de casa. Droga. Myishi ficaria furioso 
caso seu prottipo o deixasse na mo. O holograma corria o risco de ser rebaixado a forno de microondas e passar o resto da eternidade requentando as gororobas de 
Belzebu.
      Belch zapeava  procura de um desenho animado qualquer. Noticirio, noticirio, propaganda. Nada que prestasse. Ele estava prestes a desligar o aparelho quando 
um rosto conhecido surgiu na tela. No podia ser... Mas era.
      O cachorro dentro dele rosnou de felicidade. Isso  que  sorte, o resto  bobagem. Algum l embaixo deve estar torcendo por mim.

???
      
      Meg descia a rua O'Connell, sentindo o frescor da brisa no couro cabeludo. Quem diria que ser careca tinha vantagens?
      Ela sabia exatamente onde estava. Sua me costumava fazer as compras de Natal ali, todos os anos, antes do acidente. Meg ia junto e nem precisava ir  escola. 
Roupas, brinquedos, tudo que ela quisesse, alm de uma passada na sorveteria no fim do dia. Bons tempos que no voltariam mais.
      Aqui e ali ela via sua imagem refletida na vitrina de uma loja qualquer e, assustada, lembrava-se da misso que tinha a cumprir: fazer com que aquele molambo 
se parecesse novamente com uma pessoa seminormal de modo que tivesse alguma chance de roubar um beijo da vov mais adorada da Irlanda.
      Sua primeira idia havia sido entrar numa loja onde pudesse afanar alguma coisa, mas, infelizmente, no seria possvel afanar um corte de cabelo. Alm do mais, 
sua aura j tinha vermelho demais para que continuasse a desrespeitar os mandamentos divinos daquela maneira. Meg vasculhou os bolsos de seu hospedeiro para ver 
o que encontrava neles. No foi uma experincia muito agradvel. Parecia que ela estava revirando um depsito de lixo. Lenos amarfanhados, pastilhas velhas e meladas, 
um pente lambuzado de goma, vrias cartelas de bingo. Nada que se pudesse encontrar nos bolsos de um artista de cinema. Por fim, Meg achou o que estava procurando. 
Escondidinho nas dobras de uma carteira fedorenta havia um carto Visa, novinho em folha. Perfeito.
      O que mais precisava de reparos, de modo geral, era a cabea. Depois de tantos anos de desleixo, Lowrie certamente j havia se acostumado a ela, mas, aos olhos 
de estranhos, o que se via ali era uma verdadeira desgraa. Fios grisalhos brotavam de todos os cantos, menos do couro cabeludo. Os olhos eram remelentos e injetados. 
A barba malfeita mais parecia uma lixa. Algo precisava ser feito.
      A soluo estava logo adiante: o salo de beleza Nova Mulher. Meg j estivera ali certa vez, com a me, que achava que ambas mereciam um pouquinho de paparico. 
Elas haviam se dado todos os luxos - mos, ps, mscaras de beleza - e depois voltado de nibus para casa, lindas e maravilhosas.
      Meg empurrou as portas de vidro e entrou no salo. Foi como se um forasteiro tivesse acabado de entrar no saloon de um filme de faroeste. Silncio absoluto. 
Dava para se ouvir um grampo cair no cho - o que de fato se ouviu, pois uma cabeleireira novata deixara cair da boca meia dzia deles.
      Uma loura jovem, inteiramente vestida de preto, aproximou-se de Meg com cautela, mantendo as mos diante dos peitos por medo de que eles trombassem no inesperado 
visitante.
      - Ol. Meu nome  Natalie. Posso ajud-lo em alguma coisa?
      Isso foi o que sua boca disse. Os olhos haviam dito outra coisa: "Caia fora daqui antes que eu chame a polcia". Meg limpou a garganta e perguntou:
      - Vocs atendem homens aqui?
      - Bem... - respondeu Natalie, hesitante. - s vezes.
      - timo. Pode me atender ento?
      - Voc?
      - , eu.
      - Acontece que... bem, os nossos servios no so l muito baratos. Quem sabe o barbeiro da esquina...
      Sem titubear, Meg sacou o carto de crdito e disse:
      - Bote tudo nisto aqui, Natalie.
      Natalie aproximou-se, mas no muito, para examinar o carto. Depois abriu um sorriso de alvio, quase simptico, em seus lbios carnudos.
      - Parece que est tudo em ordem. E ento, o que o senhor deseja fazer?
      - Ora, est na cara, no est? - brincou Meg. - Servio completo, por favor.
      Natalie estalou os dedos, e, como num passe de mgica, duas assistentes, tambm vestidas de preto, surgiram ao seu lado.
      - Servio completo para o cavalheiro aqui. Alis, com o perdo da ousadia, j no era sem tempo.
      Meg foi conduzida at uma cadeira modernssima, de ao cromado, ao lado da qual se viam diversas engenhocas embelezadoras. Algumas ela conhecia: secador, aparelho 
de eletrlise a laser, luzes para fazer reflexos. Outras pareciam ter sado diretamente de uma nave espacial.
      - Vai fazer muito barulho? - perguntou ela, preocupada.
      - Que nada - respondeu a assistente nmero um, falando como um passarinho. - Nossos aparelhos so de ltima gerao. Tudo para o conforto dos nossos clientes!
      - Ah, bom. Porque eu no quero... que me acordem.

???
      
      Perto da hora do almoo, Lowrie McCall j estava de cabelos cortados e tingidos; rosto barbeado, hidratado e esfoliado; unhas cortadas e pintadas. E tudo isso 
sem despertar de seu sono profundo. Sempre que ameaava faz-lo, Meg dizia-lhe para voltar a dormir. Com muita delicadeza,  claro, e no com a brutalidade que geralmente 
dispensava aos adultos. Lowrie voltou  conscincia somente quando chegou o momento de assinar o papelzinho do carto de crdito - e, mesmo assim, apenas parcialmente. 
O pobre velhinho achou que estivesse sonhando, um sonho delicioso, em que tinha ganhado na loteria.
      A transformao foi extraordinria. At Natalie ficou impressionada.
      - No fossem as roupas, a gente at acharia que o senhor  da cidade!
      Era o maior elogio que uma dublinense era capaz de fazer a um caipira do interior.
      Passo seguinte: roupas novas. Hora de apresentar aquela mmia ao sculo XXI.
      Arrastando-se com as pernas do velho, Meg seguiu para o shopping da rua Grafton, o favorito de sua me. Subiu ao segundo andar, escolheu a loja mais barulhenta 
de todas e entrou. A pulsao da msica techno imediatamente comeou a reverberar em sua cabea - ou melhor, na cabea de Lowrie McCall, que mais uma vez ameaou 
despertar.
      - Quietinho... - sussurrou ela. - No v acordar agora.
      Um vendedor de cabea raspada e piercing no nariz aproximou-se para informar ao recm-chegado que a loja de dentaduras ficava mais adiante.
      - Entrou no lugar errado, vov. Isto aqui  uma loja de roupas. Pra gente com menos de cem anos.
      Meg tomou a ofensa pessoalmente. Afinal, era ela quem ocupava o corpo insultado naquele momento.
      - Voc me chamou de vov?
      O sujeito de nariz furado ficou aflito de repente.
      - Bem,  que... o senhor... j est mais pra l do que pra c, n?
      Meg abriu a boca para responder  altura, mas acabou desistindo. O marrento tinha razo. Aquela loja talvez fosse adequada para ela, mas no para Lowrie. Ningum 
colocaria o presidente do pas, ou qualquer outro figuro, em trajes de roqueiro. O pessoal da terceira idade tinha um jeito prprio de se vestir, um jeito meio 
triste, embora fossem felizes.
      Meg olhou para o sujeito de nariz furado com uma cara de superioridade e disse:
      - Eu estava pensando em comprar um presente para a minha tatara-tataraneta, mas agora resolvi gastar meu rico dinheirinho em outro lugar.
      Ela saiu apressadamente, orgulhosa das palavras compridas que conseguira juntar e da lio que dera no carinha. Perto de onde estava, havia uma loja chamada 
Townsend & Filhos. Pilhas de roupas caretas na vitrina. Gravatas e tudo mais. Um dos manequins tinha at uma cartola. No restava dvida: aquele era o lugar certo 
para o Sr. Matusalm.
      Meg entrou na loja um pouco acanhada, lembrando-se das tantas vezes que fora escorraada de estabelecimentos semelhantes durante sua breve passagem pela Terra. 
Uma meia dzia de sujeitos de nariz empinado andava de um lado para outro com fitas mtricas penduradas no pescoo. Nenhum parecia jovem o suficiente para ser filho 
do tal Sr. Townsend.
      Um deles se aproximou. Tinha um bigodo comprido e murcho, parecido com o daquele cara do desenho do Pernalonga. Trazia no bolso da camisa alguns bastes de 
giz.
      - Senhor? - disse ele, com total indiferena, como se fosse cansativo demais dizer "Boa tarde, senhor, posso ajud-lo em alguma coisa?".
      Meg pensou por um instante. Precisava escolher bem as palavras e demonstrar segurana, como se j tivesse passado ali um milho de vezes.
      - Sim...  que... Bem, cortei meu cabelo no salo da Natalie e agora queria comprar umas coisas bacanas pra vestir. Um terno, sei l. Mas nada de cartolas, 
pelo amor de Deus, seno ele vai me matar. Quer dizer, ele me mataria, se no fosse tarde demais.
      Meg deu um risinho nervoso.
      - Um terno, senhor? Alguma grife em especial?
      - No. Traz alguma coisa bem cara. E debite tudo do meu Visa.
      De repente, os vendedores eram s sorrisos. Sacando as fitas mtricas como se fossem chicotes de Indiana Jones, aproximaram-se para tirar as medidas do generoso 
comprador.
      - O senhor gostaria de um terno sob medida ou alguma pea da nossa coleo prt--porter?
      - Coleo o qu? Sei l. Traz alguma coisa j pronta.
      - Muito bem. Por favor, no se mexa agora. Prefere um costume ou um terno?
      - Tambm no sei. S no quero saber de colete.
      - Claro.
      - Traz tambm um par daqueles sapatos marrons ali. Com os trequinhos pendurados.
      - Borlas.
      - Isso mesmo.
      - De que tamanho?
      Humm... Maldio. Hora para um pouquinho de criatividade.
      - Tamanho? Xiii... No consigo me lembrar.  que minha memria j no anda l muito boa. Memria de coroa, sabe como .
      - Desde que o senhor ainda se lembre de como assinar seu nome...
      - O qu?
      - Nada, nada... S uma piadinha sem graa.
      Meg teve a impresso de que estava sendo vestida por um redemoinho de vendedores. Townsend e seus muitos filhos rodopiavam ao redor dela, gritando nmeros 
e expresses esquisitas.
      Mede daqui, cutuca dali, e, depois de alguns interminveis minutos, os alfaiates terminaram sua agitada misso.
      - Et voil! - exclamou o mais velho dos Townsend, admirando sua obra de arte.
      Meg arriscou uma olhadela. Nada mal. Os molambos de Lowrie haviam sido substitudos por um palet azul-marinho e um par de calas cinza. As bainhas das calas 
pousavam delicadamente sobre um par de sapatos marrom-escuros, de amarrar e com borlas. A camisa azul-clara, perfeitamente passada, complementava-se com uma gravata 
vermelho-escura.
      - E ento, senhor?
      Os membros da famlia Townsend rodeavam o cliente  espera de um cumprimento, feito urubus sobrevoando um acidente no deserto.
      - Humm... Ficou... ...
      - Sim?
      O que diria James Bond numa situao dessas?
      - Extraordinrio, cavalheiros. Belo trabalho.
      O comentrio pareceu resolver a questo. Os Townsend cochicharam alguma coisa entre si e, dali a pouco, o pai voltou com uma bandeja de prata. Ms notcias. 
Pssimas notcias. Oitocentos e quarenta libras! Se tivesse a mnima idia do que estava se passando, o pobre Lowrie bateria as botas ali mesmo.
      Meg entregou o carto Visa, na esperana de que morrer com dvidas a pagar no avermelhasse a aura de ningum. Caso contrrio, Lowrie estaria em maus lenis.
      Um dos filhos de Townsend se aproximou, deslizando no cho como se estivesse sobre patins. Trazia consigo uma sacola com as roupas velhas de Lowrie, parecendo 
um enfermeiro carregando um pacote de fraldas geritricas.
      - O senhor gostaria de ficar com... isto aqui?
      Meg pensou por um instante. J havia guardado a carteira, a passagem do trem, o carn de aposentadoria, as chaves e alguns mseros trocados.
      - No. Pode jogar no lixo.
      - Naturalmente, senhor.
      Agora no havia mais volta. Se no ficasse com aquelas roupas de bacana, teria de tentar entrar nos estdios da RTE s com as cuecas de Lowrie - uma viso 
dos infernos que ningum merecia.

???
      
      Hora de acordar o velho. Meg saiu do corpo dele e esperou pelos fogos de artifcio. Lowrie McCall piscou os olhos verdes, ainda sonolentos, e abriu um leve 
sorriso.
      - Ol - disse ele, a ningum em particular.
      Os Townsend observavam de longe, estranhando o comportamento de Lowrie, que levantou um dedo e disse:
      - Acho que j vi voc em algum lugar...
      Meg olhou ao seu redor. Com que diabos o gag estava falando?
      - Jamais me esqueo de um rosto.
      Que rosto? Era bem possvel que, depois de ter sido possudo pelo esprito de Meg, o velho tivesse perdido o juzo de vez. Seguindo o olhar dele, Meg viu que 
o sem-noo falava com o prprio reflexo num dos espelhos da loja. No se conteve e caiu na gargalhada.
      - Est rindo do qu? - perguntou Lowrie, com as costumeiras rugas de irritao marcando a testa.
      Achando que o velho se dirigira a eles, os Townsend - que vinham rindo discretamente das maluquices do inusitado cliente - calaram-se na mesma hora.
      Meg engoliu a risada e disse:
      - De nada. Voc est conversando com um espelho, s isso.
      - No seja ridcula! Aquele ali no sou eu!
      - Olhe direito, Lowrie, aquele ali  voc mesmo.
      Lowrie avaliou melhor a figura elegante diante de si. Parecia que havia uma moldura em torno do sujeito. Muito esquisito. A no ser,  claro, que se tratasse 
de um reflexo.
      - Santo Deus! - exclamou ele, finalmente caindo na real. - Sou eu mesmo... Ou melhor, o homem que eu poderia ter sido...
      - Puxa, Lowrie - disse Meg. - Tudo pra voc  motivo de reclamao. Devia estar pulando de felicidade.
      Lowrie tocou o vidro do espelho, apenas para se certificar.
      - Mas eu estou feliz. Isso ... inacreditvel. Muito obrigado, menina.
      - De nada. S fiz isso pra aumentar suas chances de dar uma bicota em Cicely Ward.
      - Por um instante cheguei a achar que voc tivesse feito isso por mim.
      - E foi. Voc  mesmo um limo azedo, n? Puxa, ser que no ri nunca? No faz nada sem pensar nas conseqncias?
      Lowrie ajeitou a gravata de seda.
      - Eu era assim, como voc est dizendo. Sculos atrs. Mas depois... bem, depois tudo mudou. - De repente, o velho se deu conta de uma coisa. - Espere a, 
como foi que voc pagou por essas roupas todas?
      De algum modo, mesmo sem uma gota de sangue correndo nas veias, Meg ficou vermelha de vergonha:
      - No paguei.
      - No me diga que voc usou meu corpo pra assaltar a loja?
      - Claro que no!
      - Ento fez o qu?
      Flutuando, Meg passou  frente do velho e seguiu apressadamente rumo  porta.
      - No interessa. A gente precisa ir pra RTE, lembra? Fica na regio de Donnybrook.
      - Volte aqui! - berrou Lowrie, correndo com o prprio flego pela primeira vez em muitos anos. - Voc vai me contar essa histria direitinho!
      - Est bem, ento. Mas voc no vai gostar.
      - No importa. Quero a verdade.
      Meg disse a verdade. E Lowrie no gostou.

CAPTULO 6

BICOTA NA SISSY

ELES FORAM de nibus, um daqueles de dois andares, at os estdios da RTE. Mesmo o rabugento Lowrie achava mais divertido fazer a viagem no segundo andar. Era um 
dia ensolarado de primavera, e as ruas fluam l embaixo como um rio de vida. Naturalmente, sendo quem era, Lowrie no agentava a felicidade por muito tempo.
      - E ento, pastel de vento, onde esto as minhas roupas velhas?
      - Mandei jogar no lixo.
      - O qu? J fazia uns vinte anos que eu tinha aquele palet!
      - Eu sei, ele me disse.
      Numa cidade grande como Dublin, ningum se assustava com um velho resmungando sozinho dentro de um nibus.
      - Voc no tinha esse direito! - reclamou Lowrie.
      - Quer mesmo dar um beijo nessa Sissy, ou no?
      - Claro que quero!
      - Por acaso acha que ela vai beijar a boca de um esquisito carregando uma sacola com um monte de trapos fedorentos? Claro que no! E tem mais: sorte sua que 
aquela gente no vendia cuecas, seno aquele seu cueco de dois mil anos tinha ido pro brejo tambm.
      Lowrie ficou lvido.
      - Como foi que voc...
      - Isso mesmo. Vi sua cueca furada. Uma viso da qual vou me lembrar pelo resto da... - Meg parou de repente, dando-se conta de que j no tinha vida para se 
lembrar do que quer que fosse.
      - Eu sei, Meg - disse Lowrie, pela primeira vez chamando-a pelo nome. - Todo mundo acha que vai viver pra sempre. A, de uma hora pra outra, puf! O tempo acaba, 
e a gente no fez nada do que achou que ia fazer. Mas eu, no. Recebi uma chance de me redimir. E uma parceira pra me ajudar.
      Meg fungou, embora no se visse nenhuma lgrima escorrendo por suas bochechas.
      - Parceira?
      - , voc.
      - Eu voltei s porque me mandaram voltar, lembra? Foi voc mesmo quem disse,
      - Eu sei. Mas talvez voc queira mesmo me ajudar.
      - No, Lowrie. Melhor no contar comigo. Nunca consegui ajudar ningum, nem a mim mesma.
      - Agora quem est parecendo um limo azedo  voc.
      - Ah, fecha a matraca, vov.
      - Ei, espera a. Por acaso no lhe ensinaram a respeitar os mais velhos?
      - Voc  velho demais pra ser s um "mais velho", Lowrie. Voc  um "incrivelmente velho".
      - Muito engraada. Ah, se eu tivesse uns cem anos a menos!
      E assim, gradualmente, surgiram os primeiros sinais de uma possvel amizade entre o corpo e o esprito. Embora Meg no tivesse notado, alguns fios azulados 
haviam se juntado  aura dela.

???
      
      O porto da RTE era guardado por um segurana, um dublinense grandalho, de cabelos raspados com mquina dois e tolerncia zero diante de intrusos.
      - Cai fora! - disse o guarda, que, segundo o crach, chamava-se Desmond.
      - Ei, espera a - protestou Lowrie. - Tenho hora marcada com Cicely Ward.
      O guarda levantou os olhos da prancheta.
      - , voc e todos os velhinhos babes deste pas. Lowrie achou melhor mudar de ttica e bancar o indignado.
      - Olha, meu jovem, acontece que eu e Miss Ward somos velhos amigos e...
      - Claro, e eu sou o Papai Noel.
      At mesmo Lowrie era capaz de perceber quando algum zoava com a cara dele.
      - Por acaso no lhe ensinaram a respeitar os mais velhos?
      - Se eu ganhasse uma moeda por cada vez que algum me diz isso...
      Me inclua fora dessa, gorila, pensou Meg.
      - Vocs, velhinhos, so os piores. Do n em pingo d'gua s pra chegar perto de uma celebridade. V embora, meu amigo, antes que eu chame a carrocinha dos 
aposentados!
      Lowrie ajeitou a gravata.
      - Por acaso eu pareo com algum que precisa dar n em pingo d'gua pra entrar em algum lugar?
      O guarda passou a mo no cabelo.
      - Nunca julgue o livro pela capa. Olha s pra mim. Quem diria que sou formado em poesia medieval pela Universidade de Trinity?
      Meg achou que era hora de intervir.
      - Use o poder da mente, Lowrie.
      - Como?
      Ainda por cima  surdo, pensou Desmond.
      - Eu disse que a gente no deve julgar o livro pela capa.
      - No estou falando com voc!
      - Ento est falando com quem?
      - Diz pra ele, Lowrie. - Dizer o qu?
      - Dizer o que pra quem?
      As coisas estavam ficando bastante confusas. Pairando ao lado do ouvido do velho, Meg disse:
      - Apenas escute, Lowrie. No diga nada. Enquanto estava na sua cabea, eu liberei certos poderes.
      - Que maluquice  essa agora?
      - Se tem algum maluco aqui - disse Desmond - esse algum no sou eu!
      - Use o poder da sua mente, Lowrie. Faa esse pateta a abrir o porto.
      Lowrie deu de ombros. Aquela histria de controle da mente no era menos absurda que qualquer das outras coisas que lhe haviam acontecido nas ltimas vinte 
e quatro horas. Estreitando os olhos, ele olhou fixamente para o guarda.
      - Voc vai abrir esse porto.
      - Duvido muito.
      - Concentre-se, Lowrie. Direcione seus pensamentos a ele.
      Com os dentes cerrados, Lowrie reunia todas as suas foras num raio imaginrio:
      - Voc vai abrir o porto porque eu quero\ Desmond arregalou os olhos como um zumbi.
      - Sim, Mestre.
      - Funciona! - exclamou Lowrie. - Eu tenho super-poderes!
      - O que o senhor disse, Mestre? - perguntou o guarda. - Quer que eu d um chute nessa sua bunda murcha? Se quiser,  s pedir!
      - Eu no pensei nada disso!
      - No, fui eu que pensei. Agora d o fora daqui antes que eu chame a ambulncia do hospcio pra levar voc e essa sua macumba de quinta categoria!
      Lowrie olhou por sobre o ombro e viu a silhueta etrea de Meg rolando de tanto rir.
      - Ha, ha, ha. Muito engraado.
      - Desculpa - disse Meg. - No deu pra segurar.
      - Eu devia ter sabido.
      - Claro que devia - emendou Desmond. - J ouvi todas as desculpas esfarrapadas que algum  capaz de inventar.
      Lowrie baixou os olhos. Fazia mais de um ano que no falava com ningum e agora conversava com duas pessoas ao mesmo tempo.
      - Quer dizer ento que nunca vou entrar nesses estdios...
      - Ah, mas no vai mesmo.
      Meg voou para perto do guarda cabea-dura.
      - Na minha opinio, o crebro  como um piano.  s bater na tecla certa.
      Ela arregaou a manga e enfiou o brao, at a altura do cotovelo, no ouvido do guarda.
      - Ecaaa... - resmungou Lowrie. - Isso  nojento demais! Meg mordia os prprios lbios enquanto remexia na cabea de Desmond. Depois de um tempo, disse:
      - Pronto. Prepare-se para a obedincia total!
      Lowrie ouviu uma espcie de clique, como se Meg tivesse apertado um boto.
      - Agora vai - disse ele.
      Desmond de fato parecia diferente. Seus joelhos comearam a bater um no outro, e as mos tremiam como se fossem manipuladas por um titereiro.
      - Humm... - pensou Lowrie. - Sabe com quem ele est parecendo?
      - Sei. Com aquele roqueiro topetudo.
      E de repente Desmond comeou a fazer uma animada imitao de Elvis Presley, cantando Blue Suede shoes e rebolando igualzinho ao rei do rock, com biquinho e 
tudo.
      - Opa - disse Meg. - Boto errado. - Ela continuou a remexer no crebro do guarda, como um urso tateando  procura de uma colmia. - Acho que agora vai.
      Que nada. Desmond comeou a relinchar como um cavalo.
      - Pra com isso, Meg! - disse Lowrie. - Por que voc no entra logo na cabea dele, como fez comigo?
      - De jeito nenhum. Foi bastante ter de conviver com as suas lembranas. No preciso de um monte de poemas medievais atazanando as minhas idias. Alm do mais, 
acho que agora consegui.
      Houve um clique e, de repente, Desmond parecia dcil como um gatinho, com os braos peludos balanando ao lado do tronco.
      Lowrie limpou a garganta.
      - Desmond, meu caro, poderia fazer o obsquio de abrir esse porto?
      Ento o guarda sorriu e disse:
      - Claro, bicho. E sabe por qu?
      - No, Desmond. Por qu?
      Uma pequena lgrima brotou no canto de um dos olhos do guarda.
      - Porque eu amo voc, bicho. Amo voc, as plantinhas, amo todos os nibus de dois andares, amo at aqueles meus ex-colegas da universidade, com seus palets 
fedorentos e comentrios inteligentes. Eu amo o universo, amigo! - Soluando baixinho, Desmond alisou carinhosamente um boto e depois o pressionou para abrir o 
porto dos estdios da RTE.
      - Ah, Desmond, mais uma coisa: ser que voc podia me dar um crach de visitante?
      - Claro, bicho. Olha, por que voc no passa l no meu ap mais tarde, pra gente captar umas vibraes, sei l...
      - O convite  tentador - disse Lowrie, sem fazer a menor idia do que o outro acabara de dizer. Virando-se para Meg, perguntou: - O que foi que voc fez com 
esse pobre coitado?
      - Sei l. Vi uma caixinha cor-de-rosa no fundo da cabea dele e abri. Parecia uma caixinha feliz.
      - Acho que eu preferia o guarda cabea-dura.
      Lowrie atravessou o porto e seguiu em frente, cada vez mais confiante. Com o crach de visitante preso  lapela, poderia entrar em todos os cantos daqueles 
estdios, inclusive - ele esperava - no cenrio de Ch com a Cicely.

???
      
      Um estdio de gravao  bem diferente do que a gente imagina. Entre outras coisas,  muito menor. Alm disso, na televiso a gente no v onde os cenrios 
acabam. Era como se um gigante tivesse arrancado com a boca um pedao de uma casa suburbana e, depois de perceber que a decorao era horrorosa, tivesse cuspido 
tudo de volta no bairro de Donnybrook. Lowrie ficou um pouco decepcionado, e essa decepo lhe escapava do corpo em fluxos cor-de-violeta.
      Meg no perdeu a oportunidade de zoar com a cara dele.
      - Ah, coitadinho... O nen achava que era tudo de verdade, no achava?
      Lowrie achou melhor no dizer nada. quela altura no podia correr o risco de passar recibo de doido e ser chutado para fora. No agora que estava to perto.
      - O Pernalonga tambm no  de verdade, filhinho - continuou Meg, rindo  bea -  tudo de mentirinha...
      Lowrie virou-se para ela e desferiu um olhar de advertncia. E, no mundo de Meg, um olhar de advertncia era algo bem palpvel. Um jato peonhento, de um laranja 
muito forte, zarpou dos olhos do velho, seguiu em espirais na direo de Meg e se espalhou no rosto dela.
      - Ei, pra com isso! - disse ela,
      - Ento pra com as piadinhas - respondeu ele, entre dentes, enquanto forava um sorriso simptico.
      A platia dividia-se em gente de cabelos brancos, cabelos azuis e cabelo nenhum. A cor da aura denunciava os verdadeiros pensamentos de cada um. Histrias 
tristes e sofridas misturavam-se no alto do estdio como um quadro de imagens cambiantes. O amor era a emoo predominante. Amor e famlia. Quase todas as almas 
ali presentes guardavam na lembrana a imagem de um ente querido que j se fora.
      Um dos funcionrios da televiso tinha a tarefa de esquentar a platia com piadinhas sem graa. De repente, obedecendo  instruo que recebera por meio de 
um fone de ouvido, ele parou de falar e comeou a aplaudir e a gritar como um luntico. A platia fez a mesma coisa. Porm, s aplausos, nada de gritos. Aquilo ali 
no era um concerto do Boyzone.
      - L vamos ns - sussurrou Meg.
      Lowrie secou as mos com seu novo leno de seda. Estavam molhadas como esponjas.

???
      
      Belch abriu um largo sorriso, revelando sob a bocarra canina um nmero inacreditvel de dentes.
      - No acredito... - disse. Elph pousou no ombro dele.
      - A descrena  uma reao muito comum nos dbeis mentais. A descrena e a superstio. Todos os fenmenos podem ser reduzidos a termos matemticos. At o 
cu e o inferno podem ser expressos em equaes espaciais.
      - Voc  mesmo um nerd, n no, Pixel?
      - Meu nome  Elph.
      -  tudo a mesma coisa.
      Elph piscou e acessou o dicionrio.
      - Vejamos... Nerd: pessoa sem graa, convencional e socialmente inadequada.
      - Fecha o bico, cara, e olha a televiso.
      O eltrico Elph flutuou at o aparelho e sentenciou:
      - Tecnologia ultrapassada. Nem sequer  digital. Sujeita a interferncias ambientais.
      Belch achou que fosse explodir de raiva.
      - Esquea isso, man! Apenas olhe pra tela! Elph acionou o zoom e mais uma vez diagnosticou:
      - Uma srie de pontos coloridos, transmitidos numa ordem especfica para criar a iluso de...
      - Calado! - berrou Belch, levantando-se subitamente do sof. - Calado! Calado! Calado! Arf, arf, aaaaaarffff!
      Elph deu um pequeno choque nele, em parte porque era necessrio, em parte porque era divertido.
      - Ento, estamos mais calminhos agora?
      - Auuuu.
      - Vou tomar isso como um sim. Pois bem, o que exatamente voc est tentando me dizer nessa sua linguagem pr-histrica?
      Belch passou a mo na orelha peluda, que ainda fumegava por causa do choque.
      - Olha l,  ele. Na televiso.
      As lentes do ajudante virtual, que faziam as vezes de olhos, novamente ajustaram o foco.
      - Tem razo. A probabilidade de correspondncia  de oitenta e nove por cento.
      - Mas ele est diferente. No  o mesmo espantalho de antes.
      Elph pousou a mo muito bem cuidada sobre a tela. Ondas de esttica, faiscantes e vermelhas, sobrepuseram-se  imagem.
      - O que est fazendo? - protestou Belch. - Isso podia ser uma... como  mesmo que se diz? Aquela coisa do Sherlock Holmes... uma pista!
      Elph piscou; um feixe de luz trmula desceu pelo brao dele e entrou na televiso.
      - Localizei o sinal - disse ele imediatamente. -Trata-se de uma transmisso ao vivo. Estou mandando as coordenadas ao mainframe do Mestre.
      Belch comeou a salivar por antecipao. Estava com sede de sangue. Aquele lance de cachorro at que no era mal.
      - De quanto tempo a gente precisa pra chegar at l? - perguntou ele deixando transparecer na voz a sua metade canina.
      - Olhe ao seu redor, imbecil - retrucou Elph. - Voc j est l!

???
      
      Deslizando como um cisne, Cicely Ward entrou no estdio de gravao. Duzentos pares de joelhos rangeram quando a platia se levantou para aplaudir.
      - Ento, Lowrie, qual  o plano?
      Lowrie McCall piscou os olhos para secar uma gota de suor que escorrera da testa.
      - Plano? Ora, eu j disse. Beijar a Sissy.
      - S isso? Beijar a Sissy?
      - Bem, eu...
      - Caramba, Lowrie. Que belo plano esse seu, hein? Manchas escuras de suor comearam a brotar na camisa do velho.
      - No estou acostumado a esse tipo de coisa. Achei que voc fosse me ajudar.
      - Cruz credo, eu no vou beijar ningum! Nem a minha av eu gostava de beijar.
      - Claro que no! Se algum vai beijar a Sissy, esse algum sou eu!
      - Certo.
      - Exato.
      - timo.
      - Ento. Quando eu der o sinal, voc entra em ao. Carrega meus ossos velhos at aquele palco e deixa o resto comigo.
      Meg fez que sim com a cabea.
      - Isso eu posso fazer. Agora pra de falar sozinho. As pessoas j esto sentando de novo.
      Com um gesto delicado, Cicely silenciou a platia. Era uma mulher linda, alta, de cabelos cor-de-ao e olhos castanhos, muito redondos. No era  toa que Lowrie 
tinha aquela atrao toda por ela.
      - Boa noite, meus amigos. - Ela deu uma piscadela de cumplicidade na direo dos espectadores. - Preciso fingir que est de noite por causa da reprise do programa 
no sbado.
      Um charme tpico de Cicely Ward. Os editores deixariam aquela fala ir ao ar em ambas as apresentaes. A platia riu com gosto, percebendo que no se tratava 
de uma gafe da apresentadora.
      - No programa de hoje - continuou Cicely -, vamos conversar com nossos convidados sobre um assunto comum a todos ns: os amores do passado.
      Lowrie s faltou vomitar. Agora suava ainda mais do que antes.
      - Amores do passado? - repetiu Meg, com um risinho de sarcasmo. - Caraca!
      - Essa no... - resmungou Lowrie. - Isso  demais. No vou agentar.
      Preocupada com o que acabara de ouvir, a senhorinha sentada ao lado dele perguntou:
      - Tudo bem com o senhor?
      Lowrie tinha a sensao de que estava prestes a explodir.
      - Estou bem, obrigado. S preciso de um pouco de ar. Ele se levantou do assento, com pernas trmulas e com uma sbita sensao de ridculo. Roupas novas? Beijar 
a Sissy? O que tinha dado nele?
      - Onde pensa que vai? - perguntou Meg.
      - Pra casa. Pra minha casa, de onde eu nunca devia ter sado.
      Meg pairou diante do rosto dele.
      - No, agora no! A gente t quase conseguindo!
      - Ei, sai da minha frente!
      Tudo isso acontecia no meio de uma fileira de assentos. As pessoas comeavam a ficar inquietas.
      - Senta a! - ordenou Meg.
      - No posso.
      - O que pretende fazer? Voltar pra casa e morrer?
      O sangue corria depressa nos ouvidos de Lowrie, embaralhando os pensamentos dele.
      - Isso mesmo! Voltar pra casa e morrer!
      Uma declarao daquelas dificilmente passaria despercebida. Todos no estdio calaram-se na mesma hora. At o cmera parou de mascar o chiclete que tinha na 
boca.
      Cicely Ward protegeu os olhos da luz dos refletores.
      - O senhor est bem? - perguntou.
      Lowrie estava com a garganta seca e com as mos ensopadas. Mais uma vez.
      - Anda, Lowrie! - disse Meg.
      - No.
      - O senhor no est bem?
      Com toda discrio, seguranas grandalhes foram cercando o setor B.
      - Presta ateno, parceiro. No v tomar mais uma deciso errada na sua vida!
      - No posso.
      Cicely Ward se esforou para ver melhor.
      - Por acaso no o conheo de algum lugar? Lowrie respirou fundo e fitou-a diretamente nos olhos.
      - Ol, Sissy.
      - Sissy? Ningum me chama de Sissy desde que... Meu Deus... Lowrie?
      A apresentadora cambaleou para trs, quase tropeando num pequeno degrau. Os seguranas agora apertavam o passo, trocando sinais entre si.
      - Anda, Lowrie, vai l!
      Mas Lowrie no conseguia desviar o olhar daquela que fora sua grande paixo da juventude. Os olhos de Cicely eram os mesmos. Exatamente os mesmos.
      - Muito bem, parceira. Me leve at l.
      - Puxa, at que enfim! - disse Meg, deslizando para dentro do corpo do velho. Lowrie imediatamente deixou que ela assumisse o controle, enquanto ele prprio 
assistia  tudo como se estivesse no banco de trs de um txi.
      Mas as sensaes continuavam l, inclusive a sensao de juventude que se espalhava por sua carcaa velha.
      - Ei, Sissy! - gritou Meg. - No saia da! Lowrie tem... Quer dizer, eu tenho uma coisa pra dar a voc!
      Dentro de sua prpria cabea, Lowrie resmungou: "Essa garota tem assistido a muito filme americano".
      Deixando de lado a discrio de antes, os seguranas avanaram na direo dele, como um rebanho de rinocerontes furiosos. O chefe do grupo espumava pela boca.
      - Fantico na seo B! Depressa!
      - Opa. Hora de dar no p.
      Meg pulou o encosto da poltrona da frente, bem a tempo de fugir das garras do guarda mais prximo. Outros dois trombaram de cabea ao saltar, um de cada lado, 
na direo do velho que j no estava mais l. Meg deu um risinho de satisfao. Lembrou-se de quando fora perseguida por um time inteiro de jogadores de rgbi, 
depois de ter dito que o uniforme deles era de mulherzinha. Eles tambm no haviam conseguido peg-la.
      Impecavelmente vestida no seu terno novo, procurando no atropelar a cabea das pessoas, Meg desceu o auditrio pisando nos braos das poltronas.
      Cicely assistia a tudo, boquiaberta.
      - Lowrie... Eu... Minha nossa! Meg saltou no corredor.
      - S um segundinho, gata. J, j, estou a! Lowrie fez uma careta de reprovao. Gata? Recuperados do susto, os operadores de cmera miravam suas lentes na 
ao, como se elas fossem canhes. Aquele velhinho extraordinrio renderia cenas memorveis. Um dos seguranas, o mais afoito de todos, jogou-se  frente de Lowrie 
e armou um soco. No entanto, no queria triturar o rosto do velho, e esse segundo de hesitao foi o que bastou para que Meg pegasse do cho uma cesta de costura 
e se protegesse com ela. A julgar pelos gritos de dor, o sujeito acertou em cheio uma almofadinha de alfinetes escondida debaixo dos panos.
      - Ol!- gritou Meg, batendo os calcanhares no ar.
      - Ol!- repetiu a entusiasmada platia.
      Um corrimo descia pela lateral do corredor at o palco. Redondo e lisinho.
      - Pelo amor de Deus, no! - implorou Lowrie.
      - Acho que no vai ter outro jeito - retrucou Meg, sentando-se de lado sobre o tubo de metal.
      Em seguida, ela deixou o corpo deslizar corrimo abaixo, aproveitando a oportunidade para arrancar uma rosa do chapu de uma das senhorinhas presentes. Restava 
apenas mais um hipoptamo pelo caminho, mas o sonoplasta cuidou de derrub-lo enquanto tentava colocar o microfone junto ao rosto de Lowrie.
      - Ol!- gritou Meg.
      - Ol! - ecoou a platia.
      Cicely estava pasma. Parecia um daqueles velhos filmes de pirata. Era disso que a turma da terceira idade gostava - e era isso que Meg decidira dar a eles.
      Entregando a rosa a Cicely, ela disse:
      - Pra voc, meu amor.
      - Lowrie?  voc mesmo? O que est fazendo?
      - O que eu devia ter feito quarenta anos atrs.
      Meg tomou a apresentadora nos braos. A platia ficou enlouquecida. Lenos brotavam do nada como ervas daninhas depois da chuva.
      Foi perfeito. Romntico, ousado, emocionante. Depois,  claro, abriram-se as portas do inferno.

???
      
      Belch olhou para baixo. Ele flutuava a uns sessenta metros do cho. Detestava alturas.
      - Au! - latiu ele. - Au, au, auuuuuu!
      - Wuf, wuf, grrrrr.... - retrucou Elph, falando pitbulls sem nenhum sotaque. Traduo: "Fica frio, imbecil, voc j est morto!"
      Belch lambeu o fio de baba que escorria pelo queixo.
      - No amola, cara - disse ele. - Ainda estou me acostumando a essa parada de estar morto, de andar pra l e pra c como se eu fosse vento.
      O holograma tentou explicar.
      - Veja bem, no somos matria slida. Por outro lado, se quisermos ser absolutamente fiis  verdade e considerarmos como matria o nvel subatmico, ns... 
- Percebendo a expresso de "eu no tenho a menor idia do que voc est falando" estampada na testa do garoto, Elph achou melhor encurtar a histria: - Trocando 
em midos, podemos ir a qualquer lugar, desde que saibamos exatamente onde fica.
      - Ah - disse Belch, ainda sem entender direito a explicao. - Pois eu quero ir at onde est aquele velho enjoado e apertar o gog dele com meus dedos.
      Zunindo como uma abelha, os olhos telescpicos de Elph fecharam o zoom e leram os impulsos que transitavam dentro dos cabos da televiso.
      - Creio que posso isolar o sinal exato.
      - Ento anda logo, seu grilo falante de araque!
      - J disse que meu nome  Elph!
      - T bom, t bom. Grilo falante de araque.
      Os dedos de Elph se alongaram, conectando-se ao cabo encapado de borracha. Ondas energticas emanavam em torno do ponto de contato.
      - Segura firme.
      Belch mal teve tempo de soltar um ganido antes de ser despachado atravs dos fios entrelaados do condute. O hardware flua em torno e atravs deles. Belch 
podia ver as partculas de energia comunicando-se, ons positivos e negativos sendo irresistivelmente atrados uns pelos outros. Nenhum deles parecia ter objees.
      Em pouco tempo, saindo pelas lentes da cmera, eles se depararam com o mais absoluto caos. Centenas de velhinhos vaiavam e batiam os ps no cho. Espalhados 
pelo estdio, aparentemente atnitos, os seguranas apalpavam seus respectivos ferimentos.
      Belch rosnou internamente.
      - Gosto desse lugar.
      - Folgo em saber - retrucou Elph. - Quando terminar de apreciar a decorao, talvez voc note que nosso alvo est a menos de trs metros de distncia.
      Belch virou o focinho com a rapidez de um chicote, reconhecendo imediatamente o cheiro de Meg Finn. Ela estava ali, dentro do corpo do velho. Belch sentia 
sua poro canina assumir o controle, a sede de sangue voltando  garganta. Garras curvas brotaram das pontas de seus dedos.
      - Vou rasgar a aura dela em pedacinhos!
      O monstrengo flexionou suas poderosas pernas traseiras e lanou-se no ar. Em seguida, com a fora de um bate-estacas, caiu sobre Meg, expulsando-a do corpo 
de Lowrie. Os dois espritos rolaram sobre o palco. Ambas as auras faiscavam.
      - Agora voc vem comigo, sua vira-casaca nojenta.
      - Pra onde? - retrucou Meg. - Pra casinha de cachorro? 
      A resposta malcriada foi, na verdade, um mero reflexo. O que sobrava de Meg Finn tremia feito vara verde dentro de suas botas ectoplsmicas. Belch parecia 
diferente. No s por causa de sua condio de semicachorro. Mais do que isso. Ele parecia mais malvado, mais esperto. Como se tivesse parte com o Diabo.
      - Ruff, wuff, huh, huh - grunhiu ele. Elph teria traduzido aquilo como: "Essa foi a ltima piadinha que voc fez na vida, garota, pois vou arrancar sua lngua 
fora!"
      Por incrvel que parea, mesmo sem saber uma nica palavra dos dialetos caninos, Meg pde imaginar o que o outro dissera. Talvez por causa do punho cheio de 
garras que rodopiava sobre o rosto dela.
      Os circuitos de Elph fumegavam de impacincia.
      - No, protozorio! Deixe a garota em paz. Ela j fez o que tinha de fazer!  o velho que voc tem de pegar!
      Em vo. Belch estava ensandecido pelo desejo de vingana. A situao tomava rumos perigosamente imprevistos.
      Lowrie no tinha a menor conscincia da confuso em andamento no plano espiritual. At onde podia perceber, tudo corria s mil maravilhas. Meg conseguira finalmente 
coloc-lo sobre aquele palco. Talvez de um modo um tanto espalhafatoso, mas de qualquer forma estava l. E agora cabia a si prprio riscar o primeiro item da sua 
lista de desejos, isto , dar uma bicota na Sissy.
      Cicely Ward estava boquiaberta. Como estaria qualquer mulher ao ver um ex-namoradinho surgir do nada, depois de quarenta anos, e fazer picadinho de um monte 
de seguranas parrudos. Apesar disso, ela no fazia o menor esforo para se desvencilhar dos braos de Lowrie. Braos que comeavam a doer por causa do esforo.
      - E ento, Lowrie - disse Cicely, com resqucios da adolescncia na voz. - Por que veio at aqui?
      S ento Lowrie se deu conta de que talvez estivesse no ar.
      - Um amor do passado - disse ele, simplesmente, e beijou-a nos lbios.
      A platia ficou enlouquecida, especialmente quando Cicely Ward pousou a mo no ombro do distinto cavalheiro e retribuiu o beijo. Fantstico, inacreditvel.
      Um etreo raio de luz branca explodiu no ponto de contato entre os dois pares de lbios, banhando os poros de todos os homens, mulheres e espritos no estdio. 
Naturalmente, ningum se deu conta. Mas, por um breve instante, todos tiveram a sensao de que o mundo era um lugar melhor.
      Elph, no entanto, via tudo. E sabia exatamente o que significava o tal raio. Problema  vista. Um problemo.
      Belch pressentia a mesma coisa. O arrepio nos plos do pescoo s podia ser um sinal.
      - Que diabos foi isso? - perguntou ele, virando-se para trs.
      Elph mal teve tempo de responder, antes que ambos fossem chupados de volta para o mundo das trevas.
      - O bem - disse ele. - Pura e simplesmente o bem. Meg pde sentir o azul crescendo em sua aura.

???
      
      Cicely acompanhou Lowrie at o porto, para proteg-lo da rispidez dos seguranas.
      - Mal posso acreditar nos meus olhos - disse ela, ajeitando uma mecha de cabelos atrs da orelha. - Lowrie McCall, bem aqui, na minha frente.
      - Com algumas dcadas de atraso - suspirou Lowrie. Tomando as mos dele nas suas, a apresentadora disse:
      - Pode ser. Mas nunca  tarde demais. Meg achou que fosse vomitar.
      - Ah, corta essa, McCall! Chega dessa conversa fiada! D mais um beijo nela e pronto! A gente ainda tem um monte de coisas pra fazer!
      - Calada! No v que estou ocupado? Cicely ficou confusa.
      - Desculpe, o que voc disse?
      - Nada... Eu estava... Eu estava falando com os meus fantasmas.  o que acontece quando a gente vive tanto tempo sozinho.
      - Ento fique. Pelo menos um pouquinho mais. Temos tanto a conversar...
      Por um instante Lowrie ficou indeciso. A proposta era tentadora.
      - Bem,  que... Infelizmente no vai dar. Ainda tenho umas coisas a fazer. Coisas importantes.
      Cicely enxugou uma gotinha de lgrima dos olhos.
      - Compreendo. Voc vai voltar?
      Lowrie hesitou. Se dissesse sim, tudo ficaria mais fcil.
      - No, Sissy. Acho que no.
      - Bem, foi timo ver voc de novo. Ainda que por poucos minutos. Caso mude de idia...
      Ela colocou um carto de visitas na mo dele. Lowrie abraou-a com emoo, sentindo mais uma vez o perfume do qual se lembrava to bem.
      - Adeus, Sissy.
      Cicely molhava o rosto de Lowrie com suas lgrimas, que agora corriam soltas.
      - Adeus, meu velho amigo. E obrigada pelo ibope. Lowrie atravessou o porto por onde havia entrado. Desmond, o porteiro, confeccionava uma coroa de margaridas 
sentado  grama.
      De repente, Lowrie parou. Ainda tinha uma pergunta a fazer.
      - Ei, Sissy! - gritou.
      Cicely virou o rosto, protegendo os olhos do sol.
      - Aquela noite... - disse Lowrie, encabulado. - Depois do cinema, quando eu no beijei voc... Por acaso voc se pergunta...
      Cicely abriu um sorriso coberto de lgrimas.
      - Todo santo dia, Lowrie McCall. Todo santo dia.




CAPTULO 7

TUDO PELO FUTEBOL

ELES TOMARAM o ltimo nibus com direo ao norte da cidade. Felizmente no havia ningum no andar de cima.
      - Voc no viu nada? - perguntou Meg, mal podendo acreditar.
      Lowrie coou o queixo.
      - Nada.
      - Belch estava l, s que ele era metade cachorro. E alm dele havia uma criaturinha que flutuava, com olhos que pareciam lentes de zoom... Depois teve uma 
grande exploso de luz branca, que carregou os dois dali, mas que no me machucou nem um pouco.
      - No. No vi nada disso.
      - Estava ocupado demais com a sua namoradinha, no ? - disse Meg, contrariada.
      Lowrie recostou-se no assento e sorriu.
      - Pode dizer o que quiser, fantasma. Hoje nada vai estragar o meu humor.
      - Uma vergonha. Dois velhinhos se agarrando por a, aos beijos e abraos. Por acaso vocs no tm desconfimetro?
      - E voc por acaso no estaria com cime?
      - Cime? De voc? S porque beijou uma vov? Lowrie endireitou o tronco.
      - No, claro que no. Mas... sei l... porque estou vivo? Porque estou feliz?
      Olhando pela janela do nibus, Meg via as ruas da cidade passarem uma aps a outra.
      - No se faz uma pergunta dessas a uma menina de quatorze anos. No fico pensando nessas coisas. S penso em msica e comida.
      - Sei - disse Lowrie, sem acreditar.
      - Sabe droga nenhuma - devolveu Meg. - Acho que preferia quando voc era um p-na-cova rabugento.
      Lowrie no estava disposto a continuar com a troca de provocaes.
      - Meg, posso perguntar uma coisa?
      - Voc vai perguntar de qualquer jeito.
      - O que foi que ele fez a voc?
      - Ele quem?
      - Voc sabe quem. O Franco. O que foi que ele fez, pra que voc fizesse o que fez?
      - O que  isso, que frase estranha  essa?
      - Estou falando srio.
      - No  da sua conta. E eu tambm estou falando srio. Lowrie assentiu com a cabea.
      - Muito bem, ento. Achei que estivssemos nos tornando amigos.
      Meg balanou o dedo no ar.
      - Sei muito bem o que voc est fazendo.  aquela parada de culpa. Minha me fazia a mesma coisa. S que no vai funcionar. No quero falar sobre isso.
      - Est bem, parceira. Quem sabe outra hora? "Duvido muito", dizia o rosto de Meg. Porm, em vez de discutir, ela procurou mudar de assunto:
      - E o nmero dois? - perguntou.
      - O qu? Voc quer fazer...
      - Estou falando do nmero dois na sua lista.
      - Ah, bom. Por acaso j ouviu falar do Croke Park?
      - Aquele estdio velho? Onde as pessoas jogam lacrosse e futebol?
      - Esse mesmo. O maior e mais famoso estdio do pas. Um lugar cheio de histria e...
      - OK, j entendi. E da? O que  que a gente vai fazer l?
      - Quero chutar uma bola no gol de Croke Park. Meg no ficou nem um pouco surpresa.
      - S isso? - perguntou ela, com sarcasmo. - Tem certeza de que no quer tentar um pouquinho de salto com vara tambm?
      - Tenho certeza, sim, obrigado.
      - Aposto que existe alguma histria por trs disso.
      - Sim.
      - Aposto que  longa e chata como a outra.
      - , acho que sim - admitiu Lowrie, com uma careta de impacincia.
      - Ento manda bala - suspirou Meg. - Mas v se no exagera.
      - J que voc insiste. - Lowrie tirou o indefectvel charuto de um bolso e colocou-o no canto da boca. Mas no acendeu. Transporte pblico...
      - Bem, antes da guerra...
      - Que guerra?
      - A Grande Guerra.
      - A primeira ou a segunda?
      - Segunda, engraadinha. Mas isso no tem importncia.
      - Um ou dois franceses talvez pensem diferente.
      - No tem importncia pra minha histria,  isso que estou querendo dizer.
      - Ih, l vem o ranzinza...
      - E por que ser, hein? Bem, como eu estava dizendo, antes da guerra meu pai resolveu me mandar para um internato.
      - E isso tem alguma coisa a ver com a guerra?
      - No. No exatamente.
      - Eu sabia! Achei que ia ouvir uma histria legal sobre a guerra, mas era bom demais pra ser verdade.
      - Foi apenas uma referncia. Ah, deixa pra l.
      - Foi mal, Lowrie. Continua.
      - No.
      - Ah, pra de fazer beicinho e conta logo essa histria.
      - Ser que vamos ter de passar por isso toda santa vez?
      - , vamos. No vou pagar o mico de algum me ver sendo simptica com uma mmia como voc.
      - Compreendo. Pois bem, hei de resistir. Mas s porque sei que voc est morrendo de vontade de escutar minha histria. Tambm sei que essa sua mania de me 
interromper  coisa de aborrescente. Uma hora passa.
      Lowrie comeou a contar sua histria. Enquanto ele falava, imagens emergiam de seus poros e rodopiavam ao redor da cabea, como num sonho mgico.
      - Eu era um garoto franzino, sem irmo ou irm. Ento papai achou que, indo para um internato, eu ficaria mais forte, mais corajoso. Essa era a mentalidade 
naquela poca, muito antes do doutor Spock.
      - Mas o que Jornada nas estrelas tem a ver com isso?
      - No  desse doutor Spock que estou falando, menina! Ser que voc nunca leu um livro na vida?
      - Li, sim! - retrucou Meg, com visvel exagero.
      Ela achou que no valia a pena confessar que jamais conseguira terminar um livro sem figuras.
      - Pois bem, quando tinha onze anos, fui embora para Westgate College, um internato s pra meninos. Um lugar adorvel, cheio de valentes sdicos e padres com 
chicote na mo.
      Meg sabia do que ele estava falando. Sua prpria histria de vida no era l muito diferente.
      - Era mingau no caf da manh - continuou Lowrie - e surra no jantar. Tnhamos apenas quatro matrias: latim, irlands, aritmtica e futebol. Nenhuma delas 
era o meu forte. Alm disso, eu no era rico, nem tinha nascido em Dublin. Estava longe de ser um garoto popular.
      - Essa histria no  do Charles Dickens, ? - disse Meg, tentando mostrar algum conhecimento literrio.
      Na verdade, ela tinha assistido a Oliver umas vinte vezes, porque era o filme predileto de sua me.
      - No entanto, depois de seis meses de inferno, tive uma oportunidade de me encaixar na turma.
      - Deixa eu adivinhar. Voc fez tudo errado, no fez? Lowrie deu um longo trago no charuto apagado. A expresso no rosto dele era a resposta de que Meg precisava.
      - E ento, o que foi que aconteceu? - perguntou ela, momentaneamente deixando de lado a ironia.
      - O time infantil de Westgate tinha sido eliminado do interescolar nas semifinais. Nunca chegou a jogar em Croke Park, o maior sonho de todos os garotos naquela 
poca. A, certa noite, eu e mais alguns colegas fugimos do dormitrio e fomos at o estdio, que ficava do outro lado da cidade. Os meninos do time queriam pular 
o muro e jogar uma pelada, s pra dizer que tinham pisado naquele gramado. Qualquer um podia ir junto, at mesmo os caipiras do interior como eu.
      - Ento, qual foi a burrada dessa vez?
      - Eu subi no muro sem problemas, mas no consegui pular para o outro lado.
      - Voc amarelou. Lowrie estava arrasado.
      - , foi isso. A nica vez que eles me deram uma chance... A nica vez que fui convidado pra fazer alguma coisa com eles. Sei l, s vezes nem eu gosto de 
mim mesmo.
      - Depois disso, todo mundo parou de falar com voc, no foi?
      - Se fosse s isso, teria sido timo.
      - Ento foi pior?
      - Muito pior.
      - Anda, conta a. Lowrie respirou fundo.
      - Fui pego tentando descer do muro.
      - Caraca.
      - O guarda-noturno chamou os padres, e eles apareceram de caminhonete, cercando os alunos como se fossem uma boiada.
      - Aposto que os seus colegas no ficaram nem um pouco satisfeitos...
      - No, no ficaram. Expulso coletiva. Todos foram expulsos.
      - Menos voc.
      - Menos eu. E, pra piorar as coisas, fui apontado como exemplo, por ter tomado a deciso mais sensata. Imagine s, ser chamado de sensato na frente de quatrocentos 
garotos reunidos num ptio!
      - Fico arrepiada s de pensar.
      - Ningum falou comigo pelo resto do ano.
      - E agora voc quer voltar.
      - Preciso voltar. Aquele foi um momento da minha vida em que eu poderia ter me tornado outra pessoa. Suponho que voc tenha tido um momento semelhante. Sabe 
aquele segundo exato em que tudo d errado?
      Meg fez que sim com a cabea.
      - Entendi. Voc precisa voltar. Lowrie exalou um longo suspiro.
      - Obrigado.
      - Mas voc no pode simplesmente voltar durante o dia, numa excurso?
      - No. O mais importante de tudo  entrar escondido.
      - Era isso que eu temia. Essa histria de invadir um estdio vai detonar a minha aura.
      - Que nada. Com os seus poderes, a gente vai tirar isso de letra.  s um muro e um guarda-noturno.
      - Pra sua informao - disse Meg, voltando  ironia -, os sistemas de segurana mudaram muito desde a Primeira Guerra.
      - Segunda.
      - Tanto faz.  s entrar, dar uma voltinha e sair, n? Nada de muito complicado.
      Lowrie passou o charuto para o outro canto da boca.
      - Nada de complicado. Entrar e sair, juro por Deus. - E, revirando os olhos, emendou: - Mas, afinal, por que eles mudaram os sistemas de segurana? Quem  
que vai querer roubar grama?

???
      
      Belch e Elph esperavam na antecmara nmero nove. O pessoal da alfndega no tinha a menor idia de quem eles eram e no queria deix-los passar sem a autorizao 
dos poderes inferiores. Belzebu, que estava no baile de gala em homenagem ao Maior Ditador do Mundo, foi chamado s pressas e no parecia nem um pouco satisfeito.
      Dois subalternos aguardavam por ele no depsito de almas. Eles tinham o rosto engelhado, negro como o dos condutores de locomotivas a vapor. A exemplo dos 
colegas, tinham sido extremamente perigosos na vida terrena e agora eram mantidos em segurana naquele trabalho, arrancando  fora as almas relutantes que se prendiam 
 parede do tnel. Eram chamados de limpa-trilhos.
      - O que foi? - berrou Belzebu, j na alfndega.
      - Pode me revistar - respondeu o lder dos limpa-trilhos, talvez um tantinho menos respeitoso do que devia
      Sem hesitar, Belzebu vaporizou-o com o tridente.
      - O que foi que houve? - perguntou ao segundo limpa-trilhos.
      - Duas novas chegadas, eminncia. Antecmera nove.
      -  antecmara, imbecil. Mas o que  que eu tenho a ver com isso?
      -  que eles fedem muito, majestade. Um nojo. No sei por causa de qu.
      - No sei por que! - corrigiu Belzebu.
      - O senhor est sentindo o cheiro daqui?
      - No, palerma! Ah, deixa pra l... Eles foram sedados?
      - No foi preciso, meritssimo. Os elementos esto mais pra l do que pra c. No enxergam nem ouvem nada.
      Belzebu precisou se conter para no corrigir mais aquela barbaridade gramatical. Sculos antes, ele havia trabalhado como professor particular de tila, o 
Huno.
      - E da? Mais um caso de neurose ps-tnel, s isso. Jogue os dois no liqidificador. Use os resduos como energia pra minha jacuzzi.
      O demnio alfandegrio ficou meio sem jeito, balanando de um lado para outro nas patas de trs artelhos.
      - Algum problema? - perguntou Belzebu.
      Na verdade, era mais uma ameaa do que uma pergunta. Um truque que os professores conhecem muito bem.
      - Bem,  que... - gaguejou o pobre limpa-trilhos, sabendo que suas prximas palavras poderiam ser as ltimas.
      - Bem o qu? - perguntou Belzebu, j perdendo a pacincia.
      Ele queria voltar ao baile antes que Mussolini fizesse seu famoso nmero de mgica.
      -  que esses dois so meio esquisitos.
      - Esquisitos como?
      - O menino-cachorro, ele s fica l, bufando. E o mido, esse nem parece gente. A cabea dele fica rodando, uma hora t no foco, outra hora no t. Mais parece 
uma televiso.
      To logo conseguiu decifrar aquela xaropada confusa do limpa-trilhos, Belzebu dirigiu-se apressadamente para a porta da antecmara nmero nove e olhou atravs 
da janelinha.
      Sentado num banco, Belch babava sem dizer nada, enquanto Elph flutuava acima dele, repetindo incansavelmente a mesma coisa como se estivesse preso num loop.
      - Cem por cento do bem, cem por cento do bem, cem por cento do bem - era s o que dizia o holograma.
      Belzebu passou a lngua sobre as presas. Seu plano estava indo por gua abaixo. Se Pedro ficasse sabendo daquilo, as conseqncias no seriam nada boas. O 
Nmero Dois do inferno tateou os bolsos  procura do celular. To logo o encontrou, discou para So Pedro, que atendeu ao terceiro sinal.
      - Ola, amigo. Que pasa?
      - O que foi, Zeba? Sou um homem ocupado. Belzebu procurou freneticamente algum para vaporizar, mas o limpa-trilhos, esperto, j havia dado no p.
      - Poxa, Pietro, um amigo no pode ligar nem pra dar um al?
      - Um amigo pode. Voc, no entanto, no  amigo de ningum, a no ser de si mesmo.
      Belzebu contorceu o rosto numa careta de dio, mas continuou a falar num tom jovial.
      - Isso  coisa que se diga, Pedro? Depois de tudo que fiz por voc?
      - V direto ao assunto, Zeba. Por que vocs a embaixo s falam assim, fazendo rodeios? Isso  coisa... isso  coisa de Hollywood! Ou melhor, coisa de gente 
insegura!
      Seu dia vai chegar, porteiro, pensou Belzebu. Seu dia ainda vai chegar. - Olha s, Pedroca, o negcio  o seguinte. Sabe aquela garota irlandesa?
      - O que  que tem?
      - Por acaso ela apareceu por a?
      - Por qu? No me diga que seu capanga, o Caador de Almas, voltou de mos vazias?
      - Caador de Almas? Do que voc est falando? Poxa, Pedro, assim voc me magoa.
      - Hummph - bufou Pedro, desconfiado.
      - E ento, voc viu a garota ou no viu?
      Seguiu-se um longo silncio. Pedro se debatia com a prpria conscincia. Santos no podiam mentir, nem mesmo para demnios.
      - No, no vi - disse ele por fim. - Nenhum sinal dela ainda.
      Belzebu sorriu aliviado.
      - Bem, tenho certeza de que cedo ou tarde ela vai selar o prprio destino. Sem a ajuda de nenhum de ns.
      - Claro que vai - retrucou Pedro, desligando o telefone. Belzebu chegou a danar, tamanha era a sua felicidade. Ele ainda estava no jogo. Sem mais delongas, 
procurou o interfone mais prximo.
      - Central? - perguntou ele, baixinho.
      - Central falando - respondeu a voz de uma atriz vencedora do Oscar.
      O inferno estava cheio de atores e atrizes vencedores do Oscar. Eles vendiam a prpria alma com a mesma facilidade dos programadores de computador.
      - Aqui  o Nmero Dois.
      Belzebu detestava aquele codinome. Por que diabos o Mestre insistia naquilo? Talvez fizesse de propsito, para que as pessoas rissem de seu pobre ajudante.
      - Pode falar, Nmero Dois.
      Belzebu teve a impresso de ter ouvido risinhos do outro lado da linha.
      - Diga a Myishi pra descer at as antecmaras.
      - Sim, senhor. Imediatamente.
      - Ah, e diga a ele pra trazer a caixa de ferramentas.

???
      
      O sistema de segurana havia mudado consideravelmente. Uma cerca de arame entrelaado cercava todo o permetro do estdio, menos a torre de vigilncia e os 
portes de seis metros de altura. Cmeras de segurana zumbiam e rodopiavam do alto de postes de concreto.
      - No falei? - disse Meg, com a petulncia tpica dos adolescentes.
      Lowrie achou que aquele seria um bom momento para acender o charuto.
      - Falou, e da? Pelo menos uma vez na vida voc deu uma dentro. E agora, o que  que vamos fazer?
      - A mesma coisa que a gente fez com aquele Desmond. Aplicar o truque na cabea dos guardas e... abra-te, Ssamo! A gente t dentro.
      Lowrie deu um longo trago no charuto. A brasa iluminou seu rosto como a chama de uma lamparina.
      - No, esse seu plano no serve.
      Meg franziu a testa, fazendo surgir duas rugas de contrariedade na sua testa sardenta de fantasma.
      - Como assim, no serve? S porque  simples demais. Ou voc quer dar um beijo nos guardas tambm?
      - Eu preciso invadir o estdio - explicou Lowrie. - Tem de ser arriscado. Essa  a idia.
      - Nem imagino o que vai acontecer comigo depois disso. Afinal, foi pra limpar a minha aura que me mandaram de volta pra Terra.
      - Logo, logo, voc vai saber. Agora vamos.
      Antes que Meg pudesse reclamar de alguma coisa, Lowrie seguiu em frente, o charuto abrindo caminho na escurido como um pirilampo embriagado. Ladeando a cerca, 
eles chegaram a uma rea mais escura, que se alargava at uma rua de casas com varandas.
      -  aqui - disse Lowrie, ofegante, exausto da caminhada.
      - Vai, fuma mais um charuto, fuma!
      O velho jogou o toco de charuto no cho e apagou-o com a sola do sapato novo.
      - Tem razo. Pra que apressar a m... o processo?
      - Ento foi por aqui que voc tentou entrar, cinqenta anos atrs.
      - Mais de cinqenta.
      Olhando de baixo, a cerca parecia enorme. O Monte Everest das cercas. Intransponvel. E, mesmo que uma pessoa conseguisse fazer a escalada, havia uma cmara 
de circuito fechado esperando l no alto para imortalizar as fuas dela.
      Lowrie teve um acesso de tosse, que comeou aos poucos e foi se agravando at sacudir seu corpo inteiro. Ele ouvia as batidas do corao retumbarem na cabea. 
S ento lembrou-se do quanto estava doente. Meg desceu at que os dois ficassem olho a olho.
      - Ei, parceiro, tem certeza do que vai fazer?
      A tosse foi cedendo at dar lugar a um chiado no peito.
      - Tenho - respondeu Lowrie. - Enquanto ainda posso.
      - Est bem, ento. Mas pelo menos deixe que eu retire aquela cmera. Afinal, no existia cmera de segurana antes da guerra, n?
      Lowrie cuspiu um pouco de catarro na grama.
      - , no existia.
      Meg flutuou at o topo da cerca. A cmera de metal zumbiu na direo dela como se fosse um rob curioso.
      Cmera, pensou firmemente enquanto virava a lente para a direita. V filmar outra parte da rua, s um instantinho.
      Visto do alto, Lowrie tinha um aspecto ainda mais lamentvel. Nem mesmo o terno novo conseguia disfarar os ombros cados e as mos trmulas. Os seis meses 
que lhe restavam de vida poderiam se transformar em semanas, ou dias, caso ele continuasse naquele ritmo.
      - Lowrie - disse Meg, docemente, ainda no alto da cerca -, voc devia estar num hospital.
      - No! - retrucou o velho com firmeza, a testa coberta por uma camada de suor frio. - O que posso fazer numa cama de hospital? Nada! E ento, vai me ajudar 
ou no?
      - No sei se devo.
      - Preocupada com sua aurazinha,  isso?
      - No. Por incrvel que parea, estou preocupada com voc. Os dois ficaram calados por um tempo, ambos fazendo beicinho. Ao que parecia, a capacidade de fazer 
beicinho era uma caracterstica que as pessoas conservavam mesmo depois de mortas. Meg, no entanto, levava uma vantagem sobre Lowrie: no sentia o vento frio que 
entrava pelas pernas das calas dele.
      - E ento? - disse Lowrie por fim, irritado por ter sido ele o primeiro a falar. - No vai fazer nada?
      - Vou - suspirou Meg. - D licena, que eu vou entrar. Entrar no corpo do velho era cada vez mais fcil para Meg
      - como se ela j soubesse em que parte do crebro se instalar. No precisava mais se envolver com as lembranas embaraosas do passado, nem com as necessidades 
fisiolgicas das quais queria distncia. Mas, de certo modo, era mais difcil tambm. Meg sentia sua energia baixar, uma espcie de cansao, porm restrito  cabea. 
(Os espritos que porventura estiverem lendo este livro vo entender direitinho.)
      Ela flexionou os dedos dos ps e das mos de Lowrie, duros como dobradias enferrujadas.
      - Isso no vai ser fcil.
      Agora que estava presa num corpo de carne e osso, Meg tinha a impresso de que a cerca era ainda mais alta do que antes. Os espaos vazios na trama de arame, 
no formato de losangos, eram minsculos. Os sapates de Lowrie jamais se encaixariam neles. Assim sendo, ela ficou descala, amarrou o cadaro de um sapato no do 
outro e pendurou o par ao pescoo. Imediatamente sentiu a lama do cho atravessar as meias e molhar seus ps.
      - A lama est fria! - gritou ela, rindo. - Agora, sim, eu me lembro do frio!
      - Anda logo com isso, garota! - berrou Lowrie, dentro da prpria cabea. - Antes que eu pegue uma pneumonia!
      - J vou, Zangado! Prepare-se pra ficar de cabelos em p! - Ela passou a mo sobre a careca de Lowrie. - Opa, cabelos no, cabelo.
      Brincadeiras  parte, a misso no seria nada fcil. Mesmo que estivesse usando o prprio corpo de adolescente, Meg achava que no conseguiria transpor aquela 
cerca. Ainda assim, prendeu os dedos nos fios de arame e ps-se a escalar.
      No meio do caminho, comeou a sentir dores, pontadas que comeavam nos joelhos e castigavam as pernas como golpes de um chicote invisvel. Para piorar, o vento 
agora soprava mais forte, balanando a cerca e ameaando derrubar a dubl de alpinista.
      - Pelo menos no est chov...
      - No diga isso! - avisou Lowrie.
      Meg obedeceu. No era de acreditar em sorte, boa ou m, mas, diante do que estava vivendo, j no duvidava de mais nada. Por fim, depois de uma eternidade, 
chegou ao topo. Respirava com dificuldade e pingava suor.
      - Voc sua como um porco, Lowrie! - resmungou. - Essa camisa pode ir pro lixo!
      Alm disso, o corao do velho palpitava a mil por hora. A presena do esprito jovem no bastava mais para acalm-lo. Meg estava convencida de que, se Lowrie 
tivesse tentado fazer a escalada por conta prpria, ele agora seria um cadver esparramado na lama.
      O mais sensato, portanto, seria descansar um pouquinho antes de prosseguir. O vento fustigava-os de todos os lados. Era de se imaginar que as arquibancadas 
enormes oferecessem algum abrigo, mas no. A ventania atravessava as frestas, ganhando fora feito gua de bica.
      Meg passou para o outro lado da cerca e comeou a descer. As pernas de Lowrie j no prestavam para quase nada, e as mos sustentavam sozinhas todo o peso 
do corpo. As articulaes rangiam e ameaavam no agentar. Depois de um esforo interminvel, Meg esborrachou-se numa poa d'gua, ensopando o traseiro das calas 
de Lowrie. Estava cansada demais para se importar.
      - No sei como vamos sair daqui - disse ela. - S sei que no vamos subir essa cerca de novo. Outra escalada dessas vai acabar com ns dois.
      Meg saiu da cabea de Lowrie, devolvendo o controle do corpo ao proprietrio de direito. Lowrie imediatamente passou a sentir no peito as marteladas do corao.
      - Isso  loucura - disse ele, ofegante. - Uma estupidez.
      Pela primeira vez, Meg sentiu-se aliviada por ser um esprito. Pelo menos j tinha passado por toda aquela histria de morte.
      - Foi exatamente isso que eu disse.
      Lowrie permaneceu recostado na cerca por um bom tempo e, gradualmente, voltou a respirar como antes.
      - Pronto. J estou melhor. Podemos ir.
      - Tem certeza?
      O velho ficou de p.
      - Agora no faz mais sentido voltar, concorda? J passamos pelo pior.
      - Passamos? Voc no fez nada, s ficou olhando! Fui eu quem teve de subir e descer essa cerca com sua carcaa velha nas costas.
      - Foi pra isso que mandaram voc de volta, no foi?
      - , acho que sim.
      - timo. Ento, que tal a gente parar de discutir e ir em frente, antes que eu tenha um ataque cardaco de verdade?

CAPTULO 8

O GOL DE EMPATE

MESMO QUELA hora da noite, o estdio de Croke Park encontrava-se muito bem iluminado. Lmpadas alaranjadas zumbiam no alto, produzindo sombras sinistras nas arquibancadas 
monumentais. O lugar estava imundo; garrafas e latinhas acumulavam-se nos cantos, varridas pelo vento. Evidentemente, o pessoal da limpeza ainda no havia feito 
seu trabalho depois do ltimo jogo.
      Lowrie arrastou-se at o centro do campo. Sob o efeito das luzes, o gramado parecia quase branco, o que lhe conferia um aspecto fantasmagrico. O velho ria 
de orelha a orelha. L estava ele, finalmente, depois de tantos anos. Rodopiando com os braos abertos, recebia emocionado os aplausos imaginrios dos colegas ausentes. 
E agora, paspalhos? Quem  que no tem coragem de fazer uma loucura? Quem  o fazendeiro covardo, afinal?
      - Sou eu! - berrou ele a plenos pulmes. - Lowrie McCall invadindo o estdio na calada da noite!
      Meg ria com ele. Via a felicidade emanar dos poros do velho como um espetculo de fogos de artifcio.
      - Vim aqui pra fazer um gol em Croke Park!
      -  mesmo? - perguntou algum.
      Os parceiros se viraram para ver quem era. Um guarda olhava para eles com cara de poucos amigos. Tinha um rdio pendurado ao cinto, como um revlver.
      - O que eu gostaria mesmo de saber - continuou ele, irnico -  como vocs dois pretendem fazer um gol sem uma bola?
      Lowrie engoliu a seco. Meg piscou os olhos. Duas perguntas difceis de responder: uma, a que o guarda acabara de fazer; outra, como ele podia ter dito "vocs 
dois"?

???
      
      Como se estivesse num duelo de faroeste, o guarda ajeitou os dedos sobre o coldre onde mantinha o walkie-talkie.
      - Me d uma boa razo pra que eu no... Lowrie interrompeu-o.
      - Por acaso no o conheo?
      Meg tambm estava desconfiada. Percebia algo de familiar naquele guarda.
      - Improvvel - respondeu ele. - E no adianta mudar de assunto. Me d uma boa...
      - Por acaso voc no tem um irmo...
      - O Desmond?
      - ...que trabalha na mesma rea que voc?
      - Desmond  consultor de segurana, como eu. Responsvel por proteger todos os figures l na RTE.
      - Formado em poesia medieval?
      - Pra mim, poesia medieval  um monte de palavro que rima. Voc conhece o Desmond?
      - Mais ou menos - respondeu Lowrie. - Ele abriu o porto pra mim hoje.
      - Como esse mundo  pequeno... - disse o guarda, estendendo a mo. - Meu nome  Murt. Amigo de Dessie  meu amigo.
      Lowrie apertou a mo dele com certa hesitao; desconfiava que aquilo no passasse de um truque para algem-lo. Terminadas as apresentaes, Murt voltou ao 
assunto em pauta.
      - Como eu estava dizendo, me d uma boa... - Dessa vez foi o prprio guarda que se interrompeu. Pela expresso em seu rosto, tinha feito uma grande descoberta. 
- Ei, espera a. Voc no  o... Lowrie McCall?  ele, sim, no ?
      - Ele quem?
      - O cara da televiso! Que beijou a Cicely Ward! Seu garanho...
      - Sinto muito. Voc deve ter se enganado.
      - Ah, deixa disso, claro que voc  ele. Eu reconheceria esse rosto de maracuj de gaveta em qualquer lugar. Afinal, voc apareceu em todos os noticirios 
de hoje, gritando "ol" e pulando de um lado pro outro como se fosse o Zorro!
      Lowrie no pde evitar um risinho de vaidade.
      - , sou eu mesmo.
      - E ento, o que deu em voc? Por acaso  um maluco que fugiu do hospcio e anda por a beijando celebridades? - Murt arregalou os olhos de repente. - Opa, 
no est atrs de mais uma vtima agora, est?
      - No  nada disso!
      - Espero que no. Uma coisa  pagar esses micos sozinho; outra coisa  levar a garota junto.
      - Que garota? - disse Lowrie, fazendo-se de inocente.
      - Deixa de gracinhas, homem.
      - Ele pode me ver - sussurrou Meg, aliviada por ter resolvido andar em vez de flutuar. Era aquela velha histria: h males que vm pra bem.
      - Claro que posso! Mas  estranho... No vi voc no monitor l na guarita.
      - O gramado tambm  vigiado por cmeras?
      - Claro que ! Quem seria burro o bastante pra vigiar a cerca e no vigiar o gramado? Mas voc no estava l, no monitor.
      - Bem,  que eu sou um...
      -  que ela sempre fica pra trs - interrompeu Lowrie.
      - E olha que no deve ser muito difcil acompanhar uma tartaruga velha que nem eu!
      Murt deu um passinho para trs.
      - Estou achando que vocs dois fugiram do hospcio. Vou ter de avisar o chefe.
      - No, Murt! - disse Lowrie, tentando manter a calma.
      - Deixa eu lhe dizer o que vim fazer aqui. A verdade. Toda a verdade, inclusive sobre a Cicely Ward. Os jornais pagariam uma fortuna por uma histria dessas.
      Murt lambia as pontas do bigode enquanto pensava no assunto.
      - Fala srio? - disse ele, por fim. - Um daqueles furos de reportagem?
      - Exatamente.
      - Ento vamos fazer o seguinte. Primeiro, a histria; depois resolvo o que vou fazer com vocs.
      - Isso no  justo! - protestou Meg. - Voc est com a faca e com o queijo na mo!
      - Quem disse que a vida  justa, garota? - disse Murt, com um risinho de sarcasmo no canto dos lbios.
      - Sei muito bem que no .
      - Pois bem. Negcio fechado - disse Lowrie apressadamente, antes que Meg pisasse nos calos de um possvel aliado.
      - timo. Ento pode ir abrindo o bico. Quero a verdade, nada mais que a verdade. Na minha profisso, a gente aprende a identificar uma mentira a cem quilmetros 
de distncia.
      Assim, como prometido, Lowrie contou ao vigia noturno exatamente o que estava acontecendo. A verdade. Quer dizer, uma interpretao livre da verdade. V l, 
um monte de mentiras cabeludas e deslavadas. Mentiras, acreditava Lowrie, que livrariam os dois de serem levados na traseira de uma ambulncia para o hospcio mais 
prximo.
      - Tudo comeou... hmmm... na sexta-feira passada.  mesmo? pensou Meg. Isso vai ser interessante.
      -  que... hmmm... o av de Meg estava no seu leito de morte e...
      - Tadinho do vov - suspirou Meg.
      - Bem, l estvamos ns, esperando que o homem partisse desta para a melhor... - Quando precisamos contar uma boa mentira, o melhor  incluir o mximo possvel 
de verdade. Lowrie deu uma olhadela para o guarda, tentando perceber se seu detector de mentiras cabeludas e deslavadas captava alguma coisa. Felizmente, Murt parecia 
interessadssimo na histria.
      - O velhinho - continuou Lowrie - era um sujeito muito boa-praa, mas um tanto intil. Tinha visto a prpria vida passar pela janela, sem fazer nada. Achava 
que no era um bom exemplo para a netinha. Ento, estrebuchado ali, naquela cama, me fez prometer uma coisa.
      - Prometer o qu? - perguntou Meg, mal podendo conter a prpria curiosidade. - Ah, foi mesmo.  que o nosso Lowrie aqui tinha sido...
      Lowrie ficou aflito. As mentiras de Meg certamente seriam muito mais cabeludas do que as dele.
      - ...soldado no regimento dele durante a guerra. Murt arqueou as sobrancelhas e disse:
      - Ah, ento  por isso que esse velhote conseguiu pular aquela cerca! - As sobrancelhas voltaram ao seu lugar natural.
      - E a tal promessa, o que foi?
      Lowrie coou o queixo perfeitamente barbeado.
      - Ah, sim, a promessa. Bem, na qualidade de melhor amigo dele...
      - E comandante de regimento - acrescentou Meg. quela altura, ela j estava achando tudo muito engraado.
      - Sim - disse Lowrie entre dentes -, na qualidade de melhor amigo e comandante de regimento do av de Meg, tive de prometer que faria todas as coisas que ele 
tinha se arrependido de no fazer.
      - E uma dessas coisas era beijar a Cicely Ward - concluiu Murt.
      - Isso mesmo.
      - E agora voc pretende fazer um gol em Croke Park.
      - Se possvel.
      Mais uma vez, Murt lambeu as pontas do bigode. Essa era difcil. Por um lado, aqueles dois haviam infringido a lei ao invadir o estdio, e a obrigao dele 
era, sem dvida, avisar a polcia. Mas pelo outro...
      - Ento por que no trouxe a bola? Lowrie deu um risinho constrangido.
      - Porque... eu esqueci.
      - Que espcie de comandante  voc? - disse Murt, em tom de brincadeira. - Caramba, espero no me arrepender do que vou fazer. Vocs dois, esperem aqui. - 
O guarda deu meia-volta e correu na direo dos vestirios, fazendo sacolejar o radinho e a lanterna pendurados ao cinto.
      Meg aproveitou a oportunidade para soltar a gargalhada que vinha segurando desde o incio.
      - Nem acredito que ele caiu nessa balela!
      - E voc quase estragou tudo. Comandante de regimento, hein?
      - S quis melhorar um pouco a sua histria.
      - Muito obrigado.
      - De nada.
      O gramado se estendia diante deles. Carregado pelo vento, um saquinho de batatas fritas rodopiava rente ao cho, feito um solitrio patinador no gelo.
      - Esse lugar  meio fantasmagrico - sussurrou Meg -, no acha?
      - Sei l. Quem entende de fantasma aqui  voc.
      - E como ser que ele conseguiu me ver? O que ser que ele tem de especial?
      Lowrie deu de ombros.
      - Tambm no sei. Talvez voc o tenha prejudicado tambm. Quando estava viva.
      - Nunca vi esse sujeito, nem mais gordo nem mais magro.
      - Voc no costumava passar trotes, ou algo assim?
      - Pra Dublin, no. Ningum aceitava as minhas chamadas a cobrar.
      - Ento vamos deixar isso pra depois. Agora entre aqui e faa a sua parte antes que ele volte.
      - Achei que voc quisesse fazer isso sozinho.
      - Eu adoraria fazer sozinho, mas virei um deficiente depois que dois ladres invadiram a minha casa e o cachorrinho de estimao deles arrancou um pedao da 
minha perna!
      - Ah, tava demorando. J tinha dez minutos que voc no falava nessa histria.
      Murt correu de volta, sacudindo a pana ao longo do caminho.
      - Aqui est - disse ele, ofegante, entregando a Lowrie uma bola de futebol. A pessoa que ele achava ser Lowrie recebeu a bola e rodopiou-a na ponta do dedo 
como se fosse um craque do basquete. Em seus dias de carne e osso, Meg adorava jogar nas quadras da cidade. E no era das piores.
      - Conselho de amigo, Murt - disse ela. - Voc precisa entrar em forma. Com esse pneu sobressalente na barriga, vai pro tnel muito mais cedo do que imagina.
      Apontando o polegar para o tnel dos vestirios, Murt disse:
      - Acabei de vir de l. Mas cad a garota?
      Lowrie, na condio de espectador em sua prpria cabea, ficou atnito com a pergunta. Meg, porm, tinha anos de experincia em inventar mentiras de bate-pronto.
      - Ela recebeu uma chamada no celular - explicou, imitando o jeito sisudo de Lowrie. - Est gravando um disco e foi chamada s pressas pra dar uns retoques 
de ltima hora.
      - Ah, sei - disse Murt, desconfiado. - Quer dizer ento que ela escalou aquela cerca outra vez.
      - . Uma atleta e tanto, aquela menina. No   toa que foi convocada pra seleo irlandesa de atletismo.
      - Entendi.
      Ao que parecia, o detector de invenes de Murt no era l dos melhores.
      -  verdade. Meg ganhou duas medalhas nos jogos olmpicos do ano passado.
      - Ano passado? - disse Murt, tentando fazer mentalmente uma diviso por quatro.
      - Uma naquela prova demorada, e outra naquela dos saltos.
      - Na maratona e na corrida de obstculos, voc quer dizer.
      - Isso mesmo. Uma garota extraordinria. Estou at pensando em adot-la.
      - Achei que fosse o av dela que tivesse morrido...
      - , foi... Mas ele... ele virou o pai dela quando os pais de verdade morreram num... num safri na frica. Atacados de repente por um bando de babunos. Um 
horror.
      Assistindo a tudo na sua salinha de cinema particular, a conscincia de Lowrie no sabia se ria ou se chorava.
      Murt massageou as tmporas; sentia que uma terrvel dor de cabea estava por vir.
      - Pois bem, ento. Chega dessa menina-prodgio. Voc vai chutar essa bola ou no vai?
      - Claro que vou. Foi pra isso que eu vim, no foi? Caminhando pelo gramado sagrado de Croke Park, Meg percebia as lembranas residuais que emanavam das arquibancadas, 
torcidas berrando o nome de times que nem existiam mais. Ao redor dela, os vultos de jogadores do passado driblavam uns aos outros, puxando camisas ou dando cotoveladas 
quando o juiz no estava olhando. A animao era contagiante. Meg chegava a acreditar que estava numa daquelas finais: imaginava que sua misso era cobrar, no decisivo 
segundo de jogo, o pnalti que daria a vitria a seu time. Sentia o corao de Lowrie retumbar de alegria dentro do peito. Finalmente ele realizaria seu sonho de 
cinqenta anos.
      Meg ps a bola no gramado e deu oito passos para trs. Nas arquibancadas, a multido de fantasmas emudeceu. Os outros jogadores se dissiparam no ar, vaporizados 
pela intensidade do momento. Lowrie rezou baixinho. Achava que Meg tinha boas chances de marcar aquele gol. Fora um timo jogador na juventude e talvez pudesse usar 
suas lembranas para ajud-la de alguma forma. Firmando o pensamento, tentou transmiti-las  parceira. Todos os gols que havia marcado na vida. Todas as partidas 
que havia jogado naqueles campos cobertos de lama. Estava tudo l, arquivado num empoeirado fluxo de eltrons nos fundilhos da cabea.
      - Opa! - exclamou Meg, recebendo a mensagem.
      Imediatamente mudou de postura: girou o tronco e colocou todo o peso do corpo sobre a perna de trs, Nenhum obstculo  vista; apenas um ventinho leve, mas 
que soprava na direo do gol. Pela primeira vez, Meg e Lowrie estavam verdadeiramente cooperando. Esprito e corpo trabalhando em conjunto. Meg lambeu o dedo do 
velho e colocou-o contra o vento. Segundos depois, deu-se conta do gosto de fumo que se instalara em sua lngua, ou melhor, na lngua que momentaneamente era sua.
      - Ecaaa!!! - disse ela, cuspindo no cho. Naturalmente, como se tratava dos pulmes de um fumante inveterado, o que saiu foi muito mais do que cuspe. - Que 
nojo! Poxa, Lowrie, olha s pra isso!
      - Pois tome isso como lio! - berrou o velho, de seu esconderijo.
      - Caramba, eu no sabia que cigarro fazia tanto mal pra gente!
      Aquela conversa, embora absolutamente natural para a dupla Meg-Lowrie, havia deixado o pobre Murt aturdido.
      - Voc no bate muito bem das bolas, no  mesmo?  daqueles malucos que ficam falando sozinhos na rua, no ? S pode ser isso. E eu aqui, ajudando esse babo. 
Quem devia ir pro hospcio era eu.
      O guarda levou a mo ao rdio.
      - No, Murt, espera! - berrou Meg, desesperada. -  que...  que eu fiquei assim depois da guerra, sabe? De repente as lembranas aparecem na minha cabea, 
e parece que estou l outra vez, s isso.
      Para comover o guarda, Meg tapou o rosto com a mo e comeou a chorar lgrimas de crocodilo. Espiava entre os dedos para ver o efeito produzido.
      - Est bem, est bem... - disse Murt. - Mas vou te dizer uma coisa: depois de tanta amolao,  melhor que o Sunday World me pague uma fortuna por essa histria 
toda! Agora anda, acaba logo com isso.
      Meg respirou fundo. Correu na direo da bola e chutou com vigor, usando a lateral do p, como Lowrie havia feito no passado. Mas a bola simplesmente quicou 
umas duas vezes e rolou no mais que alguns metros.
      Murt quase deslocou as mandbulas de tanto rir.
      - Pra, pra, pra! - disse ele s gargalhadas. - Assim vou acabar mijando nas calas!
      - Essa bola de couro  muito dura - resmungou Meg, esfregando os joanetes do velho. - Eu s tinha chutado daquelas de plstico, que os postos de gasolina do 
de brinde.
      Murt bateu palmas de puro deleite.
      - Voc no foi soldado coisa nenhuma, meu chapa! Deve ter sido bailarina, isso sim!
      - Muito engraadinho, Murt.
      - Tem um time de garotas que treina aqui todos os dias. Se quiser, posso arranjar uma vaga pra voc!
      Lowrie bufou por dentro.
      - Ele tem razo. Voc chuta como uma...
      - Como uma o qu?
      - Voc sabe. Como uma...
      - Como uma garota,  isso?
      - Bem...
      - Acontece que eu sou uma garota - berrou Meg. - Voc esperava o qu?
      Naturalmente, sendo o boa-praa que era, o pobre guarda se recomps e disse:
      - No, voc no  uma garota. Eu s estava brincando. Vai, tenta outra vez.
      No entanto, Meg no ia simplesmente tentar outra vez. Sentia-se no direito de uns bons dez minutos de reclamao e desaforos.
      - Velho enjoado... Voc e essa sua lista ridcula de desejos, essa lengalenga de "ah, por favor, me ajuda a consertar a minha vida". Estou fazendo o melhor 
que posso, ouviu bem? Quase morri por sua causa, ou melhor... deixa pra l. E o que recebo em troca? Insultos, s isso. Minha vontade  voltar para aquele tnel 
agora mesmo!
      - Ah, no volta no - disse Murt, jogando panos quentes. - Tenta mais uma vez.
      - E por que eu deveria tentar? - disse Meg, esquecendo-se da encenao que vinha fazendo. - Por que deveria fazer mais esse favor pra esse rabugento ingrato?
      Murt empertigou o tronco e disse:
      - Porque esse rabugento ingrato era o seu melhor amigo. Faa isso por ele, e pela garota tambm. Acho que ela precisa de uma boa figura paterna.
      Por incrvel que parea, embora no tivesse a menor idia do que estava se passando, Murt acertara na mosca.
      Sem dizer uma palavra, Meg buscou a bola e recolocou-a na marca do pnalti.
      De algum lugar na escurido em que se encontrava, Lowrie sussurrou:
      - Obrigado.
      - Ainda  cedo pra agradecer - retrucou Meg, dando oito passos de gigante para trs. - Essa bola parece que  de pedra.
      Murt aproximou-se correndo.
      - Espera um pouco - berrou ele. - Deixa eu dar uma dica.
      - Ah, timo - disse Meg. Mas o que ela queria mesmo dizer era: "D o fora, mala!"
      - Sempre que eu precisava dar um chute de longe - continuou Murt, sem perceber as ondas de hostilidade que atravessavam a testa dele -, eu imaginava que a 
bola era a cabea de algum. De uma pessoa de que eu no gostava muito.
      Meg ficou pasma. O conselho do guarda at que no era mau. Transformar a bola numa cabea. E ela sabia muito bem que cabea seria essa.
      Ela se preparou para chutar. A bola j no era mais uma inocente esfera de couro; era a cabea de Franco, que lhe dizia: "Sou eu quem manda nessa casa agora, 
garota. Seus dias de princesinha mimada acabaram. Voc vai fazer o que eu disser, e quando eu disser".
      -  mesmo? - disse Meg a si mesma, correndo para chutar. "Pra incio de conversa, pode esquecer da sua vida de antes.
      No sou seu empregado. No vou ficar andando atrs de voc, recolhendo sua roupa suja. Tudo vai mudar a partir de hoje, sua peste. Tudo vai mudar. E sua mamezinha 
no vai estar aqui pra te salvar. Porque sua me j..."
      - Cala a boca! - berrou Meg, segundos antes de chutar a bola.
      Jamais havia chutado alguma coisa com tamanha fora na vida, nem depois dela. A cabea de Franco decolou como um avio a jato, atravessou as traves do gol 
e sacudiu a rede atrs delas. Em seguida, transformou-se novamente numa bola e deslizou at o cho. Murt ficou pasmo.
      - Retiro tudo que disse - comentou ele. - Seu lugar no  no time feminino coisa nenhuma. Que chute foi esse, meu chapa? Nunca vi nada parecido desde que... 
Bem, nunca vi nada parecido e ponto final. A bola quase furou a rede! Achei que fosse fazer um buraco na rede!
      Dentro da prpria cabea, Lowrie pulava de alegria.
      - Eu sabia que voc ia conseguir, eu sabia! Foi muito bom! Muito bom, no, sensacional! Me senti um garoto outra vez!
      Um sorriso se abriu lentamente no rosto de Meg, ou no rosto que ela estava usando naquele momento. Lembrando-se da expresso de surpresa nos olhos de Franco, 
ela disse:
      - , foi sensacional.

???
      
      Escoltado por Murt, Lowrie passou pela roleta de sada.
      - Voc no vai ter problemas por causa disso, vai?
      - No - respondeu o guarda. - Deixei voc dar um chute antes de expuls-lo, s isso. De qualquer modo, sou o dono da empresa de segurana.
      - timo - disse Meg. - Poxa, Murt, valeu. Isso era muito importante pro Lowrie. Quer dizer, pra mim. Muito importante mesmo.
      - No precisa agradecer.  sempre um prazer ajudar um ex-combatente.
      E antes que Meg pudesse fazer qualquer coisa, Murt apertou a mo de Lowrie e comeou a sacudi-la com toda fora. Uma parte do esprito de Meg foi chupada para 
dentro do corpo do guarda, e ela precisou se encolher apressadamente para voltar ao corpo do velho.
      Murt recolheu a mo e olhou para os prprios dedos com espanto.
      - Engraado... - disse ele. - Foi como se...
      - Foi como o qu?
      - Nada, nada. Tive a impresso de que... Ah, deixa pra l.
      - Ento at logo, Murt. D um abrao no Desmond por mim.
      - Dou, sim, pode deixar. Mas... voc se importa se eu fizer uma pergunta?
      - Claro que no. Diga.
      - Aquela garota, a cantora campe olmpica?
      - Sim, o que tem ela?
      - Tem certeza de que no  parente dela?
      - Tenho, por qu? Murt franziu a testa.
      -  que... s vezes, quando olho pra voc, tenho a impresso de que estou vendo o rosto dela. - Ele deu um risinho nervoso. - Acho que estou ficando maluco.
      Meg e Lowrie riram juntos, talvez alguns decibis mais alto do que deviam.
      - , Murt, deve estar mesmo.
      E ento eles voltaram  rua. To logo Murt trancou a roleta e desapareceu na escurido do estdio, Meg se desvencilhou da estrutura celular de Lowrie.
      - Aaauuu! - berrou o velho. - Meu p! Voc deve ter chutado meio torto!
      -  - disse Meg, emburrada.
      - Ei, por que essa tromba agora? J riscamos dois itens da lista. Estamos na metade do caminho.
      Meg sentou-se num muro, apenas por hbito, e no porque estivesse cansada.
      -  o Murt. Sei por que ele podia me ver.
      -  mesmo? E por qu?
      - Ainda agora, quando a gente apertou as mos, pude dar uma olhadinha dentro dele. Sem querer. No sou de bisbilhotar a vida alheia.
      - Ah, no?
      -  a energia dele. A energia de vida.
      - O que tem a energia de vida dele?
      - J acabou. Sumiu. Zerou.
      - Murt est morrendo?
      - Quando a gente tinha carro e a gasolina j estava quase no fim, mame dizia que o carro estava andando s no cheiro da gasolina. Acho que  o caso do Murt. 
Ele  mais esprito do que carne. Por isso podia me ver. Murt  da minha turma. Ou quase.
      - No h nada que voc possa fazer?
      - No - respondeu Meg. - Esse tipo de coisa est alm dos meus poderes. Mas pelo menos a aura dele  azulzinha, bem brilhante. Vai chegar no cu antes mesmo 
de saber que empacotou.

???
      
      Do alto da torre de vigilncia, Murt podia ver os dois. Ficara de boca aberta ao ver a menina se separar do corpo do velho. Ele sabia. Sabia que havia algo 
de estranho com aquela dupla. Rapidamente, vasculhou as gavetas  procura de uma fita de vdeo para gravar a cena. Tarde demais. Os dois esquisites j tinham sumido 
na escurido das ruas.
      A coisa era mais cabeluda do que ele havia pensado. Muito mais. Mesmo assim, Murt achava que compreendia tudo. A tal garota era um esprito com uma misso 
a cumprir. Mas como ele podia saber? Ora, tratava-se apenas de uma suposio, no adiantava nada esquentar os miolos. Ele perguntaria a Desmond como tirar o melhor 
proveito daquela histria. Desmond sempre tivera uma boa cabea para os negcios.
      No entanto, s de pensar que teria de ouvir a falao do irmo, Murt sentiu o estmago embrulhar. Depois de alguns interminveis minutos, Desmond acabaria 
assumindo a liderana do projeto e relegando o prprio Murt  condio de ajudante. Porm, mesmo sendo o irmo mais novo, ele sabia muito bem como virar uma situao 
em beneficio prprio.
      Para agentar a ladainha de Desmond era preciso tomar algum tipo de fortificante. Uma boa xcara de ch talvez bastasse. De um pulo, Murt levantou-se da cadeira 
giratria e foi at a quitinete da torre de vigilncia. A chaleira eltrica pingava sobre o escorredor de pratos. O fio j estava gasto, e a tomada apresentava manchas 
escuras, como se tivesse sido chamuscada. Preciso dar um jeito nisto, pensou Murt, ou ento fazer a coisa certa e comprar uma chaleira nova.
      Murt concluiu, porm, que podia ficar para o dia seguinte. Tratava-se, afinal, de uma emergncia: os nervos de Murt precisavam ser acalmados. Alm disso, a 
boa e velha chaleira com certeza agentaria mais uma ltima misso. Ele secou com os dedos algumas gotinhas de gua do plugue.

???
      
      Myishi apontou para o monitor do espigo cerebral.
      - O problema est aqui - disse ele. - Bem aqui.
      - At que enfim! - rosnou Belzebu.
      A noite havia sido um desastre total. Apenas para ele,  claro. Todos os outros demnios de alto escalo ainda estavam no banquete, devorando pratos preparados 
com diversos animais ameaados de extino.
      - Tudo corria s mil maravilhas, sem a ajuda do seu Caador de Almas, diga-se de passagem, at que o velho beijou a velha e... BANG!
      - BANG? Do que voc est falando, seu tecnoplasta?
      Myishi teve de engolir a seco a resposta que gostaria de dar: se havia algum tecnoplasta por ali, certamente no era ele. Mas, de modo geral, observaes dessa 
natureza resultavam numa descarga eltrica de nvel quatro num lugar muito, muito sensvel.
      - Est vendo aquela luz branca ali, Belzebu-san?
      O Nmero Dois do inferno aproximou-se do monitor espetado na massa cerebral de Belch. A imagem tremia ligeiramente.
      - Claro que estou.
      - timo. Isso  energia cem por cento positiva. Uma raridade. Nem um nico pecado mortal para atrapalhar. Basta que duas molculas de bondade se esbarrem uma 
na outra e... BANG! Fuso molecular. Fatal para a nossa raa. Essa energia triturou seu garoto como se fosse um tubaro cravando os dentes numa pobre tartaruguinha.
      Belzebu tremeu de aflio.
      - Fritou o crebro dele, outra vez - continuou Myishi. - Sugou toda a energia e mandou o garoto de volta pra c com a rapidez de uma hiena ao arrancar pedaos 
de carne de um...
      - J entendi, j entendi, criaturinha abjeta!
      Myishi sorriu por dentro. Naquela parte do cosmo, no era l muito comum encontrar algum com aquele tipo de suscetibilidade.
      - Alguma informao til nessa fita?
      - No, Belzebu-san. Depois do beijo, s esttica.
      - E o seu rob? Esse elfo a?
      - No  elfo.  Elph.
      - Elfo, Elph, d no mesmo. Por acaso ele gravou alguma coisa til?
      Elph ainda flutuava no ar, repetindo incessantemente as mesmas palavras. Pelo menos Myishi havia baixado o volume dele.
      - Receio que o sistema tenha sofrido uma pane depois da sobrecarga, mas talvez eu possa dar um novo boot a partir do servidor e... - Myishi parou no meio, 
lembrando-se do que lhe acontecera da ltima vez que soterrara Belzebu sob uma montanha de palavras tcnicas. E fez bem, pois uma carga faiscante comeava a brotar 
nas pontas do tridente do chefe. - Em outras palavras, Belzebu-san, o holograma quebrou, mas posso consert-lo.
      - timo. Por que no disse logo? E no h nada que voc possa fazer com relao a esse fedor?  insuportvel.
      Myishi hesitou.
      - Humm... Creio que no. Mas vai passar.  o cheiro da felicidade. Eau de joi. Nenhuma nota de maldade. Parece com o cheiro de flores e de...
      - De torta assando no forno.
      - E de sabonete.
      - E da brisa que vem do mar. Os demnios tremeram de nojo.
      - Eca! - exclamaram juntos.
      Um momento histrico. A primeira e talvez a ltima vez que Belzebu e Myishi concordaram em alguma coisa. Concordar no era o forte de Belzebu.
      - Pois bem - foi logo dizendo -, conserte essa porcaria de uma vez por todas. E no me venha com suas desculpas esfarrapadas de mecnico fajuto. Nenhuma pea 
precisa ser importada de Taiwan. Portanto, voc tem dez minutos antes que eu comece a fazer fumaa nesse seu paletozinho metido a besta. Ouviu bem, ou quer que eu 
repita?
      Myishi fez uma longa mesura e disse:
      - Perfeitamente, Belzebu-san.
      O programador retirou o palet, revelando um torso completamente coberto de tatuagens bastante elaboradas. Drages serpeavam sobre o peito e tsunamis explodiam 
nos ombros. Segurando a respirao para no sentir o bodum da felicidade, Myishi debruou-se novamente sobre a pantanosa massa cinzenta de Belch.
      Como todos os intelectuais, ele no podia resistir ao impulso de explicar o procedimento.
      - A onda de energia positiva sobrecarregou a reserva vital do Caador de Almas. Matou-o novamente, por assim dizer. Alm disso, apagou a memria dele. A cabea 
do garoto est como um balde vazio. Felizmente o holograma havia arquivado uma cpia dos padres de memria. Mas, infelizmente, o holograma se alimenta da mesma 
fonte de fora que o hospedeiro. Portanto, quando um deles apaga, o outro apaga tambm.
      Myishi conectou o espigo a uma linha de fora externa. Fascas azuladas comearam a zumbir atravs do cabo, pulando para dentro do crnio do estupefato Belch 
e provocando pequenos espasmos no corpo dele. Rodopiando feito um pio,
      Elph agora falava a uma taxa de quatrocentas palavras por segundo. To logo recebeu o autodiagnstico enviado por seus microprocessadores, o holograma deu 
incio a uma reviso criteriosa de todos os drives e programas. Trs-ponto-quatro segundos depois, chegou  concluso de que o sistema j estava oitenta e oito por 
cento funcional. Seus olhinhos telescpicos finalmente entraram em foco.
      - Ah, Excelso Saber - disse ele, executando uma rebuscada reverncia.
      - Muito obrigado - retrucou Belzebu, envaidecido, achando que o holograma havia se dirigido a ele. Myishi no se deu ao trabalho de corrigi-lo. - O palerma 
ainda est operacional?
      - Au! - latiu Belch.
      - Infelizmente, parece que sim. Belzebu ficou furioso.
      - At os seus hologramas so metidos a besta! Pois bem, Myishi, me d um bom motivo pra no fritar o seu brinquedinho agora mesmo!
      - Permita-me responder - disse Elph, aproximando-se suavemente de Belzebu. - Ao contrrio do seu Caador de Almas, minha programao analtica, devidamente 
patenteada pela Myishi Solues Internas Para Problemas Infernais LTDA, permitiu que eu tivesse acesso s lembranas do senhor Brennan, de modo que agora sou capaz 
de prever onde nossa alma errante aparecer durante sua breve estada no plano mortal.
      Belzebu desferiu um olhar de fria na direo de Myishi.
      - Esse pateta se parece com voc, fala como voc e  to insuportvel quanto voc.
      Myishi fez vrias mesuras, ciente de que sua criao digital estava a alguns nano-segundos de se transformar num monte de cinzas.
      - O que Elph acabou de dizer, Belzebu-san,  que ele agora sabe para onde Meg Finn ir.
      - Tem certeza? - disse Belzebu, deixando a desconfiana transparecer com toda fora em seus olhos cor de violeta.
      Depois de completar alguns clculos complicados, Elph disse:
      - Segundo me informei no crebro do senhor Brennan, a garota  obsessivo-compulsiva. Se acreditar que tem algum assunto mal resolvido na Terra, vai manipular 
o velho at conseguir fazer o que tem de fazer.
      As fascas no tridente de Belzebu comearam a ceder, sinal de que finalmente ele havia se deixado convencer. Mas jamais admitiria isso, claro.
      - E aposto que ela tem algum assunto mal resolvido, no tem?
      Elph projetou na parede da cela a imagem de um homem sombrio.
      -  o padrasto dela. Franco Kelly. Meg Finn guarda um ressentimento muito forte em relao a ele. Apesar do que j fez, acha que ainda tem algumas contas a 
acertar.
      Relutante, Belzebu assentiu com a cabea e disse:
      - Pois bem, ento. Vou lhe dar mais uma chance, mas s porque no tenho outra escolha. Esse cachorro gordo  a nica alma no-registrada de que disponho. Se 
pudesse, mandaria outra no lugar dele, qualquer uma serviria.
      Myishi suspirou aliviado. Seu prottipo sobreviveria por mais um dia.
      - Em razo do encontro com a bondade - explicou ele -, a capacidade cerebral do hospedeiro ficou ainda menor do que antes. Vou ver o que posso fazer para dar 
uma turbinada nele, mas com tantos estragos...
      - De quanto tempo ele dispe?
      - De umas doze horas. Dezoito, no mximo. Depois disso, vou ter de providenciar outra fonte de energia vital.
      Belzebu pressionou o programador contra a parede.
      - Esta tambm  a sua ltima chance, Myishi. Sabe disso, no sabe?
      O oriental fez que sim com a cabea. Impressionante como a presuno de uma pessoa desce pelo ralo nos momentos de aperto.
      - Se toda essa sua tecnologia no bastar pra trazer de volta uma nica almazinha - continuou Belzebu -, acho que teremos de trocar voc por um modelo mais 
novo. Fazer um upgrade, como voc mesmo diria.
      Belzebu deu um risinho de satisfao. Adorava virar a mesa. Com um toque de humor negro, claro. Coisa de demnio. Myishi, por sua vez, pensou em dizer algum 
improprio na sua lngua nativa, mas acabou desistindo. Belzebu era capaz de ler as mentes mais fracas; talvez falasse japons tambm.
      - Fique tranqilo, Belzebu-san. Fique tranqilo.
      - timo - retrucou o Nmero Dois, mostrando a lngua bipartida entre as presas.
      O programador deu um suspiro de desnimo. Teria de voltar a trabalhar no crebro repugnante daquela criatura hbrida. Era como se algum pedisse a Michelangelo 
para fazer um desenho com uma caneta esferogrfica.









CAPTULO 9

A PARTE TRISTE

MEG OLHAVA para os prprios dedos, ou melhor, para a aura que tremeluzia ao redor deles. Vermelho, azul, vermelho, azul. Ou, aos olhos de Meg, roxo. No entanto, 
a intensidade diminua  medida que a fora vital dela se dissipava. Pensar em BURACO ou CADEIRA era cada vez mais difcil, e flutuar tambm j no era to fcil 
quanto antes. Meg se lembrou do que havia dito Flit, o caro do tnel: "Tempo passando, tique-tique-taque".
      - Sabe qual  o problema? - perguntou ela a Lowrie, que se esforava ao mximo para tirar uma soneca - uma tarefa quase impossvel com um esprito sempre alerta 
rondando pelo quarto.
      - Este hotel custa quarenta libras por noite, sabia? - retrucou ele, impaciente, apoiando-se num dos cotovelos.
      - Ento por que desperdiar o seu dinheiro dormindo? Fique acordado e converse comigo.
      Lowrie suspirou. Talvez devesse se dar por satisfeito: ela o havia deixado em paz por seis horas inteiras.
      - Est bem, est bem. Estou acordado. O que foi?
      - O problema? Voc quer saber qual  o problema? Lowrie revirou os olhos.
      - , o problema! E voc vai ter de ser mais especfica. Afinal, problema  o que no falta pra ns dois. Eu, com os meus dias contados; voc, com a sua condio 
de fantasma...
      - No, no - interrompeu Meg. - Estou falando do problema da sua lista.
      - O que tem a minha lista?
      - Acontece que minha misso  ajudar voc, pra que a minha aura fique azul.
      - Certo. At a tudo bem.
      - Mas essas coisas que a gente tem feito at agora, bem, nenhuma delas  exatamente legal. Ento...
      - Entendi - disse Lowrie. - As aes propriamente ditas esto anulando as suas boas intenes.
      - Na mosca. Alm disso, meu prazo est acabando. E com voc roncando durante a metade do tempo...
      - Ns, as mmias, precisamos dormir, sabia?
      - Eu sei. Mas eu poderia entrar na sua cabea enquanto voc est dormindo.
      - Acontece que, com isso, voc gastaria ainda mais energia. De um jeito ou de outro, voc sai perdendo. - Lowrie buscou o palet que secava sobre o aquecedor 
do quarto e tirou do bolso o papel amarfanhado em que tinha feito sua lista. - ... Acho que voc no vai gostar nem um pouquinho do terceiro item.
      - Desembucha. Qual  a roubada da vez? 
      Lowrie respirou fundo.
      - ... ... - gaguejou ele, tateando os bolsos  procura dos culos.
      - Deixa de suspense, Lowrie! Foi voc mesmo que escreveu essa porcaria de lista. No v me dizer que j se esqueceu!
      Lowrie estalou os dedos e disse:
      - Ah, lembrei! O item nmero trs da lista de Lowrie McCall ...
      - O qu, o qu?
      - Bola furada!
      - Deixa eu adivinhar. Voc furou a bola de futebol de um amigo qualquer e agora, depois desses anos todos, quer dar uma bola nova pra ele. Depois vocs vo 
se abraar e chorar e...
      - Errado - interrompeu Lowrie, sem nenhum trao de humor na voz. -  um sujeito chamado Brendan Bola. Um valento de nariz empinado. Quero dar um belo soco 
na cara dele.
      - Voc quer que eu v pro inferno,  isso?
      Meg ficou furiosa. Tinha gastado todo o seu latim explicando aquela teoria sobre as ms aes que cancelavam as boas intenes, e agora o sem-noo queria 
que ela agredisse uma pessoa. No uma pessoa qualquer, mas um velhinho aposentado como ele prprio. Um pobre coitado que no podia v-la nem ouvi-la. Isso seria 
a danao, no restava dvida. Um nico soco e a aura dela ficaria mais vermelha que uma lagosta jogada na panela de gua quente.
      - No se preocupe - disse Lowrie. - O ltimo item  totalmente legal. E correto tambm.
      Aquilo no ajudou muito a acalmar Meg.
      - O ltimo item? Depois do terceiro, o mais provvel  que eu no esteja mais aqui pra ajudar com item algum! Um segundo depois que seu punho acertar o queixo 
do tal sujeito, j vou estar rodopiando naquele tnel vermelho, com um garfo espetado nas costas!
      - Olha, Meg, raciocina comigo: se voc voltou pra me ajudar, ento  isso que voc tem de fazer, seja l o que for.
      Meg pensou naquilo por alguns instantes e disse:
      - Pra voc  fcil dizer, n? No  a sua alma imortal que est em jogo!
      - Ora, Meg... - disse Lowrie, suspirando.
      Meg observou-o atentamente. Honestidade e decncia emanavam do rosto dele como um bando de borboletas brancas. Foi quando se decidiu, deixando-se levar por 
uma intuio - uma intuio que por ora ela guardaria para si, mas que, mais tarde, caso se comprovasse, resultaria numa interminvel sesso de "eu lhe disse, eu 
lhe disse".
      - Est bem. Vou ajudar.
      Lowrie ficou imediatamente desconfiado.
      - Tem certeza?
      - Tenho.
      - Humm... - resmungou o velho, ainda mais desconfiado do que antes.
      Mas ele sabia que, em se tratando daquele projeto de fantasminha camarada, o melhor a fazer era se dar por satisfeito com as vitrias conquistadas, ainda que 
elas no durassem por muito tempo.

???
      
      Eles fecharam a conta do hotel e pegaram um nibus para a estao Heuston. Na verdade, arrastaram-se para dentro do nibus, uma vez que o p de Lowrie ainda 
no havia parado de latejar, e Meg, preocupada em conservar o pouco de energia que ainda lhe restava, havia preferido andar, em vez de flutuar com a mesma lepidez 
de antes.
      O nibus estava lotado; no entanto, por mais que fizesse cara de coitadinho da terceira idade, Lowrie estava elegante demais em seu terno novo para que algum 
lhe oferecesse o assento. E, para complicar as coisas, logo foi reconhecido. Uma vovozinha sorridente, com uma enorme cabeleira roxa, afastou-se de um grupo de amigas 
igualmente sorridentes e abriu caminho pelo corredor.
      -  voc, no ?
      Uma pergunta um tanto esquisita. Lowrie no tinha outra escolha seno confessar:
      - Sim, sou eu.
      A mulher virou o rosto e, com um vozeiro de dar inveja a um sargento do exrcito, berrou para as amigas:
      -  ele, sim, eu no disse?
      -  isso a, Florence! - gritou uma das amigas de volta. - Manda brasa!
      A vovozinha de cabelos roxos virou-se novamente para Lowrie - a essa altura assustadssimo - e disse:
      - E ento, voc vai me beijar ou no vai? Lowrie engoliu a seco.
      - No era esse o meu plano, senhorita.
      - Ora, ora, quanta finura! Senhorita... At parece o James Bond. S que mais feio.
      - Muito obrigado - respondeu Lowrie, sem saber ao certo se recebera um elogio ou no.
      - E ento? No  isso que voc faz? No  voc que anda por a roubando beijos das mulheres... maduras?
      Florence fechou os olhos e fez um beicinho com os lbios pintados de rosa.
      - Anda, beija! - incentivou Meg, segurando a gargalhada. Lowrie olhou para ela com uma expresso de desespero.
      - Socorro! - disse ele, apenas com os lbios. Mas o socorro veio de outra pessoa.
      - Estao Heuston! - anunciou o motorista do nibus, abrindo as portas automticas.
      Lowrie aproveitou a oportunidade e escapuliu pela porta de trs.
      - Minha parada, senhorita! - berrou ele, j na segurana da rua. - At mais ver! Adieu!
      Florence s faltou derreter com a despedida em francs. A essa altura ela beijava a janela do nibus, borrando o vidro de batom cor-de-rosa. Lowrie, por sua 
vez, escondia uma careta de alvio sob um falso sorriso e acenava para o nibus, que acabara de seguir viagem.
      - Que histria  essa afinal? - perguntou Meg.
      - Sei l. Nunca vi essa maluca na vida.
      - No  dela que estou falando. Que histria  essa de "senhorita" e "adieu"?
      - Como assim? - retrucou Lowrie, ignorando o olhar curioso dos pedestres.
      - Bem - continuou Meg -, o Lowrie McCall que eu conheo nem sabe o que  romantismo.  um velho ranzinza que no faz outra coisa seno reclamar da vida!
      Lowrie fez o que pde para conter o sorriso. Em vo. Seus lbios pareciam ter vontade prpria.
      - Por acaso est sorrindo? No acredito! Acho que vou desmaiar de tanto susto!
      - Ah, fecha a matraca! Desculpe... no estou falando com o senhor - explicou Lowrie a um pedestre.
      Apesar das palavras duras, ele continuava a sorrir. Meg tinha razo. Lowrie estava se transformando numa nova pessoa. Na pessoa que poderia ter sido.
      No havia nenhum vago vazio no trem com direo ao sul. Talvez por causa de uma corrida que se realizaria na cidade de Wexford. Assim, os dois parceiros se 
viram momentaneamente obrigados a suspender as comunicaes. Isto , Lowrie se viu obrigado a ficar de bico calado.
      Para Meg, seria impossvel. Ficar ali, sem dizer nada. Ela era uma adolescente, ora bolas! Fruto da gerao MTV. Precisava de diverso.
      - Pensa nele - sussurrou ela.
      - Nele quem? - perguntou Lowrie.
      - No tal sujeito. O valento de nariz empinado. Vai, pensa nele.
      Lowrie tapou os ouvidos para se proteger.
      - Deixa disso, Lowrie. No vou entrar na sua cabea. J consigo ler a maioria dos seus pensamentos. Quer dizer, mais ou menos.  como se eu tivesse uma televiso 
velha na minha frente, com a imagem muito ruim. Mas se voc firmar o pensamento...
      Lowrie fechou os olhos e se concentrou. Uma imagem tnue e trmula surgiu acima da cabea dele. A imagem de Cicely Ward.
      - No  nela que eu pedi pra voc pensar, seu Romeu de meia-tigela! Voc no pensa em outra coisa, no  mesmo?
      Lowrie se desculpou com um sorriso e tentou novamente.
      Outra imagem apareceu. Uma imagem sombria, repleta de ms recordaes. Os objetos ao fundo mesclavam-se uns aos outros. Mas as pessoas no. Essas eram slidas 
e muito ntidas. Figuras do passado, afiadas como lminas.
      Era um jeito estranho de se contar uma histria: por meio do olhar, e no da voz do contador. Como se fosse um filme sobre a vida do prprio cmera. Meg, no 
entanto, logo se acostumou. Estava hipnotizada, interessadssima naquele episdio to importante na formao do jovem Lowrie McCall. Se estivesse olhando para o 
rosto do parceiro, e no para a imagem transmitida, teria visto as rugas de estresse que atravessavam a testa dele. Uma histria difcil de contar. Mas que agora 
vazava do crebro de Lowrie como se tivesse acontecido no dia anterior.

???
      
      L pelos quinze anos eu j sabia me proteger melhor. Caipiras como eu no sobreviveriam em Westgate sem desenvolver uma espcie de carapaa. Ou isso, ou ser 
mandado de volta para a casa dos pais num carrinho de mo, babando. Como acontecera a Sod Kelly e Mikser French. Dois fazendeiros parrudos, reduzidos a duas amebas 
choronas, depois de anos de intimidao. No que algum tivesse encostado a mo neles. H outros tipos, mais sutis, de intimidao.
      Sempre me disseram que os valentes so gente ignorante. Grandes sacos de estrume com rabanetes no lugar da cabea. Acabei descobrindo que isso no  necessariamente 
verdade. A verso urbana do valento  algum que considera a si mesmo muito inteligente e sofisticado, que se vale do sarcasmo e da humilhao pblica para manter 
os caipiras do interior em seu devido lugar.
      Brendan Bola era um exemplo perfeito dessa espcie. Qualquer pessoa com um sobrenome desses teria um apelido - como Bola Murcha, ou algo parecido. Mas Brendan, 
no. Era popular demais para ter um apelido. Popular e perigoso.
      Por algum motivo, Brendan havia adquirido um interesse especial por mim. Talvez no tivesse conseguido digerir minha sobrevivncia na escola depois do incidente 
em Groke Park. Ele tinha perdido diversos amigos por causa da expulso em massa. E olha que nem gostava de futebol; Brendan Bola odiava suar. Achava muito mais divertido 
ficar nas laterais do campo, gritando comentrios maldosos para os jogadores.
      Durante anos tive de engolir esse sapo. Simplesmente baixava a cabea e seguia adiante. Palavras, eu dizia a mim mesmo, so s palavras. Nada que eu no pudesse 
suportar. No entanto, por volta dos meus quinze anos, comecei a crescer, a espichar feito vara de bambu. De uma hora para outra eu estava diante do nariz de Brendan 
Bola, e no alguns centmetros abaixo dele.
      As coisas comearam a mudar para o meu lado. O ressentimento dos meus colegas j no era mais o mesmo depois que comecei a marcar gol atrs de gol no intercolegial 
de futebol. E quando Bola passava por mim e dizia suas idiotices, eu deixava que elas entrassem por um ouvido e sassem pelo outro.
      Eu poderia muito bem ter parado por a. Mas no. Fiquei convencido demais. Uma das coisas que o destino nunca deixa barato.
      Estava a caminho do vestirio, brincando com a bola nos ps, quando voc-j-sabe-quem apareceu no corredor. Brendan e sua gangue. Algumas vitrias recentes 
haviam dado um incentivo adicional  minha autoconfiana. Assim, no baixei os olhos nem me esgueirei contra a parede como costumava fazer. Abri meu melhor sorriso 
e, rodopiando a bola na ponta do indicador, fitei cada um deles diretamente nos olhos.
      Brendan no gostou nem um pouco disso. Era como se eu fosse um perdigueiro que tivesse rosnado para o prprio dono. De incio, ele ficou meio desconcertado, 
sem saber ao certo como agir. Mas, com os cachorrinhos de estimao babando nas canelas dele, no teve outra escolha seno fazer o comentrio de sempre.
      - E a, caipira. Dois j foram embora. S falta voc.
      Nesse instante percebi que Brendan no era to seguro quanto parecia ser. J tinha visto aquela expresso hesitante nos campos de futebol - no olhar dos goleiros 
que no sabiam direito se deviam sair da pequena rea ou permanecer sob as traves.
      Foi ento que resolvi fingir que ia jogar a bola nele - o tipo de coisa que a gente faz um milho de vezes quando est entre amigos. Mas Bola no era exatamente 
meu amigo. Fingi jogar a bola, e ele recuou assustado.
      "E da?", voc poderia dizer. "Todo mundo se assusta!" Verdade. Mas no o Bola, que jamais se assustava com nada. Ser pego assim, de surpresa, e ainda por 
cima por um caipira, talvez fosse a pior coisa que j tivesse acontecido em toda a sua vidinha curta e mimada.
      Foram necessrios dois dias para que o fogo nas bochechas dele se transformasse em gelo. S depois ele comeou a planejar sua vingana.
      Eu, pateta que era, tinha achado que havia enfrentado o valento da escola e que jamais seria perturbado outra vez. Burrice, burrice, burrice.
      O terreno do colgio de Westgate estendia-se para alm do campo de futebol, atravessava um prado amplo e acabava  margem do rio Liffey. Todo vero um fazendeiro 
aparecia com um tratorzinho e, por uma pequena quantia, recebia permisso para cortar o feno.
      Naturalmente, os alunos no tinham autorizao para se aventurar junto ao rio depois do anoitecer. A exceo era a semana seguinte aos exames de junho. Nesse 
curto perodo, vigorava uma espcie de lei informal segundo a qual os alunos do ltimo ano podiam se reunir por ali para fumar um cigarrinho  luz do luar. Somente 
os alunos do ltimo ano. Tecnicamente ilegal. Mas os diretores faziam vista grossa.
      Eu jamais deveria ter ido at l. Meus nicos aliados, os companheiros de equipe, haviam permanecido em Roscommon depois de um amistoso. Eu deveria ter ficado 
no dormitrio, acalentando o ombro machucado que me deixara fora do jogo e contando as horas at o momento de voltar para casa.
      Mas pensei que somente os internos estariam l no rio. Brendan e sua turma certamente j estariam em casa, pendurados na barra da saia de suas respectivas 
mames. Portanto, apertei as bandagens em torno do ombro, passei um pente na cabeleira e l fui eu.
      Estava vestido de camiseta, com um suter de tric amarrado  cintura. O n era do tamanho de uma bola de futebol. At hoje me lembro daquele suter. Era o 
alvo predileto dos garotos da cidade. Segundo eles, minha me havia matado um cordeirinho inocente e arrancado a l dele pelos cascos.
      Os meninos estavam  beira do rio, soprando fumaa sob a luz azulada da noite ou arremessando pedras na gua, o mais longe que podiam. Catei algumas pedrinhas 
e juntei-me ao grupo. Para os jovens de hoje, aos quais no faltam opes de diverso, tudo isso pode parecer bobo. Mas para ns, sentar  beira do rio, sem absolutamente 
nada para fazer, ouvindo o rock'n'roll que o vento trazia da cidade, era o mximo.
      Dali a pouco chegou o Bola. E, como sempre, estava acompanhado. Os lambe-botas pairavam ao redor dele como planetas em torno do sol. Aquela gente no devia 
estar ali. Os no-internos eram proibidos de entrar no colgio fora do perodo de aulas, da mesma forma que os internos eram proibidos de sair. Mas Brendan tinha 
uma pendenga a resolver e, na companhia de seus cachorrinhos, tinha cruzado o rio por uma barragem mais adiante.
      Baixei o rosto entre as mos, na esperana de que eu no tivesse nada a ver com aquilo. Talvez houvesse outro motivo para eles voltarem ao colgio. O que eu 
havia feito, afinal? Nada. Apenas fingido jogar uma bola.
      Senti quando eles pararam na minha frente. Os risinhos foram se dissipando aos poucos, como se tivesse chegado a hora do espetculo. Com certeza, um grande 
espetculo. Brendan Bola no costumava se expor apenas para dar um susto num desafeto.
      Como era de se esperar, foi Brendan quem falou primeiro.
      - Boas noites, senhor McCall. E como vo as coisas na comunidade agrcola?
      Os garotos no costumavam dizer coisas como "comunidade agrcola"; era estranho. Brendan, sim. Ele falava como aqueles sujeitos que liam as notcias no cinema, 
antes de o filme comear.
      No respondi. Aquela no era uma pergunta de verdade. Eu sabia que, no importava o que eu dissesse, daria a ele algum motivo para invocar comigo.
      Brendan chutou meu p.
      - E ento? Como vai a vida naquela sua caverninha srdida?
      Eu nem sabia o que significava "srdida". Mas at hoje lembro que foi essa a palavra que ele usou.
      - Sua me tem depenado muitos cordeirinhos?
      A risada foi geral. Depenar cordeirinhos, ha, ha, ha. Agora, sim, eu tinha de falar alguma coisa. Me  coisa sagrada. Ento resolvi ficar de p, o que me 
daria uma chance melhor de fugir - ou de atacar.
      - No sou fazendeiro, Brendan. No moro numa caverna. E minha me no depena cordeiro nenhum.
      -  mesmo?
      - .
      Eles haviam formado um semicrculo  minha frente, olhos brilhando na penumbra. Percebi que haviam bebido. J tinha visto aquele tipo de olhar antes, em Newford, 
minha cidade natal. L, como em toda cidadezinha do interior, havia um bbado que vivia andando pelas ruas. Sempre que enchia a cara, o sujeito resolvia acertar 
as contas do passado. E pelo visto era isso que Brendan pretendia fazer tambm.
      - Acontece, McCall, que no interessa onde voc mora, nem o que a sua me faz. Um caipira  um caipira, e ponto final.
      Meu dever era dar uma resposta qualquer, muito embora ningum tivesse perguntado nada. Trocar insultos  como jogar uma partida de tnis, e Brendan havia mandado 
a bola para o meu lado da quadra. O problema era que... bem, eu no queria jogar. Ento resolvi experimentar a ttica de encarar o adversrio com um olhar fulminante, 
uma ttica que funcionava muito bem no futebol. Acontece que, no campo, as coisas so mais ou menos equilibradas. Mas ali, na beira do rio, eram dez contra um. Encarar 
o Bola daquela maneira s o irritava ainda mais.
      - O que houve, fazendeiro? O gato comeu sua lngua? Ou ser que foi a vaca?
      Fiquei absolutamente mudo. O que quer que eu dissesse, Bola encontraria um jeito de distorcer as palavras e me deixar com cara de tacho.
      - O problema, McCall,  que voc tem ficado muito abusado ultimamente. Petulante. Insubordinado.
      "Petulante", "insubordinado", que espcie de adolescente tinha coragem de dizer essas coisas?
      Um grupo de garotas havia se reunido do outro lado do rio. Debruadas na cerca, elas riam e acenavam. Brendan acenou de volta, como um pavo. Outra ala do 
f-clube dele. Presentes ali para testemunhar a humilhao do bolsista.
      - Portanto - continuou Brendan, falando um pouquinho mais alto para ser ouvido de longe -, de agora em diante, gostaria que voc me chamasse de "senhor".
      Mal acreditando no que acabara de ouvir, bufei violentamente pelas narinas. Estava to preocupado em manter a boca fechada que acabei me descuidando do nariz.
      Brendan ficou vermelho de raiva.
      - Algum problema, fazendeiro?
      Fiquei parado como uma esttua. Sequer pisquei os olhos.
      - Eu perguntei se tem algum problema!
      No disse nem que sim, nem que no. Simplesmente sacudi os ombros, num gesto vago.
      Mas para Brendan era como se eu tivesse dito "no".
      - timo. Ento diz. Quero ouvir. Aquilo j estava indo longe demais.
      - Diga apenas: "No tem problema nenhum, senhor". Foi a que, burramente, resolvi abrir o bico.
      - Poxa, Brendan, no precisa me chamar de "senhor". Os grilos cantavam no mato, mas sou capaz de jurar que at eles se calaram naquele momento. Porm, o silncio 
no durou muito. A desvantagem de voc ser o valento da turma  que mesmo os seus amigos torcem secretamente pela sua derrocada. As garotas junto  cerca davam 
gargalhadas, batiam palmas e assoviavam.
      -  isso a, garoto! - berravam. - D uma lio nele!
      Deduzi que o tal garoto era eu.
      Brendan aparentemente deduziu a mesma coisa, pois, num piscar de olhos, deixou de lado toda aquela pose de playboy e transformou-se num simples moleque de 
rua. Sem mesmo se dar conta do que estava fazendo, fechou a mo e acertou minha boca com um soco. Doeu um pouco, mas no foi nada demais. Eu j tinha tomado socos 
muito piores na vida.
      Em seguida, ele olhou surpreso para a prpria mo, como se tivesse sido trado por ela. Tinha perdido a pose, e ainda por cima na frente dos amigos.
      Aproveitar-se de uma confuso  a estratgia predileta de um jogador de futebol. Foi isso que resolvi fazer. Plantei as mos no peito do falastro e empurrei-o 
o mais forte que pude. Brendan caiu com o traseiro no cho e escorregou na direo do rio. Vexame total.
      Em questo de segundos, a turma dele partiu para cima de mim com a rapidez de um bando de perdigueiros atrs de uma raposa. No eram l muito fortes; nunca 
tinham trabalhado na vida. Mas eram vrios e rapidamente me imobilizaram na margem lamacenta do rio.
      As meninas ainda riam do outro lado da cerca, como se estivessem assistindo a uma pea de teatro ou a um filme.
      Brendan subiu a encosta do rio, limpando a lama do palet. No parecia feliz.
      - Pea pra eu mandar eles soltarem voc - disse, engolindo a prpria raiva diante da platia.
      - O qu?
      - Voc quer se levantar? Timidamente, fiz que sim com a cabea.
      - Ento vai ter que pedir. Que histria era aquela agora?
      - Est bem, ento. Me deixa levantar.
      - No, no, no, no - disse Brendan. - Vai ter de pedir direito.
      - Por favor me deixa levantar.
      - No foi assim que ensinei, fazendeiro. Vai ter de me chamar de "senhor".
      Ento era isso. Ele ainda no havia desistido daquela histria de "senhor".
      - Vai se catar, Brendan!
      Quase dava para ver a confuso que se instalara na cabea dele. Brendan vinha mandando e desmandando naquela escola pelos ltimos 16 anos. E l estava eu, 
um caipira do interior, encarando ele - metaforicamente, claro. E ainda por cima na frente das meninas. Ele pisou com o sapato enlameado no meu peito e disse:
      - Anda, McCall, diz!
      -  mais fcil uma vaca cuspir, Brendan!
      Aquela foi boa. Minha me sempre dizia isso quando papai pedia a ela para trazer o carvo para dentro de casa.
      - Estou avisando, McCall. Voc vai levar a surra da sua vida. Eu tive de rir. Todo mundo que estudava naquele colgio estava acostumado s surras dos padres. 
Mais uma, menos uma, no faria a menor diferena.
      Brendan aparentemente leu meus pensamentos. Sabia que eu no estava nem um pouco preocupado com umas pancadas a mais. Precisava, portanto, encontrar numa nova 
estratgia. Ajoelhou-se no cho e falou no meu ouvido:
      - Escuta bem, fazendeiro. Se voc no me chamar de "senhor" agora mesmo, a gente vai arrancar as suas calas e jogar voc dentro do rio!
      Quase ri de novo, mas ento me lembrei das garotas. Debruadas na cerca, doidas por uma diverso. S de pensar nelas fiquei vermelho de vergonha.
      Eles tinham vencido. E Brendan sentia isso.
      - S depende de voc - disse ele. - Pessoalmente, prefiro que voc recuse.
      Para ns, do interior, a coisa  bem diferente. Pelo menos era naquele tempo. A gente no tinha muita intimidade com as garotas. Nem a fala mansa dos dublinenses. 
Para mim, chamar uma garota para danar j era um suplcio. Cair de cueca no rio na frente delas, ento, nem se fala.
      - Me solta! - rosnei.
      Fiz o que pude para parecer ameaador, mas o meu desespero estava mais que evidente.
      - Faltou s uma palavrinha, fazendeiro.
      O que seria pior, a palavrinha ou o rio? Eu tinha de escolher, ento escolhi. Hoje acho que fiz a escolha errada. Hoje e ao longo dos ltimos cinqenta anos.
      - Me solta... senhor.
      As gargalhadas ainda ecoam na minha cabea.

???
      
      A imagem sobre a cabea de Lowrie se dissolveu numa nuvem de luz colorida.
      - Voc nunca pensou em enterrar essa lembrana e seguir em frente com a sua vida? - perguntou Meg. - Virar a pgina e pronto?
      Lowrie crispava os lbios como uma criancinha emburrada. Vinha alimentando aquela mgoa por cinqenta e trs anos e no seria agora que ia mudar.
      - Tudo isso aconteceu h sculos, caramba. Antes da inveno de um monte de coisas modernas.
      Lowrie no disse nada. No podia, estava cercado de passageiros. Mas tambm no precisava. Lia-se na testa dele o que tinha na cabea.
      - Est bem, est bem - suspirou Meg. - Vou fechar o bico e cumprir com a minha obrigao. Mas, antes, gostaria de deixar uma reclamao oficialmente registrada, 
caso algum l em cima esteja ouvindo. No costumo dar trela a velhos rancorosos; estou apenas cumprindo ordens.
      Meg percebia que a estratgia estava funcionando. Lowrie sentia-se cada vez mais constrangido com seu terceiro desejo. O problema era que no estava disposto 
a dar o brao a torcer. Pelo menos por ora. Sem problema. Ela ainda tinha muitas horas para encher a pacincia dele.










CAPTULO 10

BOLA FURADA

ELES FORAM de trem at a cidadezinha porturia de Rosslare. Durante os dozes meses do ano, o lugar fervilhava de americanos em busca de suas razes, de turistas 
holandeses  procura de colinas para escalar, de msticos da Nova Era  caa de duendes e elfos. Em meio a essa fauna, um homem falando sozinho era o mximo da normalidade.
      - A gente podia ter vindo pra c antes, n? - reclamou Meg. - Rosslare est a um pulo de Newford. Lembra de Newford? A cidade onde voc mora?
      - Eu sei, eu sei - retrucou Lowrie. -  que eu tive de estabelecer prioridades pra minha lista. Caso eu...
      - Caso voc o qu?
      - Caso eu... bem, caso eu no tivesse tempo suficiente.
      - Ah.
      Eles andaram em silncio por um tempo. Depois Meg ficou curiosa e perguntou:
      - Como voc sabe onde esse cara mora? Por acaso andou espionando ele estes anos todos?
      Lowrie fez que no com a cabea.
      - Nada disso.  que o rosto do sujeito apareceu no jornal alguns anos atrs. Depois de uma carreira eminente na cidade, Brendan se aposentou e veio morar aqui. 
Comprou um chal famoso, que pertencia  av de James Joyce.
      - Eminente? O que significa isso?
      - No interessa. Voc pergunta demais.
      - Ih... Cad aquele outro Lowrie? Aquele que dizia "senhorita" e coisinhas em francs?
      - Desculpa - disse o velho. - S de pensar naquele camarada, meu sangue comea a ferver.
      - Sei como  - disse Meg, vendo o rosto de Franco diante de si.
      Bem, eles tinham uma misso a cumprir. Caminharam at os confins da cidade, passando por uma sucesso quase interminvel de pousadas e albergues. O sol da 
tarde esforava-se para abrir caminho entre as nuvens cinzentas. Como aquele hotelzinho do filme Psicose, o chal de Brendan Bola empoleirava-se no topo de uma colina.
      - Puxa, esse lugar  de dar medo... - comentou Meg.
      - Medo? - brincou Lowrie. - Que espcie de fantasma  voc?
      - Daqueles que no gostam de andar por a, dando soco na cara de quem no conhecem. - Meg achou que era hora de cutucar a ona mais um pouquinho. - Por falar 
nisso, voc acha melhor s quebrar o nariz dele com um direto ou acrescentar uns chutes no estmago depois que ele cair?
      - Tanto faz.
      - Ou quem sabe uma chave de brao at ele comear a chorar?
      Lowrie j estava ficando meio vermelho.
      - Sei l! Voc  que sabe. Afinal, a delinqente aqui  voc, no eu!
      Meg abafou um risinho de satisfao. Pelo visto, seu plano estava dando certo.
      Uma escada ngreme, de mosaico de pedras, conduzia at o chal. Lowrie subia os degraus pausadamente. Comeava a suar no alto da careca.
      - Quer desistir? - perguntou Meg, inocente. Lowrie limpou com as mos o suor que se acumulara nas rugas em torno dos olhos.
      - No, no quero.
      - Tem certeza?
      - Tenho!
      Lowrie respirou fundo e procurou se acalmar. Seria uma vergonha danada se tivesse um infarto ali mesmo, na escada de Brendan Bola.
      - Olha, Meg - disse ele -, a idia  a seguinte: eu entro, digo meu nome, menciono aquela histria da beira do rio e mando o canalha me chamar de "senhor". 
Quando ele se recusar, e  claro que vai se recusar, voc entra no meu corpo e faz picadinho do nariz empinado do metido.
      - Entendido, capito. S espero no matar o metido.
      - Matar? - disse Lowrie, assustado.
      - A gente nunca sabe. No sei como anda minha fora hoje em dia.
      - No vim aqui pra matar ningum.
      - At que no era m idia, viu? Depois de tudo que ele fez com voc...
      - No v fazer nenhuma besteira, menina. Um soco na cara, e pronto. No  pra matar, aleijar, nem provocar um derrame em ningum.
      - Vou tentar. Mas no posso prometer nada.
      Lowrie continuou a subir, porm um tantinho mais hesitante do que antes. Um turbilho de emoes diferentes nublava seu esprito. De um lado, medo e dvida; 
de outro, dio e ressentimento. Uma mistura explosiva.
      A porta era de alumnio, destoantes das pedras antigas do chal, corrodas pela maresia.
      - Essa porta  a cara de Brendan - resmungou Lowrie. - Com certeza a porta original no era boa o bastante pra ele.
      - Voc vai passar o dia inteiro admirando a arquitetura, ou a gente vai liquidar esse assunto logo de uma vez?
      Lowrie flexionou os dedos, hesitando em apertar a campainha.
      - E ento? - incitou Meg.
      - Est bem, est bem.  que isso no  fcil pra mim. Meg sabia muito bem o que ele estava sentindo. Encarar os prprios demnios no  moleza. Especialmente 
quando um desses demnios  um misto de cachorro e gente, vindo das profundezas do inferno.
      Lowrie levantou o dedo trmulo na direo da campainha.
      - Coragem, seu velho tonto - disse ele a si mesmo. - Ele  s um homem. S um homem.
      E ento a porta se abriu. Lowrie recuou assustado, quase se esborrachando no cho de pedra.
      - Muito elegante - comentou Meg.
      - Pois no? - disse Brendan Bola, parado no vo da porta. - Quem  voc?
      Lowrie procurou recobrar a coragem, engolindo a seco quase meio sculo de rancor. Diz a ele, vai! Diz a ele!
      Mas Lowrie no teve tempo de dizer nada. To logo colocou os culos, foi o prprio Brendan quem disse:
      - Santo Deus! No pode ser... Lowrie McCall! Lowrie fez que sim com a cabea, receando gaguejar ou perder a voz.
      - No acredito. Lowrie McCall. Puxa, vamos entrando... Brendan deu meia-volta e seguiu por um corredor, gesticulando para que Lowrie o seguisse.
      - Nossa, que sujeito casca-grossa - ironizou Meg. - Convidar a pessoa pra entrar assim na casa dele... Que falta de educao, hein?
      Cuspindo marimbondos na direo de Meg, Lowrie seguiu Brendan casa adentro at chegar numa sala de visitas. Muita madeira encerada e muito vidro.
      - Veja s que coincidncia! - disse Brendan, apontando para o aparelho de televiso. - Eu estava justamente vendo voc nesse vdeo. - A imagem de Lowrie encontrava-se 
congelada na tela. - Vamos sentando, por favor. Quer beber alguma coisa?
      Lowrie derramou-se numa antiga poltrona de couro. Teria feito aquilo mesmo que Brendan no o tivesse convidado a sentar, pois j no se agentava mais nas 
prprias pernas.
      - Eu gostaria de um... copo d'gua, se no for incmodo.
      - Incmodo nenhum, amigo!
      Lowrie mal acreditou no que ouviu. Amigo?
      - Volto num segundo - disse Brendan.
      E l foi ele para a cozinha, com a lepidez de um coelho ligeiramente reumtico.
      - Eu gostaria de um copo d'gua, se no for incmodo - repetiu Meg, em tom zombeteiro. - Que espcie de vingana  essa, afinal?
      - Ele me pegou de surpresa, s isso - explicou Lowrie, exausto.
      - Voc estava esperando um garoto de dezesseis anos,  isso?
      - Claro que no. Eu estava esperando...
      Lowrie no soube o que dizer. Sua companheira do alm tinha razo. Ele de fato tinha esperado um garoto de dezesseis anos. No de corpo e rosto, claro, mas 
de atitude. Nem por um segundo passara pela cabea dele a possibilidade de ser reconhecido - e muito menos de ser convidado a entrar.
      Brendan voltou  sala. Equilibrava uma bandeja com um pratinho de bolo sobre uma jarra com gua.
      - Senhor Bola... - Lowrie comeou a dizer.
      - No, no. Nenhuma palavra at voc descansar um pouquinho. Seu rosto est vermelho como uma beterraba, e nessa idade a gente precisa tomar certos cuidados. 
- Brendan bateu no peito e emendou: - Estou falando por experincia prpria.
      Lowrie assentiu com a cabea e recebeu o copo de cristal com gua gelada. Bebeu todo o contedo antes de dizer:
      - Problemas de corao?
      - . Trs pontes de safena no ano passado. Quase fui dessa pra melhor. Um baita susto.
      - , eu sei.
      - Voc tambm?
      - Infelizmente, sim. Preciso de um doador, mas sou o ltimo da fila.
      Brendan parecia sinceramente abalado.
      - Puxa, mas isso  terrvel. Quem sabe, se eu mexer uns pauzinhos...
      Lowrie fez que no com a cabea.
      - No precisa. De qualquer forma, muito obrigado, senh...
      - Por favor, me chame de Brendan.
      - Muito obrigado, Brendan. Alm de mim, h trs pessoas de sangue AB negativo esperando para fazer a cirurgia na Irlanda. Todos eles so jovens.
      - Entendo.
      Ambos ficaram calados por um instante. Problemas cardacos nunca rendem uma boa conversa.
      - Estou muito feliz com a sua visita, Lowrie - disse Brendan por fim. - Faz tempo que tenho pensado em procur-lo.
      -  mesmo?
      - . - Brendan respirou fundo. - Tenho pensado em muitas coisas desde a operao. Coisas do passado.
      Lowrie ficou pasmo. Aquilo era demais. Ele e Brendan encontravam-se em situaes muito semelhantes. Seria possvel que ambos tivessem mudado tanto assim?
      - Coisas que fiz e no devia ter feito - continuou o anfitrio, olhando fixamente para os prprios ps - e coisas que no fiz e devia ter feito. - Brendan 
passou um dedo fino sobre o aro dos culos. - Sabe, Lowrie, tudo isso tem me perturbado muito. Preciso fazer alguma coisa pra corrigir os meus erros.
      - Brendan, voc no precisa...
      - No, Lowrie, por favor me escute. Na cama daquele hospital, prometi uma coisa a mim mesmo: se sasse vivo de l, procuraria todas as pessoas com quem precisava 
acertar os ponteiros. E voc  uma delas.
      S h uma palavra para descrever isto, pensou Lowrie. Sincronia.
      - Houve um episdio muitos anos atrs - continuou Brendan. - Voc provavelmente nem se lembra.
      - Eu no apostaria nisso - sussurrou Meg.
      Lowrie estava to entretido que sequer ouviu o que ela disse.
      - Na juventude, eu era uma peste. A gente se diverte muito, claro, mas tambm tem os seus momentos ruins. S que a nossa tendncia  apagar esses momentos 
ruins da lembrana.
      Lowrie moveu a cabea em sinal de concordncia, embora no tivesse apagado nada da prpria lembrana.
      - Eu me lembro de uma noite de vero, no nosso ltimo ano de colgio. Nessa noite eu... eu... coloquei voc numa situao muito humilhante. Na frente de diversas 
pessoas. Obriguei voc a me chamar de "senhor". Voc nem calcula quantas noites fiquei sem dormir, s pensando nessa minha estupidez. Ser que um dia voc vai ser 
capaz de me perdoar?
      - Quer que eu acerte ele agora, quer? - perguntou Meg.
      - No! - berrou Lowrie.
      - Eu entendo - disse Brendan, pesaroso. - No precisa explicar.
      - No, Brendan, o que eu quis dizer  que... bem, voc no precisa se desculpar. Essa histria aconteceu sculos atrs. Quase nem me lembro.
      - Mentiroso, cara-de-pau! - disse Meg, rindo.
      - Fico feliz em ouvir isso, Lowrie. Mas ns dois sabemos o quanto foi terrvel aquela noite.
      Lowrie refletiu um pouco, suspirou e disse:
      - , Brendan, voc tem razo. Eu me lembro, sim. Foi uma noite terrvel mesmo. s vezes acho que esse episdio afetou minha vida inteira.
      - Eu sabia - disse Brendan, baixando a cabea entre as mos trmulas. - Voc tem todo o direito de vir aqui me procurar. Pra se vingar, ou seja l o que for. 
Eu entendo perfeitamente.
      Lowrie tocou-o no ombro com carinho.
      - No vim aqui pra me vingar. Aquele incidente, na verdade, no teve importncia nenhuma. Se me afetou de alguma forma, foi porque deixei que isso acontecesse. 
Vim aqui apenas pra... cumprimentar um velho amigo. S isso.
      Brendan espiou atravs dos dedos.
      - Verdade?
      - Verdade. Ns ramos praticamente crianas. E as crianas sempre fazem coisas assim, cruis. Considere-se perdoado, Brendan. E agora que tal bebermos alguma 
coisa?
      Brendan ficou de p e abraou-o afetuosamente. Se j no estivesse sentado, Lowrie teria cado de tanto susto.
      - Muito obrigado, meu velho. Muito obrigado.
      Em seguida, com um sorriso sincero nos lbios, Brendan saiu na direo da cozinha.
      - Eu sabia - vangloriou-se Meg.
      - Sabia o qu?
      - Que voc no ia bater nele.
      - Voc sabia?
      - Sim, sabia. Voc  um cara do bem. Bonzinho demais. Ningum com uma aura to azul como a sua sai por a socando as pessoas.
      - Bem, voc viu tudo, no viu? Ele estava arrependido. De verdade. Eu no podia bater nele. No seria correto.
      Brendan voltou  sala com uma garrafa de conhaque e duas taas.
      - A gente no devia beber - disse ele. - No com essas nossas engrenagens velhas...
      - Eu sei. Mas  s de vez em quando. Poxa, no  todo dia que a gente tem uma reunio de ex-colegas, no  verdade?
      Brendan sentou-se e, por um instante, ficou srio outra vez.
      - Sabe, Lowrie... Quando eu estava no hospital, ningum foi l me ver. Seis semanas de internao. E nenhuma visita. Voc nem imagina o quanto me senti sozinho.
      Lembrando-se do seu apartamentinho e dos anos que passara sentado diante de um aparelho de TV, Lowrie deu um bom gole no conhaque e disse:
      - Imagino, sim, Brendan. Imagino, sim.



CAPTULO 11

UM DESEJO SOBRANDO

FRANCO KELLY havia resolvido o problema do controle remoto. No que o controle da televiso estivesse quebrado, nada disso. O problema, na verdade, era abrir mo 
dos trocados dos cigarros para comprar pilhas novas.
      De qualquer modo, Franco havia resolvido o problema, que tambm poderia ser descrito da seguinte maneira: o que fazer quando o controle remoto no funciona 
e voc precisa trocar os canais?
      Levantar da poltrona seria uma opo, porm um pouco extrema demais. J era amolao suficiente ter de se levantar para buscar comida ou fazer pipi durante 
os intervalos comerciais.
      Outra opo seria convencer um garoto da vizinhana a ficar parado ao lado da TV. Mas os garotos de hoje no so nada confiveis, e os pais deles tm o pssimo 
hbito de cham-los de volta justamente na hora dos noticirios, quando Franco mais precisa trocar os canais.
      Assim, Franco chegou  concluso de que, infelizmente, ele prprio teria de fazer algo a respeito. Entre outras coisas, teria de superar sua profunda averso 
ao raciocnio e bolar um plano. Algo que deixasse seus crticos de queixo cado. Preguioso, eu? Essa gente vai ver.
      Sua primeira idia foi usar os dedos dos ps. Mas eles eram meio inchados e difceis de controlar. E s vezes se agarravam aos botes por causa do suor. De 
volta  estaca zero.
      A segunda idia foi de uma simplicidade genial: arrastar a poltrona para perto do aparelho. Quase perfeito, porm os problemas no tardaram a surgir. Mesmo 
com a tela a alguns palmos de distncia, Franco tinha de se inclinar para manipular os botes, que agora estavam com um leve cheirinho de queijo podre. Ele tentou 
colocar o aparelho ao lado da poltrona, mas o desconforto de virar o pescoo resultou em terrveis dores musculares. Puxa, que desafio! Seria possvel que ele tivesse 
de abrir mo de seu nico prazer na vida?
      Por fim, com uma engenhosidade duramente conquistada ao longo de trinta anos de vagabundagem, Franco chegou  soluo que procurava. Arrastou-se at o quarto, 
arrancou uma das portas do armrio e colocou-a diante da poltrona, com o lado do espelho ligeiramente virado para o aparelho  sua esquerda. Coisa de gnio.
      Agora, no s os alto-falantes apontavam para o ouvido que no era surdo, mas a natureza convexa do espelho significava que, para todos os efeitos e propsitos, 
ele agora era o feliz proprietrio de uma televiso de cinqenta polegadas. O paraso. Ah, se ele tambm tivesse um penico...
      A vida seria perfeita, no fossem aquelas duas, as Finn, me e filha. As cretinas tinham morrido. E ainda por cima no mesmo ano. Que ousadia! Como um homem 
poderia cuidar de si mesmo sem duas mulheres ao redor para pegar no pesado?
      No era exatamente a morte delas que o entristecia. Franco no pensava nas finadas como pessoas prximas e queridas; s como duas serviais. A bem da verdade, 
a menina era um tanto imprestvel; nos ltimos tempos s fazia afront-lo. Mas a me, ah, essa sim. Cozinheira de mo-cheia. E muito trabalhadora tambm. Passava 
doze horas na locadora de vdeo e ainda encontrava foras para preparar o jantar. No aquela gororoba de microondas, nada disso. Franco no comia congelados. Mas 
a criatura teve o desplante de atropelar um txi, e justamente quando ele, Franco, comeava a sentir dores na coluna. Certas pessoas no tm a menor considerao.

???
      
      Elph no estava nem um pouco impressionado.
      - Achei que voc estivesse no degrau mais baixo da escala evolutiva - comentou. - Agora vejo que estava enganado.
      - Auuu - disse Belch, ainda meio atordoado depois da trombada com o bem total. Aparentemente, sua gentica homo sapiens havia absorvido a maior parte da exploso, 
e agora ele era mais cachorro do que gente.
      - Isto aqui  um pardieiro - resmungou Elph, enojado. - O tipo de lugar em que se poderia encontrar algum... bem, algum como voc.
      - Chega! - berrou Belch, reprimindo o impulso de triturar o holograma pixel por pixel. - Diz logo o que eu tenho de fazer, e pronto!
      Elph acomodou-se acima da poltrona de Franco.
      - Esta - disse ele, apontando um dedo 3D na direo da cabea ensebada de Franco Kelly -  sua ltima chance. Um perfil psicolgico da alma-alvo evidencia 
tendncias obsessivas a...
      Belch passou a lngua sobre um dente canino recm-nascido. Um fiapo de baba ectoplsmica pendia do focinho dele.
      Notando as transformaes recentes, Elph achou por bem ir direto ao ponto.
      -  bem provvel que Meg Finn aparea por aqui. Belch achou que aquilo fazia sentido. Meg odiava Franco com todas as suas foras e, to logo tivesse uma chance, 
voltaria ali para acertar suas contas com ele.
      - E ento? O que a gente faz agora?
      Elph crispou os lbios eletrnicos em sinal de desgosto.
      - Ns esperamos, meu caro. E tentamos ignorar o fedor deste lugar.

???
      - Uh, uh, ah, ah... - disse Lowrie, cantarolando. - Hk! - Voc est bbado! - comentou Meg, rindo da situao.
      Era bom rir um pouco. Desde a exploso do tanque ela no tivera muitos motivos para rir.
      - Bbado, no - retrucou Lowrie, fazendo um sinal negativo com o dedo trmulo. - Alegre.  muito diferente.
      Eles estavam no trem novamente, seguindo para o norte, na direo de Dublin. Os outros passageiros haviam cedido a Lowrie um leito s para ele. O velhinho 
estava visivelmente alterado. Falava sozinho, e o bafo de lcool se fazia sentir  distncia.
      Evidentemente ele no havia usado os poderes sobrenaturais da sua fiel escudeira para se vingar de Brendan Bola. Pelo contrrio: ignorara Meg por completo 
e esvaziara meia garrafa de conhaque na companhia do ex-colega. Na despedida, os dois velhinhos trocaram juras de eterna amizade e prometeram se encontrar novamente 
o mais breve possvel. Se estivesse sbrio, Lowrie jamais teria feito uma promessa dessas. Sabia que no poderia cumprir.
      - Isso significa que temos um desejo sobrando - disse Meg.
      - Hmm? - resmungou Lowrie.
      Ele poderia ter dito "Como assim?" ou "Por qu?", mas daria muito trabalho.
      - Ora, eu no soquei ningum, portanto ns temos um desejo sobrando.
      - Verrrdade... - disse ele, enrolando a lngua. - Deeeesejo sobrando...
      Agora Meg j no ria mais. Tinha uma idia.
      - Posso ficar com ele?
      - Hein?
      - Ficar com o seu desejo. Tem uma pessoa que anda precisando muito de uma boa bifa.
      - Eu sei... - disse Lowrie, apertando os olhos e apontando com o indicador, num gesto acusatrio. - Sei muito bem... o que a senhorita pretende fazer.
      - Ah, sabe?
      - Sei. Voc quer socar o seu padastro... opa, padrasto.
      - . Isso mesmo. E, ento, o que voc diz?
      - V em frente. Soque o sujeito. No sou em quem vai impedir.
      - No posso - disse Meg, franzindo a testa. - J tentei. S posso ir aonde voc vai.
      Lowrie pensou no assunto. Ou melhor, tentou pensar, orientando-se vagamente na neblina que cobria sua capacidade de raciocinar. Por fim chegou a uma concluso.
      - Est bem - disse ele. - Mas com uma condio.
      - Que condio? - perguntou Meg, embora j soubesse o que era.
      - Quero saber o que ele fez. - Lowrie parecia sbrio outra vez. - Quero saber o que ele fez pra que voc fizesse aquilo com ele.
      Meg suspirou. Ela nunca falava naquele assunto. Com ningum.
      - No posso - disse ela, por fim. - Simplesmente no posso.
      - Voc no pode me mostrar? - sugeriu Lowrie, apontando para a prpria cabea.
      - Humm... Talvez. Mas com esse seu corao fraco...
      - Vou correr o risco.
      - Tudo bem, ento. Mas depois, se voc tiver um treco e morrer, no v me amolar l em cima por causa disso, ouviu bem?
      Lowrie sorriu timidamente.
      - Pode deixar. No vou.
      Meg dobrou a manga da jaqueta e passou a mo atravs do ouvido de Lowrie.
      - Isso faz cosquinha! - disse o velho, rindo e sacudindo os ossos.
      - Fica quieto! Seno voc vai ter uma leso cerebral, ou algo assim.
      Lowrie obedeceu imediatamente.
      - Pronto - disse Meg. - L vamos ns.
      Lowrie ficou completamente plido ao se ver perseguido por um grupo de jogadores de rgbi, enfurecidos, com uniformes de mulherzinha.
      - Opa! Arquivo errado.
      Meg fechou os olhos e se concentrou. Pense naquele dia, disse a si mesma. Deixe tudo voltar  sua memria... Muito bem. Estou com doze anos e um dia. Fiquei 
fora de casa o mximo que pude, mas estou com frio e com fome. E no tenho para onde ir...

???
      
      Eu me lembro de ter passado horas na salinha dos fundos da locadora, assistindo a um filme na televiso grande. Mas Trish pediu que eu fosse embora antes que 
comeassem a chegar os fregueses da noite. Pediu com delicadeza, pois conhecia o Franco. Sabia o que esperava por mim em casa.
      - Desculpa, Meggy - disse ela. - Mas voc sabe como . O patro pode chegar a qualquer minuto.
      Eu estava sentada no parapeito da janela. Meu bumbum j estava doendo. Desci ao cho e disse:
      - Tudo bem, Trish. Obrigada pelo Jornada nas Estrelas. Eu ainda no tinha visto esse.
      - Volta mais tarde. Vou ficar aqui at a meia-noite.
      - Pode ser. Depende do voc-sabe-quem.
      - Sei muito bem o que eu faria com aquele boal - disse Trish, balanando a cabea.
      - Provavelmente o mesmo que eu.
      Abotoei a jaqueta at o pescoo e sa da locadora. O vento soprava forte na rua, que estava movimentada. Pessoas entravam e saam dos carros. Mes compravam 
doces e balas para seus filhos. Como minha me costumava fazer. Engraado, agora quase tudo me fazia lembrar da mame. Muitas vezes eu estava simplesmente andando 
na rua, nem triste, nem alegre, e de repente a imagem dela pipocava na minha cabea. Qualquer coisa podia provocar isso, algum usando uma roupa parecida com as 
dela ou um leve cheirinho de jasmim, o perfume favorito da mame.
      Fechei a cara o quanto pude, de modo que ningum viesse me perturbar. Nessa parte da cidade, era preciso fazer isso para evitar que os meninos mais atrevidos 
cercassem a gente no caminho de volta para casa. Uma vez, um desses veio para o meu lado, e eu sujei o moletom dele todinho de tinta. Ele foi embora, correndo e 
xingando como uma criancinha. Essa gente se preocupa demais com a prpria aparncia; e no d para ser cool com um moletom todo manchado de azul. Sempre ando com 
uma caneta tinteiro no bolso, para usar em caso de emergncia.
      Preferi fazer o caminho mais longo, embora o vento quase me furasse o corpo. Podia ter cortado um bom pedao se tivesse atravessado o parque, passando pelos 
balanos. Mas no foi isso que fiz. Primeiro, porque ali era onde todos os casaizinhos de adolescentes gostavam de ficar, e os garotos no perderiam a oportunidade 
de zoar comigo s para impressionar as namoradinhas. E segundo porque, quanto mais cedo eu chegasse em casa, mais cedo teria de olhar para a fua ensebada do Franco.
      A casa estava um pandemnio. E s tinham se passado quatro meses. Era de se imaginar que uma casa levasse mais que isso para se desintegrar totalmente. Mas 
as paredes j estavam cobertas de mofo e fungos, o mato do jardim j atingia a altura das janelas, e o porto da entrada estava capenga, pendurado numa s dobradia. 
Naturalmente, quando mame era viva, nada disso acontecia. Ns duas arregavamos as mangas e fazamos tudo que era preciso. Isso nos tempos em que o nmero 47 da 
nossa rua havia sido um lar. Agora era apenas uma casa.
      Mame nunca teve muita sorte com os homens. Primeiro, papai, que fugiu para Londres ao primeiro sinal de responsabilidade no horizonte. E depois, Franco, provavelmente 
o sujeito mais intil e mais nojento a grudar o traseiro no sof com o prprio suor. Sempre que pensava naquele homem, eu sentia um calafrio que comeava na base 
da coluna e depois subia at a nuca. Incontrolvel.
      Eu havia arrumado um jeito de abrir a porta da frente sem usar a chave. Bastava achar o lugar certo, pressionar o ombro contra a madeira e levantar a maaneta 
de leve. O batente estava to empenado que a tranca simplesmente pulava do encaixe. Alm disso, cada vez que esquecia a chave, Franco dava uma verdadeira surra na 
porta, o que no contribua em nada para o estado da coitada. No entanto, essa era a porta perfeita para quem queria entrar em casa sem ser notado. Afastei-a com 
cuidado e entrei.
      Como sempre, a televiso berrava na sala de estar, onde eu nunca mais punha os ps, a despeito do que estivesse passando. Aquele cmodo agora pertencia a Franco, 
e por mim no havia o menor problema. No poder mais ver televiso era um pequeno preo a pagar diante da satisfao de no ter de botar os olhos naquele ogro.
      Para a escada tambm havia um plano. Todos os degraus rangiam. Por isso, eu enfiava os ps nos espaos entre os balastres e subia feito caranguejo. Nada confortvel, 
mas bem silencioso.
      P ante p, atravessei o corredor e cheguei ao meu quarto. Agora eu j estava a salvo. Franco poderia rosnar e rugir, mas jamais arrastaria o traseiro gordo 
escada acima atrs de mim. Trabalho demais.
      Tenho vergonha de admitir isso, mas at o meu quarto estava uma baguna. Se visse aquilo, mame teria um ataque. Jamais permitiria. S que mame no estava 
l. Estava morta. Atropelada na faixa de pedestres por um taxista que dormira ao volante depois de dois turnos inteiros de trabalho.
      Minha mochila da escola ainda estava largada no canto onde eu a havia jogado naquela tarde. Dentro dela havia uma montanha de exerccios por fazer. Mas eu 
nem cogitava faz-los. No adiantava tapar o sol com a peneira. quela altura eu j estava to atrasada que...
      Decidi sair de novo. Uma noitada na cidade. Tomaria o nibus do supermercado e assistiria  ltima sesso de cinema.
      Meu dinheiro ficava bem escondido, com todos os meus tesouros. Eu achava que o nico lugar do qual Franco jamais chegaria perto era a minha estante de livros. 
Portanto, todos os meus trecos ficavam escondidos num volume falso do Senhor dos anis.
      Busquei o livro e esparramei o contedo sobre a cama. Que, alis, ainda no havia sido feita. Por dois meses. Se mame estivesse viva, seria eu quem estaria 
morta.
      Entre outras coisas, havia a pulseira de cadaro de sapato que Gerry Farrel havia me dado de presente na quarta srie. O diploma que eu tinha recebido depois 
de vencer um concurso de redao com o trabalho "A baleia, essa nossa grande amiga". A estrela-do-mar petrificada que eu tinha encontrado na praia.
      E o anel de noivado da mame, aquele que um dia seria meu e agora de fato era - muitos anos antes do previsto.
      O anel. No estava ali. Cad o anel? Talvez estivesse agarrado a uma dobra qualquer da caixinha de papelo. Olhei de novo e nada. Meu dinheiro tambm tinha 
sumido, os dois e cinqenta. Me senti enjoada. Franco!
      Desci a escada a mil por hora, ricocheteei na parede do andar de baixo e segui para a sala. Franco, como sempre, encontrava-se submerso numa nuvem de fumaa.
      - Cad? - berrei, tomada de pnico. Franco nunca tirava os olhos da TV.
      - Cad o qu? - perguntou ele, irritado por eu ter invadido seu territrio.
      - O anel! - respondi, apontando para o dedo onde ele deveria estar. - O anel da mame!
      Como se precisasse de tempo para pensar, Franco deu um trago no cigarro, que j se resumia ao filtro.
      - Ah, o anel de brilhante.  dele que voc est falando?
      - Claro que ! - respondi, quase aos berros. Franco apagou o toco num cinzeiro que j transbordava.
      - Voc provavelmente j sabe que sua me queria que esse anel ficasse comigo.
      Sequer consegui abrir a boca para dizer qualquer coisa.
      - Ento... eu vendi ele.
      Palavras muito simples. Mas por algum motivo elas no entraram na minha cabea.
      - Voc vendeu o anel?
      - Vendi, sim, imbecil. Voc estava achando o qu? Que ia esconder a porcaria do anel pro resto da vida naquela caixinha?
      - Mas... mas... mas...
      - Mas, mas - repetiu Franco, s gargalhadas. - Que foi? Arranhou o disco? Olha, vendi o anel e pronto. No tem choro nem vela. Agora sai da frente que voc 
est tapando minha televiso nova.
      Ao que parecia, meu crebro tinha se paralisado. Eu me lembro de que tentava agarrar a informao que voava ao meu redor, mas ela sempre me escapava entre 
os dedos. Uma coisa, no entanto, eu havia registrado. Televiso nova.
      L estava ela, plantada no meio da sala, a imagem reluzindo atravs de uma espessa cortina de fumaa. Um aparelho preto feito piche, de aspecto ameaador.
      - Uma belezura, no acha? - disse Franco, com uma ponta de orgulho. - Dolby Surround e closed caption. Topo de linha. Um espetculo.
      A sensao era a de que um trator tinha passado por cima da minha cabea, como nos desenhos animados. O anel da mame em troca daquilo?
      - Esse anel era tudo que eu tinha - disse, entre dentes, tentando conter as lgrimas. - A nica recordao da mame.
      - Bl, bl, bl, bl, bl... - disse Franco, acenando com a mo para que eu sasse dali.
      - E voc vendeu ele. Pra comprar isso a. - Ah, at que enfim a ficha caiu!
      A televiso estava ali, tela plana, caixas de som e todo o resto. Essa foi a nica vez, que eu me lembre, que tive dio de um objeto. Ento parti para cima 
dela. Ou pelo menos tentei. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Franco me agarrou pela nuca e me prensou contra a parede. At hoje no sei onde ele foi buscar 
tanta agilidade.
      - Isso no  permitido aqui, mocinha - disse ele, os olhos semicerrados, ameaadores.
      - Voc no tinha o direito - resmunguei, virando o rosto para no sentir o bafo.
      Franco riu.
      - No tinha o direito? Vou explicar uma coisinha, garota. Voc est sob minha custdia. Portanto, quem no tem direito nenhum nesta casa  voc. Voc no passa 
de uma delinqente juvenil, uma criadora de caso. Um zero  esquerda. Um peso morto. As pessoas ficam com pena de mim. Coitado dele, elas dizem. Ter de cuidar sozinho 
daquela pivete, botar um freio nela... Ele  um santo! Um mrtir!
      Fechei os olhos e a boca o mais forte que pude, na tentativa de bloquear aquilo tudo.
      - Sua me est morta, mocinha. Morta! Ento pare de fingir que as coisas ainda so como eram, porque no so! Aquela histria de princesinha feliz no existe 
mais. Acabou! Nesta casa existem regras, e voc vai obedecer cada uma delas. Vai fazer a sua parte e vai me tratar com o devido respeito, ouviu bem? Seno vou ter 
de dar um jeito em voc, do mesmo jeito que fiz com a sua me! Ela e aqueles perfuminhos de jasmim dela...
      Ele tinha "dado um jeito" na minha me? Tinha batido nela?
      - Seu porco! - berrei. - Quem vai dar um jeito em voc sou eu! Em voc e nessa sua televiso!
      Franco gelou. Eu havia ameaado a TV.
      - Tem gente que custa a aprender, n? - respondeu ele.
      Depois Franco estapeou o meu rosto. Com fora. Escorreguei pela parede e me esborrachei no cho. Fiquei me sentindo como aqueles bois que so marcados com 
ferro em brasa.
      - Nunca ameace a minha televiso outra vez - berrou, abaixando-se para me estapear novamente. - Nunca, nunca, nunca!
      Cada "nunca" foi acompanhado de mais um tapa. Quis levantar e reagir. Dar um soco na boca do estmago dilatado dele e ficar vendo o canalha sufocar no cho. 
Mas no encontrei foras. Aquilo era demais para mim. Tinha a sensao de que havia sido atingida por uma onda no mar. Uma onda enorme.
      Fui salva pelo fim do intervalo comercial. To logo ouviu a musiquinha do programa, Franco me largou e voltou correndo para a frente da TV, as coxas mal cabendo 
entre os braos da poltrona. Quanto a mim, permaneci esborrachada ali, como uma aranha atingida com um jornal enrolado, receando me levantar e ser ouvida.
      - Ah, e mais uma coisa - disse ele, tateando o bolso da camisa  procura de fsforos. - J dei entrada nos papis de adoo. Isso significa que vou ficar aqui 
pra sempre, e voc vai ganhar um papai novo. Maravilhoso, no acha?
      No respondi. Afinal, aquilo no era uma pergunta de verdade. Na minha cabea, a dor e o dio lutavam entre si para ver quem conquistava minha ateno. O dio 
venceu. Ningum fica sabendo que o padrasto bateu na sua me e deixa a coisa por isso mesmo. Franco teria de pagar pelo que fez. Eu no sabia como, ainda, mas uma 
idia comeava a se formar no meu crebro. Ele era louco por televiso, no era? Ento era ali que eu devia bater - onde doa mais. E bater com fora.



CAPTULO 12

DUPLA VINGANA

FRANCO NO tinha l muitos interesses, e, morando na mesma casa que ele, eu conhecia todos. Ele podia cont-los nos dedos gorduchos de uma nica mo. A televiso, 
claro, era o maior amor de sua vida. O tubo catdico cantava para ele por um mnimo de oito horas, todos os dias, apagando o mundo real com uma boa dose de escapismo. 
A comida tambm ocupava uma posio importante. Comida rpida, bvio; caso contrrio, o tempo reservado  televiso seria prejudicado. Batatinhas fritas, chocolate 
e pizza entregues em domiclio eram os pratos principais. Beber tambm era bom. Uma mente semi-inebriada trafega mais facilmente pelo solo pantanoso dos canais a 
cabo.
      Mas esse era o Franco domstico. O Franco que o pblico nunca via. Do outro lado da porta empenada da casa que herdara, ele se fazia passar por um pilar da 
comunidade local. Um pilar meio bambo, v l, mas um pilar mesmo assim. Franco via a si prprio como uma espcie de heri trgico, aquele que perde o amor da sua 
vida, mas agenta as pontas para criar a filha delinqente da falecida.
      Para alimentar essa fico, Franco vestia terno e gravata todas as noites de segunda-feira e caminhava at o bar Lua Crescente para presidir as reunies semanais 
de sua venerada Associao dos Amantes dos Pombos de Newford. Depois do banheiro e da geladeira, a AAPN talvez fosse a nica coisa que o motivava a se separar daquela 
poltrona. No que ele criasse pombos - isso demandaria esforo demais. Mas, segundo ele, no era preciso criar pombos para apreci-los. Alm disso, o clube lhe dera 
uma fita cassete s sobre pombos,  qual ele havia assistido do incio ao fim. Mais que suficiente.
      Ento comecei a bolar um plano. A televiso e a AAPN. Como eu poderia combinar as duas coisas num nico plano maquiavlico de vingana? A resposta veio em 
fragmentos, como pedacinhos de um complicado quebra-cabea. Havia preparativos a fazer. A primeira coisa de que eu precisaria era de uma cmera de vdeo.

???
      
      Pedi a cmera emprestada a Belch e armei o trip do outro lado da janela dos fundos. Isso me deixou um pouco preocupada. Pedir algo emprestado a Belch. S 
Deus saberia onde ele tinha adquirido aquela cmera - sem contar que certamente pediria alguma coisa em troca. Provavelmente uma mozinha num de seus trabalhos menos 
ortodoxos. Mas dei de ombros e procurei no pensar naquilo. Qualquer que fosse o preo, eu estava disposta a pagar.
      Comecei a filmar meu padrasto sempre que havia uma oportunidade. Filmei-o vagabundeando no sof, coando a barriga e engolindo punhados de amendoim com ajuda 
da cerveja. Discutindo com a TV. Babando enquanto dormia. Passando o fim de semana inteiro s de cuecas e camiseta (apenas alguns trechos, claro, quando a ateno 
dele estava voltada para a televiso; dois dias inteiros seriam tortura demais para qualquer espectador). Enfim, humilhando-se de todas as maneiras possveis. Mas 
isso no bastava. No depois do que ele havia feito.
      Passo dois: provocaes. Programei a cmera para comear a gravar naquela tarde de sexta-feira e corri at a sala de estar.
      - Ei, barrigudo - disse. - Preciso de dez pilas. Me empresta a.
      Franco, semiconsciente, remexeu-se na poltrona. Um fiapo de baba escorria pelo queixo dele.
      - Hein?
      - Dez pilas. Din-din. Capil. Sabe o que isso que dizer, no sabe, barrigudo?
      Franco fez uma careta de irritao. Seria possvel que aquela peste no aprenderia nunca?
      - Olha o respeito, mocinha. No v me fazer levantar dessa cadeira...
      - Voc? - disse, rindo. - Levantar dessa cadeira? S pode ser uma piada.
      Franco tentou dar um risinho de sarcasmo, mas acabou bufando. Estava a ponto de perder a cabea.
      - Eu estou avisando, mocinha!
      - Voc, me avisando? Melhor avisar uma tartaruga, pois  a nica coisa que voc consegue alcanar.
      Franco jogou a pana para frente, e o impulso bastou para coloc-lo de p. Sequer tentei fugir. Por que eu faria isso? Minha idia era justamente o contrrio. 
Meu padrasto me deu um cascudo no ombro. Um cascudo dos bons, com o n do dedo mdio virado para baixo. Dei um grito de dor. No estava fingindo.
      - Eu jogava futebol, sabia? - rosnou Franco, ainda bolado com a histria da tartaruga. - Foi nessa poca que mudaram meu nome de Frank pra Franco. A multido 
gritava "Francooo" cada vez que eu marcava um gol. E foram muitos gols, fique voc sabendo.
      Sequei os olhos com a manga rasgada do meu casaco da escola. Continua falando, baleia. Meu plano estava quase terminado. S faltava uma coisinha para filmar.

???
      
      Franco tinha o hbito de beber at perder os sentidos durante o fim de semana. Achava que merecia, depois de beber at perder os sentidos durante toda a semana. 
 meia-noite do domingo, nem mesmo uma Terceira Guerra Mundial sob a poltrona da sala era capaz de acord-lo.
      Esperei no andar de cima at que os roncos dele comearam a ecoar pela casa inteira. Ento, feito caranguejo, desci a escada colocando os ps entre os balastres. 
Na verdade, no precisava me preocupar com o barulho, pois Franco j estava totalmente apagado. Usava a cueca oficial do fim de semana e roncava a pleno vapor, nvel 
sete na escala Richter. Tive de tirar um cigarro que ele esquecera aceso entre os dedos, para evitar que meus planos fossem por gua abaixo, caso ele acordasse ao 
se queimar.
      A televiso ainda estava ligada. Um filme de pancadaria qualquer. O favorito de Franco, mas nada suficiente para mant-lo acordado.
      Essa era a parte difcil. Se eu desligasse a televiso, Franco certamente acordaria. Acho que ele nunca conseguia dormir sem a barulheira constante da melhor 
amiga. Mas eu tinha um plano.
      A televiso velha ainda estava l, jogada num canto, semi-enterrada sob uma montanha de caixas de pizza e maos de cigarro vazios. Arrastei o aparelho pelo 
carpete e liguei o plugue na outra ponta do benjamim. Agora, tudo que eu precisava fazer era passar o cabo da antena de um aparelho para o outro. Houve um momento 
de chiado, logo substitudo pelo som monofnico do aparelho velho. Franco nem se mexeu.
      Rapidamente desliguei a televiso nova e empurrei o rock de rodinhas at o quintal. A cmera de vdeo j estava armada. Agora s faltava um martelo bem grande.

???
      
      Lembro que eu estava sentada no parapeito da janela, esperando que Franco acordasse. A vontade de rir rodopiava na minha garganta como um hamster de gaiola. 
Histeria, eu acho, e medo.
      O despertar de Franco era um processo lento. Podia levar horas. s vezes ele se levantava um pouquinho, para se coar ou fazer uma rpida visita ao banheiro, 
e depois voltava a dormir profundamente por mais umas tantas horas. Eu havia desligado todos os aquecedores da casa para apressar a coisa.
      s nove horas, ele tremeu as plpebras de leve. Com a mo gorducha, tateou a poltrona  procura dos cigarros. Encontrou o mao, apertou um cigarro no canto 
da boca e acendeu-o com o isqueiro. Tudo isso sem abrir os olhos.
      Em seguida, raspou a lngua com os dentes e fez uma careta de nojo. Os restos da cerveja e dos hambrgueres da noite anterior. Precisava de uma bebida.
      Por fim ele abriu as plpebras com a base das mos. Raiozinhos vermelhos cobriam o branco dos olhos. O estado de Franco era pssimo, e eu sabia o que estava 
por vir. Dali a pouco ele comearia a resmungar e a culpar o resto do mundo pela ressaca que ele mesmo havia provocado.
      Mas antes disso, percebendo que havia algo de errado, ele parou para fazer uma pequena recapitulao da vspera. Ele estava na poltrona. Fumando um cigarrinho. 
Assistindo ...
      Franco pulou da poltrona. Seu rosto parecia tremer de susto e pnico. Santo Deus! O que tinha acontecido? A televiso... tinha sumido!
      Dei um close na cara feia dele, rezando para que as lgrimas comeassem a rolar. E minhas preces seriam logo atendidas.
      Franco caiu de joelhos diante da televiso velha. Havia uma fita no aparelho de vdeo e um bilhete que dizia: "Veja isto".
      Com dedos trmulos, Franco empurrou a fita para dentro do aparelho. Depois de alguns segundos de chuvisco, dois objetos entraram em foco. Um deles era eu; 
o outro, a televiso.
      - Nooo...
      A palavra escapou dos lbios de Franco como o ltimo sopro de um balo recm-esvaziado.
      Do outro lado da janela eu no podia ouvir minha prpria voz, mas sabia exatamente o que estava dizendo.
      "Querido padastro. J que voc pagou por essa TV com o meu anel, acho que legalmente ela me pertence. Portanto eu posso, legalmente, fazer o que bem entender 
com ela. Se quiser, posso me sentar aqui mesmo e assistir a um filme; ou, se quiser, posso usar isto aqui pra fazer um servicinho nela."
      Minha imagem na televiso se abaixou e pegou no cho um martelo pesado, de cabo muito longo.
      Franco enfiou oito dedos na boca. A mais pura imagem do terror.
      - No faa isso, sua peste! No faa isso!
      Embora eu estivesse com certa peninha dele, minha outra parte, no vdeo, no estava nem a. Deixou o martelo cair na televiso com vontade, como se fosse uma 
marreteira profissional. E foi ficando cada vez mais entusiasmada, nem se lembrando que estava sendo filmada. A bem da verdade, estava at um pouco ridcula. Franco 
tremia todinho a cada pancada.
      - Pra, pra, pelo amor de Deus! Eu dou o que voc quiser!
      Ele agora alisava a tela, aos prantos. Pattico. O homem no havia derramado uma nica lgrima no enterro da minha me. E l estava ele, completamente arrasado 
por causa da morte de uma televiso.
      Dali a pouco, Franco se esparramou no cho e tapou os ouvidos para no escutar mais nada. A essa altura a televiso se resumia a pouco mais que uma caixa de 
vidro e fascas. E todos os momentos de glria haviam sido capturados pela minha cmera.

???
      
      Nem preciso dizer que, pelo resto do dia, fiz o que pude para no cruzar o caminho de Franco. Nem sei como ele conseguiu agentar esperar at a hora da reunio. 
Talvez fosse isto que segurava as pontas dele, a perspectiva de uma noitada na companhia dos amigos.
      Chegando  assemblia geral da AAPN, vi que Franco se apresentava dos ps  cabea em sua verso pblica, a no ser por uma certa falta de brilho no olhar. 
Os companheiros j estavam todos no salo do bar Lua Crescente, diante do telo onde seria exibido o vdeo da corrida.
      Contei at trs, empurrei as portas de vidro e irrompi no salo. O primeiro impulso de Franco foi voar no meu pescoo, mas ele no podia fazer nada. Pelo menos 
enquanto a papelada da adoo ainda estivesse em andamento. Outra televiso, ele at poderia comprar. Mas outra casa seria bem mais difcil.
      - O que foi, Meg? - disse ele, quase rosnando. - Voc j deveria estar na cama. Amanh voc tem aula.
      - Trouxe a sua fita, tio Franco - disse, olhando diretamente nos olhos dele. - Voc esqueceu em casa.
      Franco piscou, confuso.
      - Que fita?
      - A fita da corrida de pombos. Pra vocs assistirem depois da reunio.
      Franco conferiu sua pasta. A fita de fato no estava l. Como podia ser? Talvez eu a tivesse tirado de l e jogado no fundo da lata de lixo. Franco hesitou 
um pouco antes de pegar a fita que eu havia levado, como se receasse que ela fosse explodir.
      - Muito obrigado, minha filha - resmungou ele. - Agora j pra casa.
      Ento, com um beicinho de cortar o corao, eu disse:
      - Ah, deixa eu ficar, vai. Corrida de pombos  to legal... Quem bajula sempre alcana.
      - Poxa, Franco - disse um dos presentes. - Deixa a menina ficar.
      - S esta noite, presidente - disse outro. - Ningum vai morrer por causa disso.
      O que Franco podia fazer? Embora suspeitasse uma armadilha, no podia ser grosseiro na frente dos colegas.
      - Est bem, Meg - disse, finalmente. - Mas precisamos ter uma conversinha sobre isso depois.
      Uma frase perfeitamente inocente. Aos ouvidos de todos, menos aos meus, claro. Eu sabia muito bem o que Franco queria dizer com "uma conversinha".
      Ento eles colocaram a fita, e ela deslizou suavemente para dentro do aparelho. Eu mal conseguia respirar. Achava que aquele plano no podia dar certo, que 
a qualquer instante algum apareceria por ali para dar um fim quela situao. Mas no. Meu plano funcionou direitinho.
      Os primeiros segundos foram de certa confuso. Nem mesmo Franco havia reconhecido a si prprio. Mas depois vieram as gargalhadas. Comearam no fundo do salo, 
bem longe da mesa do comit. Mas depois foram se espalhando como a luz da manh, apoderando-se do espao, tocando todos os presentes.
      Com exceo de duas pessoas. Franco no estava rindo. E eu tambm no.
      A situao era bem engraada, alm de um tanto pattica - aquele porco inchado se revelando como o vagabundo que de fato era. Muitos dos amantes de pombos 
ali presentes estavam adorando a oportunidade de tirar um sarro de seu presidente metido a besta.
      De repente, assim que comearam as cenas de pugilato, as gargalhadas pararam. Ningum achava graa em se agredir uma criana. Mas eu tinha deixado o melhor, 
e o mais engraado, para o final: as cenas da destruio da TV. As pessoas quase rolavam de tanto rir.
      Lembro de uma onda fria de satisfao invadindo o meu corao. Eu havia destrudo Franco duas vezes: uma vez em vdeo e outra em pessoa. Uma para a mame e 
outra para mim mesma. Ele saiu da sala como um furaco, chorando de vergonha. Deixaria a presidncia da AAPN no dia seguinte. Por carta.
      Naturalmente, a adoo com a qual ele vinha sonhando no aconteceria mais. Franco agora poderia fazer o que quisesse, mas jamais seria meu pai.
      Belch apareceu para fazer uma visitinha no dia seguinte. Tinha ido cobrar o favor prestado alguns dias antes. Queria que eu ficasse vigiando enquanto ele assaltava 
o apartamento de um velhinho aposentado. Invaso de domiclio. Pela primeira vez na minha vida. Achei que no seria nada muito perigoso.

???
      
      Lowrie j estava bem mais sbrio,
      - Aquele f...
      Ele no podia completar a frase. No na frente de uma menor de idade.
      Meg riu com sarcasmo.
      - Pode dizer, Lowrie. Eu consigo ler seus pensamentos, esqueceu?
      Mas ele no podia. Tinha l seus princpios.
      - Aquele... porco - foi o que disse por fim,
      - Porco  pouco.
      - Mas voc tambm no deixou por menos, hein?
      - Ele no podia ter batido na minha me.
      Lowrie concordou com um movimento de cabea. Aquilo de fato no tinha perdo.
      - E ento? - perguntou Meg. - Posso ficar com ele?
      - Hein?
      - O seu desejo no-utilizado, posso ficar com ele? Lowrie coou o queixo. A barba j comeava a espetar novamente.
      - Pode - disse afinal. - Pode, sim. E tem mais. Vou usar todas as foras que ainda me restam pra ajudar com o soco.
      Meg abriu um sorriso, e no havia nada de angelical nele.

???
      
      Belch olhou para as mos peludas.
      - Estou sumindo! - ganiu.
      Era um ganido de verdade. Belch realmente estava gemendo como o cachorro que de fato era, ainda que pela metade. Elph providenciou uma verificao do sistema.
      - Seu ectocrnio foi perfurado durante a exploso.
      - Arf?
      - Tem um buraco na sua cabea - suspirou o holograma. - Nossa energia vital est vazando por ele. S nos restam alguns minutos, antes que nos puxem de volta 
ao quartel-general.
      - E o que vai acontecer depois?
      Elph consultou um arquivo de memria.
      - Voc trabalhar como churrasqueiro no vale do estrume. E eu serei... Bem, no sei o que vai acontecer comigo. No h precedentes. Mas suponho que seja algo 
ruim.
      - No tem nada que a gente possa fazer? Deve ter um jeito de a gente roubar um pouco dessa coisa a, dessa... energia vital.
      O holograma consultou sua infernopdia antes de responder:
      - Negativo. No h nenhum mtodo permitido.
      - Nenhum mtodo permitido? - repetiu Belch, tremendo o focinho molhado. - Isso significa que tem outros mtodos que no so permitidos?
      Elph ficou meio sem jeito, uma situao nada fcil para um holograma - envolve muita redistribuio de pixels.
      - H um jeito. Totalmente proibido. As possveis ramificaes so descomunais.
      - Arf?
      - Esse jeito pode causar muitos problemas aqui na Terra. Belch deu de ombros.
      - E o que eles podem fazer? Desligar voc e me colocar pra ficar virando espetos de churrasco?
      - Estou vendo aonde voc quer chegar.
      Belch mal pde acreditar. Finalmente ele havia dado uma dentro!
      - E esse tal jeito proibido, o que ?
      Flutuando, Elph atravessou a sala e se aproximou de Franco, que felizmente no se dava conta daquela invaso sobrenatural.
      - Em linguagem de protozorio, precisamos de uma bateria nova. Segundo a varredura que acabei de realizar, esta criatura aqui possui vinte e seis anos de combustvel 
ainda por queimar.
      Belch lambeu os lbios.
      - Vinte e seis anos?
      - Naturalmente, para abastecer uma entidade hbrida como voc e um holograma de porta paralela como eu, esses vinte e seis anos seriam equivalentes a... vinte 
e seis horas. O que  melhor do que nada. Tudo que voc precisa fazer  entrar no corpo dele e sugar um pouco da energia vital. Fica logo acima dos globos oculares. 
 de uma cor laranja bem forte. No tem como voc no ver.
      - Entendi. Ento vamos l. - Mas Belch fez questo de acrescentar: - S uma coisinha. Quero que ele me veja.
      - Por qu, criatura?
      Belch levantou a peluda mistura de mo e pata de cachorro.
      - Ora, do que adianta ter essa aparncia se no posso assustar ningum?
      Elph assentiu com a cabea. Ele entendia perfeitamente. Era um holograma do mal.

???
      
      Franco estava de pssimo humor. Havia uma fresta nas cortinas, e a luz refletia na tela da televiso, impedindo-o de enxergar.
      Fechar as cortinas implicava ter de levantar da poltrona. Melhor seria esperar at o problema passar. De qualquer forma, naquela hora s havia noticirios.
      De repente ele teve uma viso. Uma criatura estranha, parecida com lobisomem, havia se materializado diante dele. Mas Franco no ficou preocupado. J fazia 
algum tempo que ele vinha esperando pelas alucinaes. Tinha visto num programa cientfico que as pessoas que se privam da realidade geralmente acabam vendo fantasmas. 
Assim, considerava o lobisomem  sua frente apenas um canal a mais na sua televiso.
      - Ol, cachorrinho - disse ele, esticando o brao para fazer um carinho no queixo da criatura.
      O lobisomem rosnou e afastou a mo dele com um tapa. Por um instante eles se conectaram, e Franco viu tudo. Viu e compreendeu.
      - Oh, no - suspirou ele, dando-se conta da inutilidade que fora sua vida.
      - Oh, sim - retrucou Belch, com um risinho de satisfao. - Sou eu mesmo. E voltei aqui pra comer a sua alma.
      Franco comeou a gritar. E ainda gritava quando a criatura entrou no corpo dele e comeou a se fartar de energia vital. Continuava gritando quando foi banido 
para um cantinho escuro do prprio crebro, onde ningum mais podia ouvi-lo.

???
      
      Os dedos de Meg tambm estavam desaparecendo.
      - Meu tempo est acabando - disse ela, sacudindo a mozinha espiritual. - E ento, como estou?
      - Um fantasma, perto do que era antes.
      - No tem graa nenhuma.
      - Desculpa.  que estou um pouco nervoso. Afinal, vamos atacar algum em plena luz do dia.
      Meg fechou em punho a mo transparente. S lhe restava rezar para que ainda tivesse foras para dar a to merecida bifa no padrasto.
      - Agora chega de conversa fiada - avisou ela. - S quero socar o sujeito e dar o fora daqui.
      - Por mim, tudo bem.
      Eles estavam diante do porto de entrada. Ou melhor, do lugar onde antes havia um porto. Agora s restava uma solitria dobradia pendurada  lateral; o porto 
propriamente dito encontrava-se em meio ao mato. As paredes tambm haviam se deteriorado. Os ramos de hera se espalhavam por toda parte, e a pintura havia muito 
precisava de um reforo.
      Lowrie seguiu pelo caminho que conduzia  porta da casa. Ou o que parecia ser um caminho, j que o matagal cobria quase tudo.
      - Muito bem. Aqui estamos.
      Meg respirou fundo e se instalou na cabea de Lowrie. Imediatamente percebeu o quanto isso lhe custaria em termos de energia. Dali em diante ela s teria foras 
para mais uma ou duas possesses. Depois, de volta ao tnel!
      Ir at ali talvez tivesse sido uma estupidez. Desperdcio de energia. A essa altura eles j poderiam estar cuidando do ltimo desejo de Lowrie, em vez de arriscando 
suas almas imortais naquela misso maluca. Mas bastou lembrar-se do padrasto batendo na me para que Meg recobrasse imediatamente a determinao.
      - Presta ateno, parceiro - disse ela  metade do crebro que pertencia a Lowrie. -  s toc-toc, bifa e tchau! Mais fcil, impossvel.
      Meg levou o dedo, agora enferrujado de artrite,  campainha. A campainha no estava funcionando. Mais um conserto negligenciado por Franco. Ela bateu na porta 
gelada, e a artrite chiou. As sensaes de Lowrie comeavam a dominar as dela prpria.
      - Algum est vindo - disse Lowrie, por um instante reassumindo o controle de sua boca.
      Meg piscou os olhos do velho para evitar uma gotinha de suor que escorrera da testa. Estava to nervosa que as glndulas sudorparas de Lowrie agora trabalhavam 
em dobro. Fechou a mo e preparou o soco. Assim que a porta se abrisse... pou! Franco sequer teria tempo para saber o que estava acontecendo. O custo daquilo seria 
mais alguns sculos de purgatrio, mas valeria a pena.
      Uma figura sinistra arrastava-se na direo da porta, um vulto distorcido pelas bolhas da vidraa. Era Franco, s podia ser, mesmo com a distoro. Vem, baleia. 
Abra a boca e diga xis.
      A porta se abriu. Um rosto apareceu. Meg girou o tronco e arremeteu.
      No entanto, entre uma coisa e outra, o tempo aparentemente se desacelerou. O bastante para que o rosto dissesse.
      - Ol, Meg. Eu estava esperando por voc.
      Meg achou estranho. Franco nunca a chamava pelo nome. S de "mocinha". Alm disso, como ele podia saber que era ela quem estava ali? E por que ele babava? 
Ento o soco atingiu o alvo, e Franco despencou no cho como uma bolota de coc de porco.
      - Muito bom! - exclamou Lowrie, entusiasmado. - Agora podemos ir.
      Mas Meg no podia sair dali. Suspeitava que havia algo de errado. Ela, entrou na casa 47 e bateu a porta.
      Franco se contorcia no cho, ganindo e babando.
      Ganindo? Babando? De repente tudo ficou claro. Meg olhou para a figura a seus ps, dessa vez usando os prprios olhos. E l estava ele, flutuando no interior 
do padrasto dela, uma careta de dio no rosto bestial.
      - Belch! - exclamou ela.
      Belch no disse nada; simplesmente rosnou e cuspiu. Ao que parecia, sua parte humana ia para o banco de reservas nos momentos de crise.
      - O que voc est fazendo aqui?
      Ainda meio tonto, Belch apertou os olhos para enxergar melhor.
      - Vim atrs de voc. O Mestre quer a sua alma.
      Uma criaturinha de jaleco branco espocou da cabea de Franco e agora flutuava sobre o corpanzil esparramado no cho.
      - No  necessrio fornecer informaes ao nosso alvo. Fique de p e apenas faa o que tem de fazer.
      Meg olhava boquiaberta para o holograma.
      - Que diabos  isso a?
      - Puxa, Meg, faz um favor pra ns dois e d logo um tapo nessa mosca enjoada!
      Elph conseguiu produzir uma expresso de mgoa.
      - Depois de tudo que fiz... - reclamou. - Se no fosse por mim, voc j estaria virando espetos h muito tempo! Agora termine logo essa transfuso e acabe 
com os dois.
      Belch abriu a bocarra e comeou a sugar. Estrias de uma cor laranja brilhante emergiam de trs dos olhos de Franco e desciam pela garganta do meio-co. A cada 
gole ele ficava mais forte, mais presente.
      - Xiiii... - exclamaram Meg e Lowrie juntos.
      Franco sofria uma visvel transformao. Seu corpo ia pagando o preo  medida que a energia vital era sugada por Belch. Sulcos profundos foram aparecendo 
ao longo da testa. Os olhos j haviam perdido o brilho e agora afundavam cada vez mais nas rbitas. A pele em torno do pescoo ficava ressequida e murcha. O rosto 
ainda era o dele, porm com vinte anos a mais.
      - Isso no  nada bom - sussurrou Meg. - Preciso fazer alguma coisa.
      Elph zumbiu atravs do Vestbulo e parou a uns cinco centmetros do nariz de Lowrie. Deu um risinho, apenas para impressionar, j que hologramas no possuem 
senso de humor.
      - A nica coisa que voc vai fazer, Meg Finn,  falhar na sua misso. Voltar conosco l para baixo. Seu velho morrer insatisfeito, e meu criador ser promovido 
a uma posio superior  daquele bufo chamado Belzebu. Isso  o que vai acontecer.
      Meg rosnou. Pela primeira vez na vida concordava com Belch em alguma coisa. Devia esmagar aquela peste entre os dedos como a um pernilongo. Ento pegou um 
vaso sobre a mesinha do Vestbulo e arremessou-o contra o holograma tremeluzente. O vaso, claro, passou direto por Elph e espatifou-se bem na cabea de Franco. O 
resultado foi espetacular. O que se esperaria de um incidente como esse era um grito de dor, possivelmente um pequeno corte e talvez uma concusso. Nada mais do 
que isso. O que aconteceu, porm, foi um repentino e sobrenatural espetculo de som e luz. A areia dentro do vaso se esparramara sobre a cabea de Franco e, chiando 
e crepitando, grudava no rosto dele feito uma camada de cimento. Franco deu um berro, e Belch uivou o mais alto que pde - uma combinao ensurdecedora. Copos explodiram 
na cozinha, janelas se estilhaaram. At mesmo o tesouro de Franco - o aparelho de televiso - acabou sucumbindo s ondas snicas e implodindo num milho de pedacinhos.
      Franco se contorcia no cho do Vestbulo. Tentava limpar o rosto com os dedos, mas era em vo. A areia agora formava uma camada viscosa em toda a parte superior 
de seu corpo.
      Parado no alto, Elph assistia a tudo sem se deixar abalar.
      - Humm... Interessante. Violenta reao alrgica, do tipo que produz dor. - Usando a palavra "alergia" como chave, o holograma fez uma busca em seus arquivos 
e encontrou apenas um resultado: "Alergia: um esprito maligno poder exibir sinais de desconforto ao entrar em contato com uma substncia sagrada."
      Meg pegou do cho um pedao do vaso. Percebeu que havia uma plaquinha de bronze perto da base. Agora ela se lembrava. O tal vaso era na verdade a urna em que 
ficavam as cinzas mortais de sua me.
      - Mame... - sussurrou ela, deixando escapar um fiapo de lgrima entre os clios.
      Elph fez que sim com a cabea.
      - Cinzas sagradas. Suponho que a anlise esteja correta. Meg deu um chute na perna de Franco.
      - Voc nem se deu ao trabalho de colocar a urna na caixa de vidro, no ?
      - Mas agora est muito arrependido, no est? - emendou Elph.
      Franco no estava em condies de responder nada. S o que lhe restava a fazer era compartilhar a dor do alrgico Belch, Minutos de agonia se passaram at 
que ambos, ele e seu demonaco hspede, acabaram por perder a conscincia.
      Meg no se conteve e chutou o padrasto mais uma vez.
      - Bem feito pra voc. Vocs dois se merecem, isso sim. - Ela guardou o caco de urna no bolso de Lowrie. - Obrigada, mame. A senhora me salvou de novo.
      Lowrie assumiu o controle de sua boca.
      - Vamos embora, Meg. Antes que o nosso prazo se acabe. Esse monstro no vai ficar dormindo pra sempre.
      Meg piscou os olhos para se livrar das lgrimas. Lowrie tinha razo. Ela percebia que sumia um pouquinho mais a cada segundo - e eles ainda tinham muito a 
fazer para realizar o ltimo desejo.
      - Muito bem, Meggy - ela disse a si mesma, imitando o tom de voz da me. - Sai dessa. Voc tem a eternidade inteira pra ficar se lamentando. Acabe logo com 
essa lista. Falta s um! - E, apontando para Elph, emendou: - Quanto a voc... Se cruzar meu caminho outra vez, vai ter de buscar essa lente a no fundo das orelhas, 
ouviu bem?
      - Eu? - disse Elph, inocentemente. - Como vou cruzar seu caminho outra vez se estou preso a estes dois aqui?
      Mas to logo Lowrie lhe deu as costas, Elph piscou e emitiu um laser azul na direo do corpo inerte de Franco. Uma interveno indolor e rpida, mas a nica 
coisa capaz de salvar o protozorio, e por conseguinte a si mesmo, da fria do Diabo.
      Depois que o alvo e o humano j haviam desaparecido do Vestbulo, Elph voltou os ltimos minutos do vdeo em sua cabea. A garota havia feito um comentrio. 
Algo que talvez fosse importante. Ele esquadrinhou o VT  procura do momento exato. "Acabe logo com essa lista", ela havia dito. Hmm. Que lista seria essa? Era bem 
possvel que nela estivesse a oportunidade para a danao da garota.
      Elph parou de repente. No fazia sentido continuar fazendo suposies. Colocaria a si mesmo no modo de conteno de energia at que seu hospedeiro idiota acordasse 
outra vez. Piscou uma vez s e sumiu. E na casa de nmero 47 no se via mais nenhum sinal de vida, a no ser a luzinha vermelha de um boto de standby.




CAPTULO 13

L DO ALTO

LOWRIE TINHA perdido o juzo e alugado um carro.
      - Sei que  muito dinheiro - ponderou ele -, mas caixo no tem gaveta, e estou com a impresso de que nosso tempo est quase no fim.
      Meg tinha a mesma impresso. Sentia-se to slida quanto o orvalho da manh, e via sua fora diminuir a cada quilmetro. O encontro com Belch a deixara abalada. 
Quem era o tal de Mestre? E por que ele queria a alma dela? Meg suspeitava que j sabia a resposta para ambas as perguntas. Alm disso, podia sentir a proximidade 
do tnel, as pulsaes dele, que agiam como uma espcie de lembrete.
      Quanto ao carro alugado, no se tratava de uma carroa qualquer, mas de um Peugeot coup. ltimo modelo. Fossem outras as circunstncias, Meg estaria pulando 
de alegria, apertando todos os botes do painel. Mas no hoje. Hoje, motorista e passageira no tinham energia para nada que no fosse estritamente necessrio.
      - Esse seu ltimo desejo... disse Meg, com uma leve trepidao na voz. - "Cuspir do alto dos penhascos de Moher". Que maluquice  essa agora?
      - Exatamente isso - respondeu Lowrie, engatando a quinta. - Como na cano.
      - Que cano? Lowrie revirou os olhos.
      - Ah, a juventude. No ensinaram nada a vocs na escola?
      - S a ler e a fazer contas. Nada muito til, como canes que falam de cuspe.
      Lowrie tamborilou um ritmo no volante do carro e depois de alguns compassos comeou a cantar a plenos pulmes, com aquela voz estridente dos dublinenses.
      Pra dizer que viveu como rei, S quem buliu com a lei. Dormiu na sarjeta, Casou com o capeta, S quem viveu como rei.
      De rei foi a vida de quem J beijou o amor de outro algum. Nos penhascos de Moher subiu, Olhou l do alto e cuspiu. Como rei viveu esse algum...
      - Posso continuar se voc quiser. So quarenta e sete versos.
      - No, no precisa - disse Meg rapidamente. - J entendi. Quer dizer que a gente est fazendo tudo isso por causa de uma velha cano...
      - Meu pai costumava cant-la pra mim. Todas as noites na hora de dormir. Era uma espcie de cano de ninar, s nossa. Mame no gostava muito. Especialmente 
daquela parte que diz "casou com o capeta".
      - Por que ser?
      - Nada muito politicamente correto, eu sei - disse Lowrie, rindo. - Acontece que j fiz tudo isso na minha vida. Dormi na sarjeta, casei com o capeta etc. 
S no deu pra...
      - Pra cuspir do alto dos penhascos de Moher - completou Meg. - Mas pra que voc precisa de mim pra fazer isso?
      Lowrie esfregou o peito.
      - A subida. Acho que no vou agentar.
      - Poxa, mais uma subida... - reclamou Meg. - Tomara que a vida no cu valha tanta subida. Ainda bem que seu pai no conhecia nenhuma cano sobre limpar banheiros, 
seno a gente teria de fazer isso tambm.

???
      
      O tempo estava se extinguindo. Sabendo disso, Elph decidiu dar uma forcinha a Belch para que ele recobrasse a conscincia. A "forcinha" consistia num choque 
de psitrons de nvel trs, bem no traseiro peludo dele.
      Belch tremeu, e Franco tremeu tambm, uma vez que o demnio ainda ocupava o corpo dele. O menino-cachorro sentou-se lentamente.
      - Arf? - perguntou ele, meio zonzo.
      - Nosso alvo jogou cinzas sagradas contra o seu hospedeiro. Na qualidade de esprito do mal, voc  altamente alrgico.
      - Di - resmungou Belch, aparentemente trocando as frases completas por palavras soltas. - Coa.
      - E muito - disse Elph, sem o menor vestgio de compaixo. - Agora, saia da. Temos muito trabalho a fazer e pouqussimo tempo.
      - Auuu! - concordou Belch. Ento ele respirou fundo e tentou sair do corpo de Franco. No conseguiu. Algo o prendia ali. Tentou novamente, contorceu o rosto 
numa careta de esforo, e nada. - Preso.
      Elph mordeu os lbios eletrnicos, preocupado.
      - Era isso que eu temia.
      - Arf?
      - A carga positiva das cinzas sagradas est repelindo por todos os lados a carga negativa da sua fora demonaca, criando assim uma espcie de concha ectoplsmica 
impermevel.
      - Arf?
      - Voc est preso neste corpo. Uma lstima, j que sugou quase toda a energia dele.
      Belch olhou para os novos dedos. Eram encardidos e enrugados. Franco havia envelhecido trinta anos. E mesmo aos trinta e cinco j no era nenhum prncipe.
      - Preso? Nooo...
      - Nooo... - repetiu Elph, com um toque de dramaticidade. - Raciocina, idiota. Nossa misso continua a mesma. Encontrar o velho. Parar a garota. Nada mudou. 
Depois voc vai sair da.
      Belch pegou um restinho de comida podre sobre o pijama de Franco e levou-o  boca.
      - Comida - disse ele, rosnando de prazer. - Delcia. Elph revirou os olhos - mais uma de suas afetaes.
      - Pelo amor de Sat! Temos coisas muito mais importantes a fazer do que matar sua fome! Nossa fora diminui a cada segundo!
      Belch concentrou-se um instante e, com muito esforo, procurou montar uma frase.
      - Meg fugiu. No sabemos onde. Tarde demais.
      -  a que voc se engana. Sempre tomo minhas precaues, ao contrrio de certos protozorios.
      A cabea de Belch comeava a doer. No sabia se era o buraco no crnio dele ou aquele holograma empombado que no parava de insult-lo.
      - Que... precaues?
      Elph viu-se no direito de dar uma aula.
      - Ora, alm de outros incontveis recursos, vim equipado com um scanner, tridimensional a laser. Ultimssimo modelo. Ainda no foi lanado no Japo, aparentemente 
por causa de alguns efeitos colaterais no tecido epitelial. Portanto, antes que o velho fosse embora, escaneei o corpo dele. E agora posso fazer uma reconstituio 
tridimensional. Talvez possamos descobrir alguma coisa.
      - Auuu - disse Belch.
      O holograma piscou, e uma rplica eletrnica de Lowrie McCall surgiu do nada diante deles. Uma matriz de linhas verdes, nada mais.
      - No parece muito real - resmungou Belch.
      - O programa est sendo rodado em um nvel mnimo de memria - explicou Elph - e alimentado pelos escassssimos impulsos eltricos do seu crebro. Eu poderia 
aprimorar a rplica, mas voc acabaria desmaiando. Agora oua. Meg mencionou alguma coisa sobre uma lista...
      Elph girou o modelo desenhado a laser.
      - Basta ativar a ferramenta de raios X. Isso consumir mais de cem megabytes. Talvez voc sinta uma leve pontada.
      Como sempre, Elph havia subestimado o quociente de dor. A "leve pontada" jogara Belch novamente no cho, e ele agora se contorcia todo, os olhos tremendo como 
dadinhos em um copo. Suspensas no ar, as roupas da rplica de Lowrie ficaram transparentes, imediatamente tornando visvel o contedo de todos os bolsos.
      - Bolso do peito - ordenou Elph. - Aumentar. E o bolso de Lowrie aumentou para o tamanho A4.
      - Ento, o que temos aqui?
      Belch no respondeu. Estava ocupado em apagar o fogo nos cabelos de Franco.
      - Referncia axial: X1, Y3, Z4. Desdobrar e aumentar.
      Tudo desapareceu, menos o bilhete, que se desdobrou e cresceu at atingir as dimenses da parede.
      - Incrvel. Analisando os resduos de tinta no verso, o programa  capaz de reconstruir o texto com impressionante exatido.
      "Fascinante", teria dito Belch, se estivesse com disposio para zoar, e no na agonia em que se encontrava.
      - Isto deve ser a tal lista. Uma lista de desejos, se no estou enganado. Muito comum entre os patticos terminais. Fico surpreso por voc no ter uma, levando-se 
em conta os rumos lastimveis que deu  sua vida.
      Belch tinha a sensao de que seu crebro era uma laranja podre. Rodar espetos na churrasqueira do inferno no podia ser muito pior do que aquilo.
      Elph passou o dedo sobre a lista. "S falta um", Meg havia dito. E o ltimo desejo era...
      - Cuspir do alto dos penhascos de Moher? Mas por qu? Quem poderia querer uma coisa dessas? - Elph fechou o programa. - Por outro lado, esses irlandeses so 
mesmo uma gente estranha.  bem possvel que cuspir do alto de um penhasco seja considerado uma excelente opo de lazer para eles. - Voltando-se para a massa trmula 
sobre o cho, perguntou: - Esses tais penhascos, onde ficam?
      Belch consultou os ltimos neurnios que lhe restavam - a dupla que no havia fritado com a interveno de Elph. Penhascos de Moher. Ele j tinha ouvido falar 
daquilo.
      - Excurso da escola... - balbuciou.
      - Deixa pra l - suspirou Elph. - Vou pesquisar seus arquivos de memria. Imagens dizem muito mais do que palavras, especialmente as suas palavras, que no 
passam de meia dzia.
      O holograma ficou em silncio por um instante, vasculhando mentalmente os arquivos de Belch, que, por sua vez, adorou o breve momento de paz.
      - Pronto - disse Elph. - Localizei os penhascos. Ficam na costa oeste da ilha. Numa regio conhecida como Condado de Clare.
      - Isso mesmo - disse Belch. - Condado de Clare.
      -  claro que  isso, imbecil. Foi sua prpria memria que me informou! Uma memria no discorda de si mesma!
      Belch arriscou uma rosnada de advertncia. Assim que chegasse ao inferno, cuidaria para que aquele gremlin tivesse o destino que bem merecia.
      - E agora, o que  que a gente faz? Simplesmente voa pro interior do pas?
      - No, cretino. Voc est preso num corpo humano. Estamos restritos ao transporte terrestre. Este humano a, por acaso possui um carro?
      Belch riu.
      - Franco? Voc s pode estar brincando. Ningum precisa de carro pra ir da poltrona at o banheiro.
      Elph piscou.
      - Ento precisamos adquirir um meio de transporte.
      - Adquirir?
      - Sim, adquirir.

???
      
      Rissole O'Mahoney passeava pelo quarteiro a bordo de um Honda Goldwing. No ia a nenhum lugar especfico; s queria exibir aos vizinhos sua poderosa moto, 
negra como piche. Podia se dar a tal extravagncia apenas porque era um dos caras mais dures das redondezas. Ningum por ali teria coragem de chamar ateno para 
o fato de possuir uma motocicleta de 7.000 euros estacionada na porta de casa. Por outro lado, quem seria doido o bastante para tocar um dedo que fosse na moto de 
Rissole? Com certeza, ningum que desejasse viver o suficiente para, quem sabe um dia, andar numa mquina daquelas. At os passarinhos tinham medo de lanar suas 
sujeiras sobre a moto dele.
      De repente comeou a chuviscar. O primeiro sinal de uma tempestade que estava por vir, segundo havia informado o cara da televiso. Rissole decidiu ento voltar 
para casa e guardar a moto sob uma capa de lona. Todo cuidado era pouco. Especialmente com aquela histria de chuva cida e tudo mais.
      Ele girou o acelerador um pouco mais do que devia e entrou numa curva fechada. Foi ento que viu Franco Kelly parado no meio da rua. De pijama e de chinelos! 
Por causa da chuva, os cabelos estavam grudados  cabea, e a camisa do pijama modelava-se ao barrigo.
      Rissole colocou a moto em ponto morto e parou ao lado do vizinho.
      - E a, Franco... - comeou a dizer, parando logo em seguida. Tinha certeza de que aquele era Franco, mas o homem parecia ter envelhecido pelo menos uns trinta 
anos da noite para o dia. - Voc devia parar de beber e comear a malhar um pouco - aconselhou Rissole. - Est que nem a sombra do seu pai.
      Rissole achou aquilo engraadssimo. Que nem a sombra do pai. Engraado e ao mesmo tempo duro. Uma combinao e tanto.
      Mas Franco no estava rindo.
      - Desce da moto - disse, com gua da chuva e baba pingando do queixo.
      A baba deveria ter alertado Rissole de que havia algo estranho por ali. Mas ele estava ocupado demais bancando o duro.
      - O que voc disse, Franco?
      A coisa que parecia seu vizinho de porta rosnou - literalmente rosnou - para ele.
      - Meu nome no  Franco. E eu disse pra voc descer da moto.
      Rissole soltou um longo suspiro. Tinha dado uma chance ao vizinho. Tinha sido educado e tudo. Mas, agora, o que mais podia fazer alm de dar uma boa lio 
no atrevido?
      - Escuta aqui, Kelly... - comeou a dizer, baixando o descanso da moto com a bota.
      E isso foi tudo que conseguiu dizer.  exceo do "aaarrrrrgh" que se seguiu - o que no chega a ser uma palavra. Mas esse "aaarrrrrgh" tinha uma boa explicao: 
Franco dera uma mordida brutal no antebrao dele, cravando os dentes na pele e balanando a cabea at arrancar um pedao.
      Rissole esborrachou-se no asfalto, dizendo coisas sem sentido. J havia participado de uma centena de brigas, mas aquilo... Aquilo era bem diferente. Quase 
animal.
      - Calma l, Franco - gaguejou ele, apertando o brao machucado contra o peito. - O que deu em voc?
      Belch agachou-se prximo a Rissole. Farejava medo, e isso era bom.
      - Nada - respondeu ele. - Preciso da sua moto, s isso.
      Rissole chegou a abrir a boca para objetar, mas ento percebeu o fiapo de sangue que escorria pelo canto dos lbios de Franco.
      - Est bem, est bem. Pode levar.
      Belch abriu um leve sorriso, satisfeito com o martrio que estava produzindo.
      - Mais uma coisinha - emendou.
      - Pode falar. Qualquer coisa.
      Belch apontou para a jaqueta de couro de Rissole.
      - Suas roupas. Pode ir tirando.

???
      
      Flit, o caro do tnel, pleiteava sua segunda chance no paraso. Sentia-se bastante inseguro naquele momento, sentado diante do grande So Pedro, usando nada 
mais que um sorriso amarelo e uma tanguinha encardida.
      - Pois bem - disse Pedro, abrindo o arquivo de Flit em seu monitor. - Quer dizer ento que voc mudou...
      Flit sacudiu a cabea com entusiasmo.
      - Flit mudou. Mudou muito. Outro Flit. Pedro suspirou.
      - No estou sentindo isso, Flit. Voc vai ter de me convencer.
      Corriam  boca mida rumores de que So Pedro vinha passando tempo demais sintonizado nos programas de TV da Terra, especialmente os de auditrio, e comeava 
a assumir ares de psiclogo amador.
      - Flit trabalha duro. Tempo todo. Trabalha, trabalha, trabalha. Nunca pra pra chupar pedra. Como Crank e outros colegas.
      - Entendo. Mas me diga uma coisa, Flit. Por acaso est arrependido dos seus crimes?
      Flit fez o que pde para extrair uma lagrimazinha turquesa do canto dos olhos.
      - Ah, sim! Arrependido e meio. Chora tempo todo. Quando no trabalha, trabalha, trabalha. Ah, pobre gente... Como foi que Flit fez coisa dessas? Tirar dinheiro 
delas? Flit burro, muito burro.
      Flit deu dois tapinhas no prprio pulso para enfatizar ainda mais o quanto estava arrependido. Dois tapinhas de leve,
      - Humm... - murmurou Pedro, desconfiado. - Suponho que voc tenha feito seu dever de casa. Mas antes de lhe dar acesso  felicidade eterna, preciso fazer uma 
pergunta. - Ele se inclinou para frente, quase tocando o nariz do caro. - Lembre-se: se mentir, estar imediatamente desqualificado.
      O caro do tnel engoliu a seco.
      - Flit lembra. Mentira no vale. Pedro recostou-se novamente.
      - timo. Minha pergunta  a seguinte: se voc chegasse aos portes do paraso e eles estivessem abertos, sem nenhuma vigilncia, voc entraria, ou no?
      Flit apertava os dedinhos magricelas, de to nervoso que estava. No podia mentir. Pedro descobriria na mesmssima hora.
      - Sim - confessou ele, angustiado. - Flit entraria. Sem titubear. P ante p. Verdade, verdade, verdade. Errado, mas verdade.
      Pedro no tinha qualquer expresso no rosto. Como se estivesse numa mesa de pquer.
      - Hmm... - comeou a falar, levando a mo ao boto do limbo. - Sei no. Voc disse a verdade, mas a verdade era ruim. Se ao menos tivesse feito algo pra ajudar 
algum, algo que no fosse em beneficio prprio...
      Flit ficou mais confuso do que de costume. Como ele poderia ter ajudado algum desde sua ltima entrevista? Tinha ficado o tempo todo no tnel. E ningum se 
demorava ali o bastante para ser ajudado. A no ser...
      - Santo porteiro - disse ele s pressas. - No aperta boto, puxa alavanca. Flit ajudou. Flit ajudou menina.
      Algo no tom de voz do caro fez com que Pedro afastasse o dedo do boto e lhe desse ouvidos.
      - Menina? Que menina?

???
      
      O coup seguia a toda velocidade rumo ao Oeste, engolindo os quilmetros que separavam uma costa da outra. Do lado de fora do carro, a natureza armava alguma 
estripulia. Fabricava chuva no interior das nuvens e espocava raios por toda parte. Um cenrio bastante melodramtico.
      Os ocupantes do carro no diziam muita coisa. O fim estava prximo, de um jeito ou do outro. Ambos sabiam disso. A questo se resumia a qual dos dois seria 
mandado para o tnel primeiro. E, quando ele ou ela chegasse l, o tridente apontaria para baixo ou para cima?
      O corao de Lowrie estava nas ltimas. Cada ciclo de sstole e distole revelava-se uma luta. Os remdios j no adiantavam muito. Para Lowrie, cada respirao 
podia ser a derradeira. E agora ele se entristecia ainda mais com isso, agora que havia redescoberto a si mesmo. A perda seria maior.
      Meg s vezes tinha a sensao de que estava em outro lugar. Um lugar azul. Sentia nas prprias veias a pulsao do tnel. Restavam-lhe apenas algumas horas. 
Talvez minutos.
      Para chegar aos penhascos de Moher, eles tinham de atravessar toda a Irlanda. Qualquer americano diria ser capaz de cuspir a uma distncia maior. Mas, apesar 
da geografia, a viagem parecia longa. Especialmente com as mgoas e ressentimentos de duas almas rodopiando no banco da frente do carro como uma espessa neblina.
      Por fim, depois de trs horas e um sem-nmero de cidadezinhas de carto-postal, eles chegaram. Os penhascos de Moher. Fechados. Pelo menos era o que dizia 
a placa.
      - Fechado? - perguntou Meg, indignada. - E como  que algum pode fechar um penhasco?
      Lowrie apontou para a corrente pesada que fechava a entrada do estacionamento.
      - Assim.
      Na verdade, aquilo fazia sentido. O chuvisco havia se transformado numa chuva de verdade, e um vento traioeiro chegava a balanar o carro. Nuvens pesadas 
ameaavam lanar raios, cargas positivas e negativas preparando-se para o grande aterramento.
      - Humm... - resmungou Lowrie, preocupado.
      Uma rajada de vento repentina poderia arrebatar uma pessoa e jog-la no fundo do precipcio. Sem falar que, naquele plat, qualquer ser humano poderia servir 
como uma espcie de pra-raio virtual.
      Meg leu as emoes que ecoavam na cabea de Lowrie.
      - Tem razo - disse ela. -  melhor a gente desistir. Lowrie abriu a porta do carro com o ombro.
      - Nada disso. No quero desistir de mais nada. Pelo menos por hoje.
      E ele saiu na tempestade.

???
      
      So Pedro tentava no pensar no assunto. Para se distrair, procurava pensar em outras coisas - na mesa, nos passarinhos exticos que voavam ao seu redor, no 
esplendor do tnel. Ou em qualquer uma das coisas para as quais ele tinha sido obrigado a olhar durante os ltimos dois mil anos.
      Era proibido - estritamente proibido - intervir. Ah, mas como seria delicioso surrupiar uma alma das garras de Belzebu! Para Zeba, ser substitudo era o pior 
dos pesadelos, porm ele acabaria segurando a onda. Alm do mais, se a garota merecia uma entrevista nos portes do cu, era isso que ela receberia.
      Mas era intil continuar sonhando. Interferncias desse tipo estavam fora de cogitao. Sempre que os espritos se metiam onde no eram chamados, as conseqncias 
eram terrveis. Anjos e mortais. gua e azeite. Duas coisas que no se misturam.
      Seria diferente se Belzebu tivesse mandado um Caador de Almas. Nesse caso, ele, Pedro, estaria apenas equilibrando a balana. Todo mundo merecia uma oportunidade 
justa de redeno. At o Chefo achava isso. Nenhum pardal cai do galho, etc etc.
      Pedro convenceu a si mesmo de que Belzebu, sendo o demnio que era, havia mandado algum para resgatar a alma da irlandesinha. E nesse caso sua obrigao angelical 
era mandar algum tnel abaixo para dar uma espiadela no que estava acontecendo.
      Um argumento meio fajuto, sem dvidas, mas Pedro j estava ficando um tantinho entediado depois de dois mil anos sentado naquela cadeira de mrmore.

???
      
      Os penhascos de Moher eram de tirar o flego, mesmo para quem j havia atravessado um tnel celestial. Paredes de pedra cinzenta que se debruavam sobre o 
mar na parte mais acidentada da costa irlandesa. Em forma de ferradura, davam a impresso de que um gigantesco monstro marinho da pr-histria havia deixado ali 
a marca de suas mandbulas.
      O vento solapava o palet de Lowrie e castigava-lhe o joelho mais fraco. A chuva escorria em seus olhos, atrapalhando a viso e embaando a borda do penhasco.
      - Anda logo! - berrou ele em meio ao furor da natureza. - Antes que eu perca a coragem!
      Uma torre redonda empoleirava-se no cume do penhasco, ao longe.
      - Tem mesmo de ser de l? - perguntou Meg.
      - Tem - respondeu Lowrie. - L do alto. Est no verso vinte e dois.
      Meg franziu a testa, contrariada, e entrou na cabea do velho pela ltima vez. Era difcil. Muito difcil. Como escalar uma parede escorregadia de barro.
      - J entrou? - perguntou Lowrie.
      Mau sinal. Ele deveria ser capaz de sentir imediatamente a presena dela. A juventude e a vitalidade de Meg. Mas desta vez suas foras no pareciam muito maiores 
do que antes.
      Meg flexionou os dedos do velho.
      - Sim, j entrei. Mas voc no v embora. Precisamos subir juntos esse penhasco.
      Eles se viraram contra o vento, inclinando o tronco para no cair. Lowrie, obviamente, pesava pouco mais que um travesseiro de penas; teria mais utilidade 
como asa delta do que como peso de papel. Quase se podia ouvir o vento dando risadas, zoando com a cara dele.
      Mas os dois parceiros seguiram adiante. De incio andavam quase agachados; depois tiveram de engatinhar. Meg abriu a boca de Lowrie para reclamar, porm, antes 
que pudesse falar, uma rajada de vento viu ali uma boa oportunidade para invadir a garganta do velho e deixar de lembrana uma ou duas folhinhas secas. Depois disso, 
Meg no abriu mais a boca.

???
      
      quela altura o corpo de Franco no passava de uma casca. Belch sugava a energia dele o mais rpido que seu neurocrtex era capaz de receb-la.
      - Delcia! - exclamou ele, enquanto uma gosma laranja se espalhava entre suas costelas ectoplsmicas.
      - Talvez seja boa idia ir mais devagar - sugeriu Elph, flutuando sem nenhum esforo acima da moto - e economizar um pouco dessa energia para o embate final. 
Quando chegarmos  zona-alvo, teremos muito o que fazer.
      - Talvez seja boa idia desligar voc pra economizar energia! Elph riu.
      - Me desligar? E deixar voc no comando da misso? Isso seria o mesmo que pedir a um babuno para programar um videocassete.
      Isso provavelmente havia sido um insulto, mas Belch no quis perder tempo pensando no assunto. No podia desperdiar energia. Os fluidos vitais de Franco j 
estavam quase no fim. Agora chegavam em pequenos jorros, e no no fluxo contnuo de antes. Belch sentia-se como uma criana que tentava chupar com um canudinho a 
ltima gota de um copo de refrigerante. O final daquela histria prometia muitas emoes.

???
      
      Meg ergueu os olhos para conferir o quanto j tinham avanado.
      - Puxa - exclamou -, quanto mais a gente anda, mais longe o topo fica!
      No era verdade, claro, mas o desnimo de Meg era maior que suas foras. A chuva agora aoitava-os como um chicote. Gotas do tamanho de bolinhas de gude se 
espatifavam na careca de Lowrie. O corao tremia feito uma britadeira; os braos e as pernas ficavam cada vez mais fracos em razo do fluxo sangneo irregular. 
Meg despejava toda sua energia no corpo do velho. Mas isso no bastaria. Eles ainda tinham um longo caminho pela frente.
      - Anda, Lowrie - transmitiu ela. - Faa daqui mesmo. Isso no  to importante quanto a Sissy. Cospe logo, e vamos dar o fora daqui!
      No fundo de sua prpria mente, Lowrie refletiu: ele estava matando o que ainda sobrava daquela menina. E para qu? S por causa de uma cano de ninar idiota? 
Uma grande estupidez.
      - Est bem - disse ele. - Vamos cuspir daqui mesmo.
      - At que enfim voc ligou o crebro!
      Meg virou as costas de Lowrie para o vento e debruou-se sobre a cerca de segurana. A borda do penhasco ficava pelo menos um metro alm da cerca. Seria preciso 
pular para o outro lado.
      - Olha, Meg - advertiu Lowrie. - Voc  capaz de voar, mas eu no. Pelo menos ainda no.
      - No me provoque - devolveu Meg, trepada na cerca. Por fim ela desceu e aproximou-se da borda. O estrondo das ondas percorria o paredo e caa sobre eles 
como uma fora fsica. Uma sensao ao mesmo tempo extraordinria e tenebrosa.
      Ela acumulou o quanto pde de saliva na boca.
      - L vai - disse, engolindo as consoantes.
      E cuspiu. Direto nos sapatos de 650 euros de Lowrie. Por que as coisas nunca davam certo na primeira vez?

???

      - E ento? - rosnou Belch. - Est vendo alguma coisa?
      - Quieto! - gritou o holograma. - Estou fazendo uma varredura.
      A moto j se aproximava da recepo de visitantes. Elph estava tendo problemas com o acmulo de eletricidade na atmosfera, que atrapalhava seu radar. Ento 
resolveu mudar para o ultravioleta.
      - Ali! - anunciou ele, triunfante. - Naquela crista!
      A viso noturna canina de Belch captou a imagem imediatamente. L estavam eles, na borda do penhasco.
      - Fcil demais - observou ele com um sorriso no canto dos lbios.
      E arremeteu a moto contra a corrente de segurana.

???
      
      Engraado como a gente nunca consegue cuspir quando precisa. Engraado para quem no est se equilibrando na beira de um paredo de mais de cem metros de altura, 
em meio a uma tempestade furiosa.
      Meg pigarreou com vigor, pensando naqueles charutos fedorentos que Lowrie costumava fumar. No era possvel que eles no tivessem depositado uma boa quantidade 
de catarro na garganta dele. Mas nada. A garganta do velho estava seca como um osso no deserto. Todo o lquido extra daquele corpo havia vazado pelos poros na forma 
de suor.
      - No acredito! - berrou ela contra o vento.
      Em sinal de condolncia, a natureza enviou um raio, que caiu no muito longe de onde eles estavam, espalhando torres de barro para todos os lados. Assustada, 
Meg cobriu os olhos com o brao de Lowrie e, espiando sob ele, avistou a figura de Franco. Montado numa motocicleta. Vindo na direo dela.
      - Essa no... - foi tudo que conseguiu dizer.
      Foi o suficiente.

???
      
      Belch havia acabado de completar dezesseis anos quando explodiu com o tanque de gs. Dezesseis anos. Idade suficiente para tirar carteira de motociclista. 
Esse tinha sido seu plano. Assaltar a casa de McCall, vender os trecos dele, comprar uma moto. Andar pelas ruas na companhia de Rissole. Maneiro.
      Para sorte de Meg, o plano nunca chegara a se realizar. Porque se tivesse experincia com as motos, e no fosse o amador que de fato era, Belch jamais teria 
tentado pular a cerca com moto e tudo. Simplesmente teria atropelado o arame, e, neste caso, todos os personagens desta historieta sobrenatural teriam sido jogados 
- gritando ou uivando - penhasco abaixo.
      No entanto, como aquela era apenas a terceira vez que subia numa motocicleta, ele achou por bem impressionar a todos e jogou a roda dianteira sobre a cerca, 
achando que o resto da mquina viria naturalmente. "Querias, Zacarias", teria dito Evil Knievel, o lendrio s das acrobacias sobre duas rodas. Para realizar aquela 
faanha teria sido necessrio uma rampa. E Belch no tinha rampa alguma.
      Engastalhada na tela de arame, a moto rugia como um bicho preso numa armadilha. O corpo de Franco foi catapultado para o outro lado da cerca, acertando Lowrie 
em cheio no peito. O quarteto deslizou atravs da lama e parou bem na beirinha do penhasco.
      Meg e Belch s tinham olhos um para o outro. No que rolasse um clima entre eles.
      - Est tudo acabado, Meg - sentenciou o meio-co. - Voc agora vem comigo.
      Meg contorcia o rosto de Lowrie, que Franco apertava com as mos. A proximidade do padrasto dava-lhe a sensao de que estava viva outra vez.
      - Me larga! Me deixa em paz!
      - Me larga, me deixa em paz - repetiu Belch. - Voc  de dar d!
      O corao de Lowrie batia to acelerado quanto um liqidificador. Respirar estava cada vez mais difcil. Manchas danavam diante dos olhos dele. E agora tambm 
havia aparecido uma dor. Uma dor vermelha.
      - Anda, vai! - disse Meg, arfando. Lowrie mal encontrou foras para responder:
      - Hein?
      - Vai, cospe logo. Eu seguro ele. A a gente vence! Lowrie percebeu imediatamente que ela tinha razo. A nica maneira de despachar aqueles dois era completar 
a lista.
      Apertando a garganta de Franco com dedos de ferro, Meg finalmente conseguiu se desvencilhar. Agora j no havia mais lgrimas. Apenas determinao. No em 
benefcio prprio, mas do parceiro.
      - Eu e Lowrie ainda podemos nos separar - disse ela, concentrando todas as foras no estrangulamento do inimigo. - Mas vocs no, no ? Isso significa que 
Lowrie pode se arrastar at a borda, e a a gente vence. Voc sabe o que vai rolar depois, no sabe?
      Belch arregalou os olhos, mal acreditando no que estava acontecendo. Procurou freneticamente por uma ltima gota de energia no crnio de Franco, mas no encontrou 
nada. Tanque vazio. Ele se contorcia e se debatia, quase sem foras. Era apenas um fantasma preso numa concha.
      Lowrie arrastava-se na lama. A dor havia se alastrado para a perna, e ele no conseguia ficar de p. As batidas do corao misturavam-se aos rugidos do mar. 
Algo mais tambm estava batendo. Cada vez mais prximo. Algo azul. S mais alguns centmetros, e ele poderia morrer em paz.
      Elph observava do alto toda a confuso. Via o cretino de seu hospedeiro metendo os ps pelas mos, mas no podia fazer rigorosamente nada. Na condio de holograma, 
no tinha nenhum poder fsico, a no ser... a visibilidade.
      S restava uma chance para a turma das trevas. Uma esperana - e no podia falhar. Elph aproximou-se de Lowrie e ajustou seu espectrmetro digital. Bastaria 
um clique para que ele se tornasse visvel a olhos humanos. Depois de ativar todos os seus apetrechos, ele preparou uma careta e apertou o boto.
      Lowrie levantou os olhos. Uma criaturinha flutuava diante dele. S podia ser do mal. Engenhocas sinistras brotavam do corpo dela, e um raio verde emanava de 
um dos olhos. Assustado, o corao de Lowrie bateu um tiquinho mais forte. Mais forte do que podia,
      De algum modo eles estavam conectados, pois Meg logo sentiu Lowrie partir.
      - No! - gritou ela, quase sem energia vital.
      Belch tambm estava partindo, mas, ao contrrio dos demais, levava um sorriso no rosto.
      - A gente se v em breve - disse ele. - Muito em breve. O tnel se abriu acima deles, perfurando as nuvens como o canudinho de um gigantesco copo de refrigerante. 
E eles foram sugados para o alto.
      Meg estendeu a mo para seu parceiro. Chamou por ele, mas Lowrie no podia ouvi-la. Seu corpo estava nos estgios finais de encerramento operacional. Apenas 
o crebro estava vivo, e no por muito tempo.
      Elph passou por Meg, zumbindo.
      - Foi timo trabalhar com voc - comentou. - Talvez possamos jogar no mesmo time depois que eu me livrar do protozorio.
      Meg sequer ouviu o que ele disse. Chorava muito, e s tinha olhos para o parceiro, o nico homem que se preocupara com ela em toda a vida. Mas agora tudo havia 
terminado. E ela tinha falhado. De novo.

???
      
      Flit agarrava-se  parede do tnel, esperando o momento de cumprir suas ordens. Tudo muito simples. Um favorzinho para Pedro, e ele estaria dentro. Ningum 
precisava saber. Essa era a condio.
      Ele tinha acompanhado a coisa toda. O penhasco, a tempestade e depois aquela criatura de motocicleta. Muito emocionante. Ter uma televiso devia ser mais ou 
menos assim.
      Por fim, j sem nenhuma energia vital, eles foram sugados pelo tnel. Belch flutuava ao longo do caminho, um fiapo de baba escorrendo dos lbios sorridentes.
      - Belo dia - disse Flit, procurando ser simptico.
      - Arf- respondeu Belch, desconfiado.
      Depois veio a menina, que no olhava para ele, pois ainda estava conectada  Terra. Teria de cortar aquele lao, seno jamais encontraria a paz.
      - Menina, menina! - chamou Flit, o salvador da ptria. Meg virou-se lentamente, o rosto ainda inchado de tanto chorar.
      - Flit?
      - Sim, menina, sim! Flitty Flit Flit! Menina lembra pedras?
      - Pedras?
      - , pedras! Menina ficando surda, ser? Pedras no bolso. Azuis.
      Meg lembrou-se de repente. As duas pedras azuis que Flit lhe dera quando se conheceram. Pedras da vida. "Baterias extras", ele havia dito. Naquela ocasio 
ela no havia entendido direito, mas agora...
      Ela vasculhou os bolsos. As pedras ainda estavam l. Azul e prata. Brilhantes e quentes. To logo fechou os dedos sobre elas, Meg sentiu suas foras voltarem. 
O tnel recuou e agora pulsava cada vez mais longe. Meg flutuou de volta  Terra, ao encontro dos dois corpos esparramados  beira do penhasco.
      Um coisa terrvel de se pensar, mas o aspecto de Lowrie era lastimvel. A chuva havia arruinado as roupas novas dele, e o rosto estava todo sujo de lama. Ele 
no respirava. Mas ainda restava uma centelha. Uma centelha alaranjada atrs do globo ocular direito.
      Meg colocou uma das pedras sobre a testa do velho, e ela se derreteu como um cubo de gelo numa chapa quente. O efeito foi instantneo. Lowrie arregalou os 
olhos e encheu os pulmes com a voracidade de um mergulhador em apuros.
      - Meg? - disse ele, em meio  chuva. - Eu estou...?
      - No - respondeu a parceira. - Voc est vivo. No sei por quanto tempo, mas vivo.
      Lowrie cuspiu um bocado de lama e minhocas.
      - E aquelas... criaturas?
      - Foram embora. Pra sempre, eu acho.
      - E voc?
      Meg deu de ombros.
      - Sei l. Tenho uma dessas pedras tambm. Com ela, acho que posso demorar aqui mais um pouquinho. Se voc quiser, claro.
      Lowrie abriu um sorriso molhado de chuva.
      - Claro que eu quero! Quem mais aturaria a minha rabugice?
      Pois bem. Nossa histria poderia terminar por aqui. Todo mundo feliz para o resto da eternidade. Acontece que Franco permanecia ali, catatnico. No estava 
morto, mas tambm no estava exatamente vivo. E ningum merecia aquilo.
      Meg e Lowrie se entreolharam. Ambos sabiam o que devia ser feito.
      - Adeus - disse Lowrie simplesmente.
      - Tchau - sussurrou Meg.
      Tinha de agir com rapidez, seno perderia a coragem. A pedra afundou na testa de Franco, devolvendo os anos de vida que lhe haviam sido tomados. Seus olhos 
brilhavam novamente. Ele voltara a si, mas j no era o mesmo.
      Meg tomou o rosto do padrasto entre as mos.
      - Voc viu como so as coisas por l? - perguntou ela. Franco fez que sim com a cabea, o horror do inferno ainda fresco na memria.
      - timo. Ento nunca se esquea disso.
      Franco jamais se esqueceria, mesmo que quisesse. As coisas mudariam muito dali em diante.
      Naturalmente, ceder a pedra ao padrasto violento constitua um ato da mais pura bondade. Uma exploso de luz branca e suave abraou Meg e lanou-a delicadamente 
rumo  boca do tnel.













CAPTULO 14

PARA TODO O SEMPRE

O OCEANO ATLNTICO nadava na direo da Amrica. Lowrie observava-o junto  base de uma torre redonda. Uma sensao extraordinria, ainda estar vivo para apreciar 
a natureza daquela forma.
      Agora ele dispunha de mais tempo, no restava dvida. Tinha conscincia de que Meg havia feito algo por ele, tinha lhe dado alguma coisa. No sabia exatamente 
o que, mas disto ele sabia: no desperdiaria aquela espcie de prorrogao com sentimentos inteis de autopiedade. Tinha no bolso o nmero do telefone de Sissy 
Ward e um carto de crdito com um limite pronto para ser estourado.
      Um persistente raiozinho de sol perfurou a espessa camada de nuvens e pousou sobre a testa de Lowrie.
      - Obrigado, parceira - sussurrou ele, os olhos voltados para o cu.
      E depois cuspiu no mar, do alto dos penhascos de Moher.

???
      
      Meg aproximava-se do forcado. Para onde ele apontaria, para cima ou para baixo? O momento da verdade. O fulgor do inferno era ofuscante. Criaturas tisnadas 
de fuligem, empoleiradas no porto, usavam o tridente para espetar sem piedade os recm-chegados. Meg segurava a respirao, esperando a qualquer instante que uma 
fora invisvel a puxasse para baixo. Mas essa fora no veio. Meg passou direto pelo porto do inferno. S ento respirou aliviada. Mame, aqui vou eu.
      Um dos limpa-trilhos lanou-se na correnteza. Era Belch. No estava livre da fora da gravidade do inferno, mas talvez pudesse subir o bastante para...
      Belch enroscou-se no tronco dela. Palavras sem sentido escapavam de seus lbios molhados de baba.
      - Meg Finn... - balbuciava ele - Vem comigo, Meg Finn... Para Meg, aquela era a gota d'gua. Ela j no suportava mais. Depois de tudo que havia acontecido, 
o vira-lata ainda estava atrs dela. S lhe restava uma coisa a dizer.
      - Belch! - berrou ela. - V pro inferno!!!
      Dado o recado, ela lascou um pontap no focinho suarento dele, e a criatura que um dia fora Belch Brennan despencou no fogaru do inferno com o nome de Meg 
Finn gravado na lembrana como uma orao. Ou como uma praga.

???
      
      Hora de tentar contornar a situao. Belzebu queimava os miolos para encontrar um jeito de reverter aquele fiasco em beneficio prprio. O Mestre mantinha-o 
 espera no saguo. Mau sinal.
      A secretria - uma atriz loiraa, vencedora do Oscar - finalmente apareceu para busc-lo:
      - O Senhor das Trevas vai receb-lo agora.
      Percebendo na voz dela um tom de insolncia, Belzebu pensou em vaporiz-la ali mesmo, mas desistiu a tempo. O Mestre tinha muito apreo pelas suas secretrias. 
Algumas duravam uma semana inteira antes de serem despachadas para o depsito de lixo. Literalmente.
      Sat encontrava-se num dos cantos do escritrio, debruado sobre um joguinho eletrnico.
      - Morra, seu aliengena de uma figa! - dizia ele entre dentes, manipulando os botes com impressionante rapidez.
      - Aham - pigarreou Belzebu, para se fazer notar. Sat ficou imvel. Belzebu tambm. Pigarrear para o Mestre do Submundo talvez no tivesse sido uma boa idia.
      - Voc me fez perder uma vida, Zeba.
      - Mil desculpas, Mestre - suplicou o Nmero Dois do inferno. -  que tenho notcias importantes.
      Lcifer levitou a alguns palmos do cho de mrmore. Vestia-se de maneira informal naquele dia; usava um moletom e um par de tnis da Air-Demo.
      - Notcias sobre a garota irlandesa, eu espero. Belzebu engoliu a seco.
      - Sim, Mestre. Notcias sobre a irlandesa.
      - Notcias boas?
      - A curto prazo... no.
      O Diabo franziu a testa, contrariado.
      - Mas a longo prazo colheremos os frutos de uma importante lio aprendida.
      - E que lio seria essa? - perguntou Sat.
      - Bem... Aprendemos que no podemos confiar naquelas geringonas eletrnicas do Myishi. Uma delas falhou num momento crtico e arruinou todo o resgate. A menina 
j estava no tnel, pelo amor de D... Sat!
      Lcifer tamborilou com as garras sobre a mesa.
      - Quer dizer que a menina estava no tnel, hein?
      - Aura vermelha e tudo mais.
      Ali mesmo Sat tomou uma deciso.
      - Esse Myishi... um arrogante, isso sim. Deixe-o na corrente do esgoto por alguns sculos. Estamos mesmo precisando de um filtro novo.
      - Sim, Mestre - disse Belzebu, esforando-se para esconder um risinho de satisfao. - Imediatamente.
      Ele se apressou na direo da porta, ansioso por sair dali enquanto a coisa estava boa para o seu lado.
      - Ah, Belzebu, mais uma coisa...
      Belzebu congelou no lugar, tenso, esperando a qualquer instante sentir nas costas a terrvel pontada da vaporizao.
      - Sim, Mestre?
      - Um diretor de cinema est programado para chegar hoje. Um sujeito gtico. Faz uns filmes bem macabros, com super-heris sombrios. Queria que ele desse um 
jeito na decorao deste lugar. V encontr-lo na chegada. Pessoalmente. - O Diabo fez uma pausa para estalar todos os ossos de suas garras. - E v se no pisa na 
bola desta vez, Zeba. Seno Myishi vai ter companhia no esgoto.
      Belzebu fez uma sofisticada mesura em sinal de subservincia. O teatro antes de tudo, pensou. O teatro antes de tudo.

???
      
      - Sei no - disse Pedro, dando um tapinha no seu computador novinho em folha. (Por incrvel que parea, um programador havia conseguido entrar no cu.) - Seu 
currculo  impressionante para uma adolescente. Nada de muito peso na coluna do bem.
      Meg fazia sua conhecida carinha de "sou apenas uma menininha engraadinha". Mas no enganava ningum.
      - Olha s isto aqui - continuou Pedro. - Furto em lojas. Fraude. Vandalismo. Malandragem na escola. H muito mais, s que a tela no tem espao suficiente.
      -  s usar o cursor - sugeriu Meg.
      - Claro que eu sei pra que serve um cursor - retrucou So Pedro, de um jeito nada santo. - S estou tentando ilustrar um ponto de vista, ora bolas. Voc nunca 
sabe a hora de fechar o bico, no , menina?
      - No, no sei - disse Meg, em vez de fechar o bico.
      - E voc tinha de chutar o tal de Belch, no tinha? Violncia no tnel. Acho que nunca tinha visto isso antes. Impressionante, at no seu caso.
      Meg resmungou algo que, com sorte, seria recebido como um pedido de desculpas.
      - Bem, por outro lado, voc deu a pedra a seu padrasto. Meg fez que sim com a cabea. Agora estava com medo de falar.
      - E tambm ajudou aquele mortal a realizar seus desejos. Mais gestos de cabea, desta vez mais rpidos.
      Pedro coou a barba pela ensima vez. Aquilo era pior do que esperar pelo resultado da loteria.
      - Humm... Est bem, ento. Pode entrar. - Ele apertou um boto escondido sob a mesa, e imediatamente um buraco se abriu no cu, feito um alapo. - Eu sei, 
eu sei... No  exatamente um porto perolado, mas a expresso "os portes perolados do paraso" fica muito melhor nos livros do que "buraco no cu".
      Meg s fazia sacudir a cabea. No ia mexer em time que estava ganhando.
      Pedro apontou o indicador na direo dela, fazendo-a flutuar.
      - Vai, minha filha, sobe. Acho que h algum  sua espera. Meg Finn flutuou at o alapo. Um vulto aguardava por ela na entrada. No dava para ver quem era, 
mas sentia-se no ar o doce perfume do jasmim.
